Review – Começando a caça às bruxas em Dorothea

Ela tem olhos vermelhos e pele branquinha, mas está longe de poder ser comparada a um inocente coelhinho…

Desde sempre a temática sobre bruxas sempre me entusiasmou, mas só conheci Dorothea através da minha namorada. Confesso que não tinha lido a sinopse quando a Panini o anunciou, mas achei a primeira capa bem atrativa, principalmente pelos olhos vermelhos da garota na capa, que me davam aquela impressão demoníaca, de bruxa mesmo, além de a mesma estar vestindo trajes que aparentavam a Era Medieval. Pensei logo de cara na coincidência com Claymore, embora mais à frente seja perceptível que a semelhança fica apenas no fato de ambos terem personagens principais femininas de caráter forte.

Dorothea é um mangá shounen, publicado originalmente na Dragon Age (onde foram publicados títulos famosos, como Chrono Crusade e Full Metal Panic), iniciado no ano de 2005 e já finalizado com 6 volumes, todos também já publicados pela Panini. Dorothea tem o subtítulo original que pode ser traduzido literalmente como “O Martelo das Bruxas”, mas que foi adaptado aqui como “Caça às Bruxas”, que não foge tanto ao original, pois remete logo de cara à época da inquisição, onde bruxas eram caçadas para serem mortas (mais exatamente queimadas), sendo esse um dos enfoques principais do mangá. A obra é escrita e desenhada por uma autora que assina sob o pseudônimo de Cuvie, não tendo ela nenhum outro título famoso em seu currículo (não que Dorothea possa ser considerado exatamente famoso, mas foi publicado aqui no Brasil), porém já publicou muitos hentais, e atualmente desenha uma série ecchi chamada Nightmare Maker, na Young Champion Retsu. Um ponto importante para aqueles que não gostam dos gêneros citados acima, é que Dorothea absolutamente não possui nenhum tipo de hentai ou ecchi em sua história.

A História

Dorothea se passa na Europa, durante a Idade Média, mais especificamente no período em que as invasões germânicas estavam em seu auge (entre os séculos III e VIII d.C.). A personagem título, Dorothea Eschenbach (se prepare, pois esta obra tem muitos nomes alemães), vive em Nauders, uma cidadezinha localizada entre a Suiça e a Itália, num lugar chamado “Casa dos Brancos”. O lugar era assim chamado por abrigar muitas pessoas brancas, no caso albinas (para quem não sabe, o albinismo é caracterizado pela ausência de pigmentação na pele, cabelo e olhos, o que também lhes proporciona uma menor resistência ao sol). Dorothea é uma jovem, também albina, que vive nessa Casa, administrada por sua avó, Madame Schanzgard. Porém, nossa heroína possui ainda outra particularidade, que a difere também dos outros na Casa dos Brancos: seus olhos, que são vermelhos.

Em Nauders, existe a crença de que portadores de albinismo trazem boa sorte, por isso o lar de Dorothea não corria perigo de ser atacado pelos moradores locais, entretanto, fora dali, os “brancos” eram considerados pagãos, pois acreditarem na divindade da natureza ao invés de uma entidade superior, e isso na Idade Média era mais que o suficiente para mandar alguém para a fogueira, acusado de bruxaria, ainda mais se essa pessoa fosse albina.

Quando as regiões nos arredores de Nauders entram em guerra, a “Casa dos Brancos” acaba sofrendo diversas tentativas de invasão, as quais acabam sendo quase sempre em sua totalidade repelidas por Dorothea, que desde jovem havia treinado com a espada. Porém, durante uma tentativa de invasão Dorothea estava tendo dificuldade em combater, pois era durante o dia, período em que ela ficava mais frágil em decorrência de seu albninismo, até que seu amigo de infância, Gyurk, aparece para ajuda-la. Eles não se viam há dois anos, período em que Gyurk tinha estado com um grupo de mercenários, mas estes aliados de Nauders.

