Review – ‘Hal’ e a iminente síndrome de histórias infelizes com I.A.

“Isso é tão Black Mirror.”

Quando se trata de inteligência artificial, quase chego a odiar o assunto. Devido a certos traumas, digamos que não consigo absorver esse conteúdo sem pensar no “e se isso fosse real?”. Mesmo com diferentes abordagens pelo mundo do entretenimento – desde episódios “tranquilos” de Black Mirror até algo mais profundo como Westworld –, é como se para mim ainda fosse algo… absurdo. Substituir alguém que já morreu por uma máquina que foi programada para agir como aquela pessoa é assustador. Pode até ser descrito como uma “terapia”, mas cada um age de maneira diferente para cada situação; para uns pode ser um método de superação, enquanto para outros é só mais uma forma de enlouquecer.

E é nesse tema que apresentamos Hal, um simples mangá shoujo de Umi Ayase, mas que pode ser muito mais complexo do que você imagina.

A HISTÓRIA

O coração de Kurumi está estilhaçado após a morte de seu namorado Hal em um terrível acidente de avião. Ela não consegue mais ter forças para continuar vivendo sua vida sem seu amado e acaba desistindo do mundo. Mas a família, junto com um brilhante cientista chegam a conclusão que apenas uma terapia nada convencional poderia ajudá-la: a robô terapia. Eles transformam a aparência do robô QO1 em algo extremamente humano e o enviam para tomar conta da casa e da garota. Com o tempo, a ligação entre os dois vai ficando cada vez mais forte e aos poucos o passado do casal é revelado, mostrando que nem tudo são flores.

COMENTÁRIOS GERAIS

Hal foi publicado na revista Betsuma Two, uma espécie de material spinoff da Betsuma, principal revista shoujo da Shueisha. O mangá, com arte de Umi Ayase, foi publicado em 2013 em praticamente simultâneo com a exibição do filme que deu origem à história. O filme produzido pelo estúdio Wit Studios, o mesmo de Shingeki no Kyojin, levou character design de Sakisaka Io, autora de Aoharaido. O mangá adapta a mesma história com pequenas mudanças e toques pessoais da autora, como ela mesma descreve em seus freetalks no único volume compilado. O mangá foi anunciado no Brasil pela editora Panini em 2017.

O mangá de Ayase prefere tomar um rumo ameno e sem grandes aprofundamentos – mesmo incluindo a discussão do “ser ético ou não” –, buscando usar Hal como um instrumento de superação para a morte de um ente querido. E claro, desenterrando todo o drama e o sofrimento daqueles que encarram novamente aquilo que já deveria ter partido. Não espere nada fofinho daqui para frente.

Não se deixe enganar pelo aspecto colorido e o traço redondinho da obra. O mangá não é nenhum Orange, entretanto, mesmo com apenas um volume, é possível se emocionar com a melancolia que transborda das páginas. A obra que carrega a demografia shoujo em sua ficha, não deve ser rotulada como um título “bobinho”; com quatro capítulos, a trama se desenvolve com ajuda de flashbacks, apresentando os motivos que levaram o casal a presenciar o trágico acidente.

Kurumi é uma menina que está disposta a ajudar os outros, mesmo que isso seja sinônimo de não ganhar nada em troca; ela cria um mundo próprio ao sair colecionando objetos bonitinhos que vê pela frente, ações que são reflexo de sua personalidade pura e gentil. Enquanto isso, Hal, em oposição, é um personagem misterioso. Ele não parece ser o tipo de cara que combinaria com uma garota tão bondosa como Kurumi, inclusive conforme o enredo vai se desenvolvendo, há sementinhas de dúvida se ele era mesmo uma pessoa bem-intencionada e se ele merecia a namorada.

Apesar de haver todo um questionamento sobre o caráter do garoto, o Hal do presente se mostra diferente daquele que é visto nos flashbacks. A todo momento ele corre atrás para garantir que os desejos da Kurumi sejam realizados e que ela posso sorrir novamente.

