Eu Recomendo | Os clássicos dos mangás shoujo #001

Sobre quem fez a história acontecer.

É fato que nós, leitores ou não, passamos toda uma vida ouvindo falar sobre como determinado título é considerado clássico, mas muitas vezes nós não compreendemos o que quer dizer “ser clássico”, encarando de forma simplista um honorífico que sem dúvida não veio de graça. A definição de clássico, no entanto, não é um consenso nem mesmo entre quem é entendido da coisa. Há quem diga que é pelo impacto que causaram na época, por serem atemporais, por serem o retrato de uma época, por terem gerado tendências, se destacado entre tendências, ido contra as tendências ou um conjunto de tudo isso. Cada caso é um caso.

Conhecer esses clássicos é compreender como os clichês surgiram, como foi criada toda uma nova geração de leitores e autores, como as ideias eram e passaram a ser comunicadas. Conhecer clássicos é dar nomes as pessoas que lutaram contra muitas adversidades para publicarem obras com temas polêmicos, mas que mudaram para sempre a forma como os assuntos são vistos e abordados em cada demografia – e com o shoujo não foi diferente.

Para celebrarmos o trabalho dessas personalidades, separei aqui cinco obras que podem te guiar através do que era o shoujo e do que ele foi se tornando ao longo do tempo. A maioria dos mangás de fato clássicos do Japão não foram publicadas em terras brasileiras, alguns sequer no ocidente. Assim sendo, tentei contemplar alguns títulos que felizmente temos por aqui e outros que temos esperanças de ver sendo publicados algum dia. Vamos lá?


RIBON NO KISHI
por Osamu Tezuka
3 volumes (1953~1956) | Shoujo Club
4 volumes (1962~1966) | Nakayoshi

A obra narra as aventuras da princesa Safiri na Terra de Prata. Por causa de uma rígida lei de seu reino, ela é obrigada a se disfarçar de príncipe para que seu pai não seja destronado. Desconfiado e de olho no trono, o perverso Duque Duralumínio, auxiliado pelo nefasto Senhor Nylon, tenta desmascarar Safiri. O objetivo do duque é empossar seu filho, o Príncipe Plástico. Mas esse não é o único problema da heroína. Safiri também enfrenta o malvadão Satã e sua terrível serva, Madame Inferno. Por sorte, ela conta com o auxílio do anjinho peralta Ching (que fora expulso do céu por causa de suas travessuras) e do príncipe Franz, da Terra do Ouro. (Fonte: Biblioteca Brasileira de Mangás)

A escolha de “A Princesa e o Cavaleiro” para encabeçar nossa lista se dá por dois motivos principais: por ser uma obra importante não apenas em termos de shoujo como também de mangás em geral, e por já ter sido publicado no Brasil pela Editora JBC entre 2002 e 2003 em oito volumes (inclusive com um relançamento à caminho!). Osamu Tezuka faz uma boa caracterização de sua protagonista Safiri e a utiliza muito bem como força motora de seu enredo, transformando a premissa que soa infantil e até um pouco desinteressante em um material bacana, bastante representativo da faceta infanto-juvenil de Tezuka e do que eram os shoujos naquela época, tanto por ter sido escrito por um homem como por focar em uma história de fantasia com ares de fábulas ou contos de fadas. Acredito que a leitura da obra seja válida e importante, mas apenas se o leitor tiver em mente que os anos 1950 eram outros e que a forma de contar história é bem típica dessa década.


FIRE!
por Hideko Mizuno
4 volumes (1969~1971) | Seventeen

O jovem Aaron é injustamente enviado para um reformatório, onde ele conhece Fire Wolf – mais velho, rebelde nato e talentoso cantor. Após Wolf morrer num acidente de moto, Aaron se torna um músico de rock, começando assim uma frenética odisseia através da América do final dos anos 1960. Atormentando por visões de Wolf, Aaron explora drogas, misticismo e amor. (Trad. Fonte: MyAnimeList)