Dorothea tinha esperado pelo amigo durante esses dois anos, sendo que ele tinha prometido voltar em apenas um, e fica ao mesmo tempo furiosa e feliz ao reencontrá-lo. A grande verdade é que Gyurk havia voltado para Nauders na tentativa de recrutar soldados para combaterem em sua tropa mercenária, além de avisar à Madame Schanzgard que a “Casa dos Brancos” corria o risco de ser denunciada à inquisição. Cansada de ser deixada para trás por Gyurk, Dorothea o interpela, dizendo que ele não devia ser o único a defender Nauders, e que ela poderia ajudá-lo. Para tentar acabar com as pretensões da garota, ele a desafia para um duelo com a espada, e apesar de sua habilidade, nossa heroína o derrota com um único golpe, conseguindo assim  o reconhecimento de Gyurk, além do consentimento do amigo para listar-se no grupo de mercenários, para assim poder ajudar a proteger a casa a “Casa dos Brancos”.

Considerações Técnicas

Não consigo deixar de iniciar pelo roteiro. Para mim, o roteiro por si só já seria digno de dar olhada pelo menos na primeira edição no mangá. Realmente achei incrível o modo de a autora ambientar sua história num período tão controverso da história como a inquisição. Reconheço que sempre gostei de histórias da Idade Média, e grande parte disso se deve às guerras do período, mas Cuvie mostrou um ponto de vista interessante, por meio de uma tropa de mercenários, o que torna o contexto ainda mais controverso. O pano de fundo da história se dá em terras germânicas, como citado acima, por isso os nomes dos personagens e dos vilarejos também acaba tendo características da região, o que dá um tom ainda mais realista para o mangá. Aliás, muito úteis as informações que a editora Panini colocou no glossário no final do mangá, ajuda muito a situar quem não conhece as cidades (o que serão 99% dos leitores), além da provável origem dos nomes de alguns personagens. Outro ponto muito legal de Dorothea é sua segunda contra-capa, que além de ser colorida, como a primeira, tem em cada um de seus seis volumes a ilustração de um conto dos Irmãos Grimm “representado” pelos personagens, o que pessoalmente achei muito divertido.

Quanto ao traço, posso dizer que me agradou bastante, pois não é sujo, mesmo em cenas de guerra, onde tem habituais derramamentos de sangue. A autora conseguiu expressar muito bem os pensamentos e motivações de cada personagem em seus desenhos, o que causa certas surpresas e possíveis revoltas para com alguns personagens. Vale aqui ressaltar novamente que, apesar de seu histórico de histórias de hentai e ecchi, nesta obra Cuvie se conteve, e não existem cenas desse tipo em Dorothea, sendo que quando há algo próximo a isso, é perfeitamente explicado no roteiro.

Como dito anteriormente, muitas pessoas acabam desprezando Dorothea pela sua semelhança em enredo (e até mesmo visual) com Claymore. Porém vale dizer que ambas acabam tendo um foco totalmente diferente. Claymore é um shounen que explora seu mundo com muito mais ênfase do que outros mangás do gênero (e até por isso muitos acreditam que a série se trata de um seinen), mas Dorothea não fica atrás. Apesar de apenas 6 volumes, a forma como a personalidade e desenvolvimento dos personagens são retratadas no mangá, colaboram muito com uma leitura fluente e bem simpática. Mesmo sem personagens realmente marcantes – o que é diferente de serem personagens ruins – a obra consegue ser coesa e bem estruturada do começo ao fim, sem deixar grandes pontas em aberto e abordando um tema “conhecido” de uma maneira fantasiosa e acolhedora para os fãs de mangás.

