Review – Batalhas espaciais, monstros e robôs gigantes em ‘Knights of Sidonia’

sidonia-reviewA cruzada da humanidade a bordo da gigantesca Sidonia.

Tsutomu Nihei é um mestre contemporâneo. Apesar de muitos acharem suas obras e arte confusas, além de sempre se passarem em um mesmo “mundo” chamado carinhosamente de “Niheiverse“, o autor é conceituado por onde passa, com obras publicadas em diversos países e um sucesso indiscutível. Seu carisma e atenção com os fãs também colabora muito para o fato da figura já ter marcado presença, inclusive, em trabalhos da Marvel, por exemplo. No Brasil, a Panini tentou trazer Abara, um curta em 2 volumes que acabou fracassando fortemente em tentar desabrochar o autor no país. Muitos anos se passaram até que ele pudesse ter um mangá publicado aqui novamente, mas o dia X chegou.

Anunciado no final de fevereiro de 2016 no Henshin Online 69, com lançamento posterior no Henshin+, o evento anual da editora JBC,  o mangá de Knights of Sidonia, de Tsutomu Nihei, é um dos títulos de ficção científica espacial presente em nossas terras. Sidonia foi publicado no Japão na revista Afternoon, da editora Kodansha, entre 2009 e 2015. A coleção está completa em 15 volumes. A série ganhou uma adaptação em duas temporadas de anime pelo estúdio Polygon Pictures utilizando do 3DCG e, embora tendo recebido críticas por utilizar tal modelo de animação, fez sucesso internacionalmente e está disponível no serviço de streamming Netlfix em diversos países, incluindo no Brasil.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-1A HISTÓRIA

Mil anos se passaram desde a destruição do Sistema Solar pelos Gaunas, uma estranha raça alienígena sem nenhum método conhecido de comunicação. A gigantesca nave espacial Sidonia viaja pelo universo para garantir a sobrevivência da espécie humana. O jovem Nagate Tanikaze, que cresceu no nível mais inferior da nave, acaba sendo recrutado para ser um dos pilotos que protegem Sidonia utilizando os robôs conhecido como Guardiões. E assim abrem se as cortinas de uma nova batalha na qual Nagate e seus companheiros precisam colocar suas vidas em risco contra os Gaunas pelo futuro da humanidade!

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-4CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

Knights of Sidonia começa situando o leitor na figura do protagonista Nagate, que está conhecendo o “mundo” dos níveis superiores da grande nave Sidonia. Tendo sido criado nas camadas baixas da nave ele não conhece como funciona o mundo acima dele, embora seus resultados nos antigos simuladores dos Guardiões mostrem resultados bem expressivos. Apesar de ter sido “preso” e levado uma grande bronca quando foi pego roubando comida, Nagate passa a impressão de inocência e ingenuidade, parecendo mais com uma pessoa que chega em um país totalmente diferente do que com uma criança. Ele acaba entrando para a unidade de treinamento dos Guardiões onde começa um processo de aprendizagem e integração com o “mundo” da nave de forma mais concreta e direta.

Para sobreviver no espaço, a humanidade desenvolveu tecnologias que facilitam e, de certa forma, descartam coisas supérfluas. Não é mais necessário comer, a humanidade desenvolveu a habilidade de fotossíntese através da conversão orgânica. A reprodução também mudou, um novo gênero é desenvolvido permitindo que ele se reproduza como indivíduo do sexo masculino ou feminino, mas também se clonando assexuadamente.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-3Como bem definido pelo seu autor, Knights of Sidonia é um mangá de robôs gigantes pilotados por humanos que batalham no espaço com monstros igualmente grandes, e o desenvolvimento dos personagens envolve basicamente isso, o dia a dia é o treinamento para a próxima luta, com pouquíssimos momentos para ações mais sociais, que serão afetadas por essas lutas em pouco tempo.

A arte do autor é direta e clara, até em excesso em várias situações. Há uma distinção exata no uso de retículas, sobretudo em lutas no espaço com efeitos de sombra e luz, mas no interior da nave tudo parece muito cintilante, como se sempre fosse o meio-dia de um dia quente, exceto a ponte de comando, escura como uma noite sem estrelas. O que realmente incomoda nesse quesito é a expressão dos personagens, que tem um rosto tão “limpo” que aparentam ser todos apáticos e muito iguais, sendo realmente difícil distinguir um dos outros pelo rosto. Para quem conhece o autor por outras obras chega até a estranhar um pouco a diferença do visual entre os clássicos Blame e Biomega, por exemplo, em comparação com Sidonia.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-6Em compensação, a luta de robôs contra os Gaunas é executada com maestria e riqueza de detalhes. São lutas bonitas e fáceis de serem entendidas, que não parecem uma tempestade de informações desnecessárias no decorrer da coisa.