Hideko Mizuno é uma autora ambiciosa e que sabe surpreender como ninguém. Tendo ingressado no ramo após trabalhar como assistente de Osamu Tezuka, lançava um título shoujo pouco usual atrás do outro, e em plenos anos 1960 foi de Westerns até tramas psicológicas cheias de metáforas e simbologias. Por sua vez, FIRE! era um mangá protagonizado por um rapaz e abordava a contracultura nos EUA, contexto que Hideko Mizuno utilizou para focar em assuntos contemporâneos com um viés mais sério e maduro. Para se ter uma noção da importância desse enredo, FIRE! foi o primeiro shoujo à mostrar uma cena de sexo explícita, fator que influenciaria autoras do futuro Grupo do Ano 24 à abordar sexualidade mais abertamente. FIRE! também rendeu à mangaká o Shogakukan Manga Award de 1970, passo importante em sua carreira e que ajudou a consagrá-la como uma dos nomes mais bem sucedidos de sua época. Até o momento dessa postagem, FIRE! infelizmente não foi publicado em nenhum país ocidental, mas a importância desse material torna o conhecimento do título e de sua criadora imprescindíveis. Ficam os nossos mais sinceros votos de que, algum dia, as editoras do lado de cá se interessem e tragam essa pérola para nós.


ROSA DE VERSALHES
por Ryoko Ikeda
10 volumes (1972~1973) | Margaret

 

Primavera de 1770. Maria Antonieta, da Família Habsburgo da Áustria tornou-se a delfina da França com apenas 14 anos ao entrar para a Família Bourbon. Oscar François de Jarjayes, capitã da Guarda Real, foi escolhida para realizar a escolta da jovem delfina. Apesar de ser a filha caçula de uma casa de generais e dona de uma beleza exuberante, foi criada como um homem para ser a sucessora da Família Jarjayes, recebendo educação militar desde cedo. Apesar de viver na corte, Maria Antonieta sentia uma grande solidão por estar em um país estrangeiro. Desejando esquecer esse sentimento, a delfina participa de um baile de máscaras realizado na casa de ópera. E nesse dia, ela conhece o jovem nobre sueco Hans Fersen e se apaixona perdidamente por ele. Esta é a noite que uniu o destino destes três jovens de 18 anos. (Fonte: Editora JBC)

Rosa de Versalhes foi o primeiro pé na porta que o Grupo do Ano 24 deu, avisando que tempos de mudanças se avizinhavam. A quadrinização era (e continua sendo) incrível, com direito a brilhos, flores, roupas e cabelos belissimamente desenhados, um trabalho de pesquisa histórica simplesmente incrível para construir a ambientação e os acontecimentos (coisa que futuramente se tornaria uma das marcas registradas da autora) e os personagens. Ah, que personagens – principalmente as femininas! Ryoko Ikeda gosta e tem um tato para escrever sobre mulheres que é espantoso, mostrando o quão complexas e fascinantes elas podem ser, explorando desde as melhores qualidades até os piores defeitos. Ainda que a mais marcante de suas personagens aqui seja obviamente Lady Oscar, é preciso dizer que cada uma delas têm seu tempo e sua função no enredo, e como tem bastante gente no elenco de Rosa de Versalhes, isso denota o exímio domínio que a autora tem de sua trama – característica que, aliás, podemos estender para boa parte de seus trabalhos. O mangá foi publicado no Brasil pela Editora JBC em 2019 compilando os 10 volumes da edição japonesa em 5, e que felizmente ainda se encontram à venda.

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BANANA FISH
por Akimi Yoshida
19 volumes (1985~1994) | Betsucomi

A natureza fez Ash Lynx uma pessoa bonita, mas sua criação o fez um assassino cruel!!!!!!!! Em 1973, no Vietnã, um soldado americano perde a cabeça e atira em seus companheiros. A partir de então, ele não fala mais, mas às vezes, essas duas únicas palavras saem: “Banana Fish”. Doze anos depois, em Nova York, a polícia está investigando uma série de suicídios duvidosos. Um dia, um homem é baleado friamente na rua e, antes de morrer, dá a um jovem chamado Ash uma substância misteriosa. Que conexão existe entre essas mortes suspeitas? Ash tenta descobrir a verdade. Mas um certo Dino Golzine, padrinho do submundo de Nova York, não hesita. Intenso, incorreto, magnético, eis aqui o trabalho que fez história no Japão, indo além das fronteiras de gênero. (Fonte: Biblioteca Brasileira de Mangás)

