Review – Battle Royale, de Koushun e Takiguchi (Editora Conrad)

headerO que você faria numa situação extrema? Seria capaz de matar seu melhor amigo?

Atenção: Esse review pode contar imagens fortes. Continue por sua conta e risco.

Brutal. É a primeira palavra que me vem à mente para descrever Battle Royale.  O motivo disso? Qual mais seria o conceito de um “jogo” em que o intuito é de os participantes matarem uns aos outros até que apenas um sobreviva? E mais, os participantes desse jogo são apenas estudantes de 15 anos, da mesma sala de aula, ou seja, em sua grande maioria, amigos. Dito assim, e colocando no contexto de cada um (para mim, foi impossível não me imaginar nessa idade, com meus amigos, e o que faria numa situação dessas…), parece ainda mais brutal. Mas como uma ideia tão hedionda pode ter apreciadores? Primeiramente, todo espetáculo, por mais bizarro que pareça, sempre vai ter público e se olharmos nosso mundo e as notícias vinculadas verão a veracidade disso. Em segundo lugar, é a ideia dessa review dizer o porque de Battle Royale ser lido e apreciado por todos (desde que você não tenha estômago fraco ou não goste de ler algo sangrento, pois tripas e tiros sobram nesse mangá).

4Originalmente Battle Royale foi um livro escrito por Koushun Takami e publicado no Japão em 1999 e que obteve imenso sucesso, sendo também uma das publicações mais controversas da história do Japão. Devido a toda essa empolgação, no ano seguinte a obra foi adaptada para o cinema (de forma muito fiel ao livro) e começou a adaptação em mangá na revista Young Jump, que teve 15 volumes, contando com a arte de Masayuki Takiguchi, e foi concluído em 2006. Se é que é possível, o filme alavancou ainda mais o sucesso de Battle Royale (em 2009 o diretor Quentin Tarantino disse numa entrevista que esse filme foi o melhor que havia visto nas últimas décadas). E não parou por ai, ainda houve uma sequência cinematográfica, intituladada “Battle Royale II: Requiem”, que se passava três anos após os eventos do primeiro filme. E acreditem ou não, este filme foi adaptado para mangá, com o título de “Battle Royale II: Blitz Royale”, mas teve apenas dois volumes, e dessa vez a arte ficou a cargo de Hitoshi Tomizawa. Com tanto sucesso na terra do sol nascente, não foi de se espantar quando a Editora Conrad começou a publicar o título aqui em novembro de 2006 (e principalmente, agradeço por ela ter terminado!!!!), pois já contava com uma considerável fã-base brasileira também.

12A História

Em Battle Royale, o que chamei de “jogo” logo no começo da review, é conhecido como Programa, e acontece todo ano, cada vez com uma turma do terceiro ano do ensino médio (ao menos a adaptação da Conrad me fez acreditar que seria isso no sistema educacional brasileiro, visto que o do Japão difere do daqui). A turma em questão é “premiada” com a participação no Programa, e, para deixar a situação ainda mais divertida para os organizadores, os participantes não são avisados que farão parte do “show” sendo pegos desprevenidos durante algum evento rotineiro.  Digo as palavras “show” e “divertimento” porque os membros do governo japonês apostam em quem tem mais chances de vencer o Programa, comparando suas fichas e respectivas habilidades antes do início.

Mas, por que o governo japonês faz isso com as pobres crianças? É simples. No mangá, o Japão (ou como é tratado no mangá “Grande República do Leste Asiático”) está com um governo autoritário e repressivo que enfrenta uma grave recessão econômica e tenta limitar ao máximo o poder de expressão de sua população, proibindo muitas coisas (como o Rock) e utilizando a força para intimidar o povo. Uma verdadeira ditadura.