A EDIÇÃO NACIONAL

O trabalho editorial da JBC é muito bom na tradução e adaptação do material. A influência da versão do anime no Netflix serve como um direcionamento para que o título esteja acessível para uma maior parcela da população, além disso, a editora trabalha forte no marketing do título, o utilizando frequentemente em eventos e até mesmo com a vinda do autor ao Brasil, na edição de 2016 da CCXP. Soma-se o fato da mesma ainda ter publicado Blame, do mesmo autor.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-2A JBC pode ter acertado em seu trabalho editorial, mas pecou bastante na qualidade gráfica. Temos um mangá tanko bem fino e com um papel com uma transparência elevada, que fica mais evidente ainda com a arte clara do título. Não chega a ser tão ruim como o caso de Gangsta. – que a editora aumentou o preço no segundo volume para melhorar a qualidade – mas pelo preço que se paga se esperava uma qualidade maior sem ter o “spoiler” da página seguinte, o que acontece frequentemente devido a arte “clara” do mangá.

A capa dele é bem direta e chama a atenção, embora me incomode a escolha tipográfica do título, o S é muito feio e nem parece com a letra direito. A sobrecapa/pôster enviada para assinantes e para quem adquiriu no dia do lançamento é um brinde legal de se ter de vez em quando, mas se fosse algo presente em todos os volumes consideraria ser dispensável para que fosse melhor investido na qualidade do papel interno do mangá.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-8COMENTÁRIOS FINAIS

Knights of Sidonia é um mangá que chegou ao país em um bom momento para os mangás de ficção científica. Tentando pegar um bom hype causado pela produção do Netflix, a série tenta se segurar em uma lacuna pouco explorada no país até o momento – poucas séries hoje em bancas utilizam-se desse argumento. Além do mais, preenche uma lacuna infeliz de nosso mercado que são mangás de mechas, sendo uma ótima pedida para os que gostam do gênero.

Não deixe de lê-lo se você possui algum preconceito por “lutinhas de robôs”; o mistério dos Gaunas e do destino de Sidonia é de despertar a atenção mesmo dos que não gostam de ficção científica. O maior problema é a certa lentidão do autor em transmitir sua mensagem. Alguns volumes parecem durar uma eternidade. O traço “simples demais” para alguns também pode ser algo a afastar o leitor buscando conhecer algo totalmente novo.

knights-of-sidonia-fotos-resenha-jbc-7Esta resenha baseou-se somente na primeira edição da série, mas tendo em vista que outras já foram lidas, é impossível não deixar de dar alguns avisos de antemão: Sidonia não é um ápice de ação, não possui os melhores personagens do mundo e muito menos a trama mais original. Ele consegue te prender e te afastar ao mesmo tempo, às vezes te dando até certa preguiça de continuar com a leitura. Não é um mangá dispensável, não é a coisa mais chata do mundo, mas passa longe de ser uma unanimidade. Me arrisco a dizer que o anime do Netflix consegue transmitir as coisas de uma forma muito melhor do que sua versão em quadrinhos. Não é a melhor obra de Nihei, mas talvez possa ser uma boa porta de entrada para aqueles que desejam adentrar em seu estilo. Blame pode “espantar”.

A torcida é que o gênero se torne ainda mais forte com Sidonia, e que tanto JBC quanto Panini continuem investindo em ficção científica, mechas muitas aventuras espaciais.


FICHA TÉCNICA

knights_of_sidonia_01
Título: Knights of Sidonia

Autores:  Tsutomu Nihei
Editora: JBC
Total de volumes: 15
Periodicidade: Bimestral
Valor: R$ 17,50
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Pontos Positivos

  • Tradução e adaptação;
  • Enredo simples e direto com grande potencial;
  • Excelentes lutas de robôs e monstros;
  • Bons brindes no primeiro volume.

Pontos Negativos

  • Personagens com falta de expressão;
  • Preço;
  • Papel muito transparente.

Nota Volume 1: ★★★

Asevedo

Designer de formação, atualmente sou Assistente editorial da Panini Mangá. Acumulo mangás e HQ's, que espero conseguir ler um dia. Assisto animes de vez em nunca.

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  • Marcos Correia

    A arte desse manga realmente me incomoda. Se de um lado é bela e detalhada em alguns momentos, de outro a narrativa é confusa e você não entender o que está acontecendo na página.
    Os rostos inexpressivos também são muito chatos.
    Uma pena, porque a história é muito interessante.

  • gilberto94819

    A JBC deveria largar esse papel offset transparente e investir em lux cream. Offset só presta se for de alta gramatura.

    • Nem com alta gramatura, o melhor pra mangás mesmo é o LuxCream ou Pólen-Soft. Papel off-set combina só com traços mais rabiscados(como o de Vagabond), mas ficaria melhor com LuxCream. A leitura de Lobo Solitário é terrível com papel off-set.

      • Me equivoquei: rabiscado não, mas sim detalhado.

  • Eu achei a tipografia utilizada pela Jbc muito bonita, das que vi até agora de outros países, é a que mais combina. O ruim do mangá é o preço, a transparência não me incomodou tanto quanto Gangsta., Orange e Naruto Gold, mas é ruim de qualquer jeito.
    Bom, espero que a Jbc invista mais no formato de BLAME!(que é um puta mangá, não é nada chato como eu ando vendo). Espero que a Jbc traga BIOMEGA e NOiSE no mesmo formato de Blame!, não precisa nem se sobrecapa, papel LuxCream combina muito com o traço magnífico do Nihei.

  • Renato Andrade

    Eu gostaria de acrescentar sobre os cenários, pois eles são o oposto da simplicidade do traço dos personagens, os planos abertos são incríveis. Ele gosta de mostrar a escala entre pessoas/robôs/naves.