Comentários Finais

Apesar de não estar no mesmo patamar que o já citado Claymore, Dorothea é capaz de entreter e cativar aqueles que se interessam por mangás com a temática medieval. Não é exagero dizer que a autora é muito competente em conseguir recriar todo o horror e a matança da Idade Média, e principalmente da inquisição. Na maioria dos filmes e animes os mercenários são retratados na origem mais torpe da palavra, como se todos seus atos se justificassem única e exclusivamente pela ganância, e Dorothea desmistifica um pouco esse lado. Embora existam sim aqueles que lutassem por tais motivos, é possível ver uma certa nobreza em alguns, além de a visão da própria personagem título ir transformando-se no decorrer do tempo em que tem contato com a tropa.

Aliás, o crescimento de Dorothea é a verdadeira tônica da história, deixando muitas vezes todas outras questões como trama de fundo, mas não por isso menos importantes. Esse crescimento acaba sendo adquirido gradualmente, por meio de batalhas e outras pessoas, de um modo que não torna a história maçante. Seus seis volumes não deixam pontas soltas, e acho que a história acaba tendo seu final satisfatório, digno de todos que gostam de um bom shounen, e essencial para os amantes da Idade Média.

 por César

Asevedo

Designer de formação, atualmente sou Assistente editorial da Panini Mangá. Acumulo mangás e HQ's, que espero conseguir ler um dia. Assisto animes de vez em nunca.

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  • Oi! ^^
    Adoro seu site, mas acho que você exagerou um pouco na parte “A História”. Não poderia revelar menos sobre o desenvolvimento da estória, já que é uma review? Ou ao menos alertar que seria um tanto “detalhado”.

    Bom, espero que encare as críticas como construtivas.
    Interessei-me pelo mangá. Ótima recomendação. =)

    • Obrigado por seu comentário, Lolla, com certeza encararei de um modo construtivo 😛
      Apesar de tudo, lhe garanto que não dei nenhum spoiler na parte da História, mesmo ela tendo se alongado um pouco demais.

  • Kamal

    De fato o mangá é para quem curte histórias medievais e de época. Comprei o mangá porque me chamou a atenção essa parte mais medieval, apesar das capas feias do mangá haha
    Outra coisa que achei foi que o primeiro volume é muito chato e ao ler não via a hora de acabar, porém a partir do segundo volume a coisa melhora absurdamente. O traço da autora achei extremamente simples, meio genérico até, mas não incomoda e talvez fique até melhor para visualizar as cenas de batalhas e tal. Enfim, é um bom mangá 😀 eu recomendo.

    • as capas de Dorothea não são feias,o que fiko feio mesmo foi essa merda que a Panini fez com elas.

  • Parabéns! Ótimo review. Bem detalhado e claro. Como sempre os reviews do ChuNan são incríveis.
    Por favor, tragam sempre reviews sobre obras já publicadas ou em publicação aqui no Brasil.

  • ja li o volume 4 ..e achei bem legal….
    mas tenho preguiça de ler mangas……=D para ler desde o primeiro

  • Zombie-chan

    Adorei o review, gosto muito de Dorothea, ainda não terminei de ler pois comprei os últimos volumes do mangá recentemente, mas ver que o ChuNan fez um review positivo a respeito aumentou ainda mais as minhas expectativas quanto ao mangá.
    Agradeço!

  • Rayovac

    já me falaram desse manga da panini… se eu achar a coleção completa em um evento to afim de comprar… vamos ver…

    Rayovac!

  • Comprei o primeiro volume e nem consegui lê-lo todo achei chato xP

  • Igor Snow

    Li Dorothea até o terceiro volume e adorei o mangá!
    Queria saber se posso ler o texto ou corro risco de ter spoilers dos volumes seguintes =P

    • Pode ler tranquilo, não faço nenhuma referência que fuja do primeiro volume.

