Admirando a volta de Takehiko Inoue e Vagabond #301

Para ver, refletir e admirar a beleza desse mestre dos mangás.

Talvez esse seja um post um pouco diferente do que vocês estão acostumados a ver aqui, mas é um daqueles que eu me sinto na obrigação de fazer. Como já devem ter percebido, eu e o Luk somos abertamente fãs de Takehiko Inoue, autor das obras Slam Dunk e Real, ambos com reviews publicadas aqui no Chuva de Nanquim. É meu mangaká favorito, e meu grande ídolo no ramo. Um verdadeiro mestre. Seu traço, sua forma de dar vida para um mangá e a maneira como ele consegue desenvolver uma história é para poucos. Um gênio, resumindo.

Color page dupla do capítulo 301. Reparem na leveza e no nível de detalhes da colorização dessa ilustração. Cliquem para ampliar.

Como eu havia dito aqui há algumas semanas, o autor esteve em pausa devido a uma doença (nada grave) e por isso se ausentou da autoria de Vagabond e Real, suas séries regulares e ainda em andamento. Na semana passada, Vagabond teve seu retorno na revista Morning da editora Kodansha, com o capítulo 301 recheado com algumas color pages e mais de 40 páginas para delírio dos fãs.

Para quem não sabe, a história de Vagabond é baseada na vida de Miyamoto Musashi, famoso personagem histórico da cultura japonesa e que ganhou um romance fictício criada pelo escritor Eiji Yoshikawa contando a história do samurai sem se prender a fatos reais. Não vou entrar aqui nos méritos da história pois pretendo deixar isso para uma review futura, por isso vocês terão que sair aí para correr atrás das edições abandonadas da Conrad (que infelizmente cancelou os dois formatos ao qual o mangá era distribuído no Brasil) ou recorrer a internet loja de importadora mais próxima de vocês.

Mas enfim, falei, falei e não expliquei post. O capítulo 301 de Vagabond acabou sendo o que chamamos um “rascunho” feito pelo mestre Inoue. Mas acalmem-se: não é um rascunho a la Togashi de Hunter x Hunter, e é isso que eu gostaria de mostrar para vocês. Reparem na beleza do traço até mesmo “bagunçado” e estremecido de Inoue. É uma obra de arte a ser contemplada e nada mais. Selecionei aqui algumas imagens e páginas especiais, incluindo as páginas coloridas que vocês podem ver na parte de cima desses parágrafos.

Vamos apreciar um pouco dessa arte então?

Essa color page ficou simplesmente sensacional! Reparem na colorização, no nível de detalhamento do rosto, dos lábios, em toda a atmosfera criada ao redor de Musashi. Vejam com cuidado os olhos do personagem! Sensacional! Poucos conseguem fazer uma ilustração em um mangá que consiga passar tantas emoções assim.

As cenas de ação Vagabond são um show a parte. Reparem que mesmo se tratando de um “rascunho”, Inoue não deixa de se preocupar com a ambientação dos personagens e da forma como eles interagem com o mesmo. Muitos falam que o “cenário” pouco importa em uma história (cof cof Bleach cof cof)  mas a verdade é que qualquer tipo de ambientação bem feita ajuda o leitor a se envolver ainda mais com toda a cena.

Aqui mais um exemplo de cena de ação dentro do capítulo 301. Nesse fica bem claro que o autor utiliza-se de traços rascunhados e semi-prontos, principalmente nas hachuras (quem tiver a chance de conferir os volumes anteriores, verá que o nível de traçado dele nas ilustrações é geralmente muito maior do que esse). Mesmo assim, o autor soube como empregar o uso das mesmas hachuras para dar dinamismo e vida a uma cena de forma rápida e até mesmo poética, com o ataque dos samurais, o olhar de Musashi e a passagem das espadas. Lindo!

Essa cena é a continuação da anterior e novamente eu quero frisar o uso dos cenários e da composição de elementos na página. Como eu mesmo havia dito, é uma narração poética. Vagabond é um mangá de relativas poucas falas, mas com composições assim conseguem passar todas as suas mensagens e sensações do momento para os leitores. Não dá pra explicar, só posso dizer: vejam.

Pra finalizar, duas imagens que retratam no que Takehiko Inoue se destaca em todas as suas obras: a capacidade de retratar através de expressões tudo que o personagem sente naquele momento. Reparam na profundidade do primeiro quadro em cada mínimo detalhe, tanto em seus olhos quanto no movimento de seus cabelos. No segundo, vemos o exato oposto da primeira imagem, com uma imagem nítida mas que demonstra todo o sofrimento da batalha nos arranhões, na barba mal feita, no movimento utilizado nas hachuras para demonstrar o cansaço.

Vagabond é sensacional por inúmeros motivos e Takehiko Inoue não tem mais nada para provar para ninguém. Se isso é um rascunho, imaginem tudo isso no volume fechado, quando eles geralmente redesenham os detalhes para aperfeiçoá-los? Eu espero que um dia possamos ter esse mangá de volta em nossas terras, já que esse gênio dos quadrinhos não pode ficar omitido no Brasil. Vagabond é Vagabond. Inoue é Inoue.

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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