Banana Fish é o tipo de série que é geralmente recomendada como “o shoujo para quem não gosta de shoujo” ou “o shoujo que nem parece shoujo” e mais alcunhas dessa natureza. É um chamariz que atrai muita gente, mas o que faz essas pessoas seguirem até o final vem justamente do lado shoujo da moeda. Apesar de usar momentos históricos como pano de fundo e ter elementos bastante similares aos de séries policiais e filmes de ação “brucutus” da década de 1980, muito do que esse mangá é enquanto drama teve influência dos clássicos shoujo de 1970. Tal união, que para muitos pode soar profana, resultou numa história de ação com um drama poderoso e personagens que até hoje comovem e marcam leitores ao redor do mundo – e não apenas leitores, autores também. De cabeça, posso citar dois nomes que fizeram escola com Akimi Yoshida: Yuu Watase (seu controverso Sakura-gari não nega as inspirações) e Atsuko Asano (cuja paixão pelo mangá levou-a a criar o também maravilhoso No.6). Atualmente, Banana Fish está sendo publicado pela Panini no formato dois em um, finalizando a série em dez volumes.

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BASARA
por Yumi Tamura
27 volumes (1990~1998) | Betsucomi

Sarasa cresceu sabendo que seu irmão gêmeo Tatara foi profetizado como o “garoto do destino”, aquele que poderia derrubar o governo opressor e unir as pessoas. Quando Tatara morre em batalha, no entanto, Sarasa compreende que cabe a ela assumir secretamente a identidade de seu irmão. No caminho, Sarasa conhece e se apaixona pelo misterioso Shuri, que aparenta ter segundas intenções. Juntos, ela e seu grupo de lutadores maltrapilhos viajam através do reino, atacando os diversos governantes e esperando algum dia alcançar o líder deles todos, o Rei Vermelho. (Trad. Fonte: MyAnimeList)

Durante a década de 1970 e boa parte dos anos 1980, a ficção especulativa figurava de forma mais singela entre as publicações de shoujo, principalmente por influência do Grupo do Ano 24 e de suas tramas geralmente mais focadas na realidade. Entretanto, no começo dos anos 1990, muitos mangakás trouxeram de volta a ficção científica e a fantasia para as revistas da demografia, dentre os quais podemos citar o grupo CLAMP (RG Veda, Tokyo Babylon, X), Yuu Watase (Fushigi Yuugi, Ayashi no Ceres), Naoko Takeuchi (Sailor Moon) e Yumi Tamura (Basara, 7 SEEDS). Basara parece bem simples a princípio, mas estamos diante de um épico cujos feitos narrativos iriam ecoar ainda dentro da própria década de 1990. Inclusive, de forma nem um pouco contida, consigo enxergar a paixão de Mizuho Kusanagi (Akatsuki no Yona) por Basara, que vai desde o grupo principal da história até os principais conflitos do enredo – claro, nada no sentido de cópia, mas sim de inspiração. Basara teve seus 27 volumes publicados de forma integral pela VIZ nos EUA, mas sua versão física encontra-se atualmente fora de catálogo. Apesar disso, boa parte dos volumes estão disponíveis para leitura digital através da plataforma comiXology, uma boa pedida para quem estiver interessado e puder adquirir.


Caso tenham dado por falta de algum título em específico, lembrem-se que essa é só a primeira parte. Fazer mais desse tipo de post requer tanto mais leituras de minha parte quanto um tanto de pesquisa acerca de data de publicação e background das publicações (já que eu não sei japonês, esses pontos são bastante dificultados. Agradeço sua leitura, e até a próxima o/

Lives

Uma nordestina de espírito tranquilo, leitora ávida de tudo e qualquer coisa, além de amante da escrita. Sou otaku desde que me entendo por gente, sendo grande admiradora de shoujos e joseis, além de entusiasta dos BL's.

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