      • Igor Snow

        Gostei do seu texto, e muito ao contrário da Lolla, acho que você fez milagres em explicar bem a essência da história sem dar spoilers ou falar demais rs
        Mas ao contrário do que senti no texto (me corrija se eu estiver errado) não acho que Dorothea seja apenas “mais um”, que agradará ao nicho a que se destina. Pra mim, poucos mangás conseguem uma transição tão boa do “herói” para o “vilão” como apresentou dorothea em sua primeira metade. Além disso, a autora consegue boas cenas dramáticas sem apelar pra muito sangue (e uma coisa engraçada é que as vezes ela representa o sangue com manchas no quadro). Vale muito a leitura, na minha opinião.

      • Sim, concordo com você, não acho que Dorothea seja apenas mais um, mas creio que agradará mais quem se interessa por esse nicho. Acredito que todos devessem dar uma oportunidade de conhecer pelo menos

  • Johnny Hebert

    Ótimo mangá!

    Não chega a ser um One Piece ou Dragon Ball na vida, mas vale muito a pena. Um dos motivos tbm é que são apenas 6 volumes, e se for comprar em eventos sai mais barato ainda.

    Muito bom msm esse mangá!

  • Aleo

    Excelente review, mas achei um exagero a comparação com Claymore. Eu sou fan de obras com temática medieval e de fantasia medieval, logo que vi no checklist da Panini o mangá de Dorothea já me interessei. Gosto muito de como a autora tratou da protagonista, Dorothea me lembrou muito a Saber das séries Fate por sua personalidade séria e uma aura de heroína épica. A estória é bem interessante, nela percebe-se como Dorothea amadurece vendo o mundo como ele realmente é, diferente dos contos épicos. Particularmente me apaixonei pela personagem, a maneira como ela lidou com o preconceito e seu espírito idealista me cativou. Achei uma pena o que a Panini fez ao colocar bordas nas capas, as originais são lindas e mais chamativas, mas gostei do trabalho no mangá. Para aqueles como eu que adoram Lodoss War, Guin Saga, Claymore, vale a pena ter Dorothea.

    • Igor Snow

      Super concordo! Só não com o final por que conheço pouco ou quase nada dessas obras, mas com certeza vou procura-las agora que falou XD

  • Nada a ver com o post mais eu preciso dizer isso.
    ToC da semana foi épica, mal posso esperar pra ver os comentários do ChuNan!

  • MateusFSP

    Eu li só até o 3º volume. Não porque não gostei. Achei a série é ótima e ela se desenvolve muito bem. Confesso que gosto muito dessas coisas de Bruxas na idade média, apesar de ser hiper revoltado com a inquisição haha X_X
    Enfim César, uma ótima escolha pra fazer um Review xD Ainda mais quando se é com uma qualidade boa dessas xD
    (Não estou desmerecendo outros reviews do ChuNan!)
    Enfim, é um ótimo mangá, recomendo a todos 😀

  • Caramba, nunca imaginei que Dorothea pudesse ser tão legal. Vi vendendo todos os volumes no jornaleiro e nunca me interessei porque achei que se tratava de algum mangá bobinho. Jamais imaginei que pudesse se desenvolver de forma tão legal. Vou ver se dou uma lida na internet e depois procuro os volumes novamente.

    Parabéns pela crítica =D

  • Gostei da postagem, estava procurando sobre informações desse mangá que achei coincidentemente em um certo site de venda de mangás, e achei este post. Realmente tirou todas as minhas dúvidas, e outra coincidência foi que eu também fui atraído pela capa. *¬*

  • carlos

    eu tenho alguns mangas e e muito foda a historia *-*

  • Mário

    Sempre leio reviews no seu blog, mas nunca comentei. Este mangá é realmente excelente. Tem um enredo bem mais criativo e bem construído que a maioria dos shounens. Também gosto bastante dele por ter 6 volumes, o que acho ótimo, pois a estória não se alonga e termina na hora certa. Excelente review. Ah, quase esqueci. Não sei por que diriam que lembra claymore, fora o contexto medieval as estórias são absolutamente distintas 🙂

  • Mário

    Esqueci de mencionar que nunca tinha ouvido falar do mangá quando comprei e achei a primeira capa muito atrativa. Concordo!