Precisamos falar também em como as pessoas a volta do casal realmente se importam com os protagonistas ao ponto de não problematizarem o fato de haver um robô substituto os cercando. Mesmo a obra tocando em um assunto delicado sem grandes conflitos, ele ainda aborda o quão ético é intervir na vida de um ser humano com a presença de algo superficial. Enquanto uns acreditam que essa é uma solução rápida e eficaz para a superação, outros se incomodam com o método pouco ortodoxo. Mas é compreensível pensar assim, uma vez que o procedimento é invasivo. Há uma passagem da história que diz “a dor e o sofrimento que você sente é algo que pertence somente a você”, então por que tentar acelerar o processo de superação com algo que é tão incerto? Deixo a pergunta em aberto para reflexão.

Diria que, para um mangá tão curtinho, Hal consegue encerrar toda sua história com maestria. O leitor entende a proposta e também é fácil perceber que uma série longa seria “encher linguiça”. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento – ênfase em desenvolvimento, não no final – em alguns momentos é confuso, como se faltasse explicar uma peça ou outra. Isso ainda sem entrar na discussão de como uma I.A. consegue exercer funções tão perfeitas sem, de fato, sofrer com esses processos. Mas qualquer comentário além deste seria um grande spoiler.

CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

Como dito anteriormente, Hal teve toda sua criação em torno do longa metragem de mesmo nome. Por carregar o character design de Sakisaka Io, o mangá deveria seguir a mesma linha e concept. Umi Ayase – que muitos afirmam ter sido assistente de Sakisaka ainda nos tempos de Strobe Edge – foi a escolhida. Ela vinha da publicação do curto Seisshun Note, e assume Hal, aquele que viria a ser provavelmente seu trabalho mais famoso.

Como esperado, a arte emula perfeitamente o visual de Sakisaka de modo natural e sem problemas de parecer forçado como muitas adaptações de anime para mangá que conhecemos. O que ao mesmo tempo é um problema, já que nada ali parece original da autora responsável. O visual consegue passar para o leitor um sentimento de “amor” e “dor”, em níveis bem tocantes. Outro ponto a se destacar é toda a composição utilizando os elementos chave da série (a girafa, os cubos…) dentro das páginas internas, nas aberturas de capítulos e até na capa da edição. Um trabalho de design que sabe manter as características de um shoujo e ainda quebrar expectativas depois de ler toda a história.

CONCLUSÃO

Quando comecei a escrever essa resenha, acreditava que expor a minha opinião sobre o assunto seria errado. Minha opinião seria errada. Não leio ou assisto somente o que gosto, sigo um ideal que me leva para fora da minha zona de conforto porque sei que saindo dela eu tenho a oportunidade de evoluir; mas quando o tópico de inteligência artificial entra em jogo, não consigo deixar de pensar como é errado. E é algo que não consigo mudar – um dia, quem sabe?

Hal é muito mais profundo do que parece. A todo momento ele deixa rastros discretos, indagando para o leitor: “Você acha isso certo? O que você faria no lugar?”. Ele discute tabus, fala sobre arrependimentos, princípios morias e discute como as relações humanas são frágeis. E, além de tudo, consegue surpreender.


HAL

Autora: Umi Ayase
Editora: Panini Comics
Demografia: Shoujo (Betsuma Two)
Total de volumes: Volume único
Preço: R$16,90

Nota: ★★★★

 

Miyuki

Tão normal, nem parece otaku. A louca das webcomics. Segue o mantra de ler e assistir de tudo um pouco (menos o que for terror, por favor). Tem um vício novo a cada mês e surta horrores na conta pessoal no Twitter.

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    A curiosidade que bateu agora… ‘-‘

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    Não pensava em pegar esse mangá para ler, até porquê de primeira vista não tinha me interessado (e também tô indo a falência com tanto mangá e livro), mas depois de ler seu texto resolvi dar uma chance. Aliás, meu primeiro shoujo.

  • Marcos Correia

    Eita! Quando foi que saiu isso? Passei na banca hoje e não vi.

    • Vinicius Asevedo Vieira

      Ele foi um dos anunciados pela Panini na CCXP Tour de Recife.

  • Cristiano Richter Schropfer

    Eu assisti ao filme ontem e, sinceramente, achei a história mal explicada. Você acaba o filme com muita desconfiança a respeito do caráter do Hal, o que afinal era o trabalho dele quando era criança, por que ele tinha aquele trabalho, por que ele tinha um “coração de robô” nas mãos, quem eram aqueles conhecidos dele, enfim, muitas dúvidas. A animação é linda e impecável, no entanto. Adoro o character design da Io Sakisaka.