6Em meio a este contexto turbulento, temos o protagonista desta história, Shuya Nanahara, da turma 3ºB, um estudante apaixonado por Rock n’ Roll que busca as mais variadas formas de desafiar o governo, sendo conhecido por seus amigos como um “idealista louco por justiça”. Claro que ele também não é tão ruim quanto seu governo enxerga. Por trás disso temos um garoto que luta por seus direitos e convicções e acima de tudo um grande amigo e uma ótima pessoa com todos que conhece. É praticamente impossível não gostar desse dele!!! Ele é órfão, e mora num orfanato juntamente com seu amigo e colega de escola, Yoshitoki Kininobu, e no dia em que são sequestrados pelo Programa eles estavam indo com os companheiros de classe para o que seria sua “Viagem dos Sonhos”. Toda a sala (42 alunos, 21 de cada sexo) acorda numa ilha, onde são apresentados a Yonemi Kamon, o organizador do Programa desse ano, que lhes diz estarem numa ilha onde se enfrentarão até que sobre apenas um. Desde o começo Shuya tem a ideia de que todos seus colegas de classe poderiam escapar juntos da ilha, sem que ninguém tivesse que matar ninguém, e assim como ele mesmo diz, quebrar a cara dos caras do governo. Mas, será que todos seus colegas de turma pensam iguais a ele?

10Considerações Técnicas – O Mangá

Acho absurdamente bem feito o modo como Takiguchi retratou as coisas no mangá. É impressionante observar a mudança nas feições dos personagens, quando estão tristes, com raiva, com medo, e em qualquer outra situação possível e imaginável. Em minha opinião, isso enriquece demais a obra, pois nunca tinha visto tão bem trabalhada as feições de uma pessoa antes quando está chegando no nível da loucura. Outro efeito desse realismo de Takiguchi é que algumas partes se tornem um tanto quanto nojentas (não leiam todos os volumes num dia só… é pesadelo na certa, acreditem…), chegando a ser considerado exagerado por alguns, principalmente quando expostas partes de órgãos e a violência em si, mas na minha opinião nada que apague o brilhantismo da obra.

5O que realmente implica a ideia de Battle Royale é: o que você faria numa condição extrema? Seria capaz de matar? De matar amigos? Faria de tudo para sobreviver? Na minha opinião, todo ser humano não tem resposta certa para essas perguntas até que passe por uma situação como essa (aliás, desejo que não passemos por isso) e esse é justamente o que prende a atenção na história. O comportamento humano que muda e, teoricamente, se adapta de melhor forma às situações apresentadas juntamente com o instinto de sobrevivência entra em conflito com o cérebro, com as relações humanas, com os laços afetivos desenvolvidos, com aquele mandamento divino “Não Matarás”. Mas, é tão fácil assim seguir esse mandamento e “oferecer a outra face” quando sua vida e a de pessoas que lhe são queridas correm perigo? Simplesmente acho fascinante a ideia apresentada, seu desenvolvimento e tudo que Battle Royale passa.

11Outro ponto interessante são as conversas entre Koushun Takami e Masayuki Takiguchi (autor do livro e o responsável pela arte no mangá, respectivamente) o que nos ajuda a entender a concepção da obra, e principalmente o que mudou do livro para o mangá. Mas porque isso é importante? Simplesmente porque descobrimos que no livro Takami apenas cita muitos dos personagens e não os desenvolve muito, enquanto no mangá, Takiguchi desenvolve todo um contexto, um pano de fundo para cada personagem da sala 3ºB que aparece na história. É verdade que alguns são bem mais desenvolvidos que outros, mas é possível ver como cada um era antes de ir para a ilha e o que se tornou lá. Devo admitir que ler essas conversas entre Takiguchi e Takami me fizeram admirar demais o trabalho do Takiguchi (apesar de ficar de saco cheio em alguns momentos em que ambos desviavam do assunto do mangá).

1Considerações Técnicas – A versão Conrad

Como dito anteriormente, a editora responsável pela publicação de Battle Royale no Brasil foi a editora Conrad, que começou ao final de 2006 no ápice da mesma no quesito lançamentos. Ao lado de Monster, Sanctuary e outras obras, a ideia da Conrad era atingir um público mais adulto e que buscasse obras diferentes do que já possuíamos no mercado (os chamados battle shounen). Porém com a crise da editora no decorrer dos anos, Battle Royale acabou sendo “deixado de lado” por muito tempo e depois de alguns contratos renovados voltou a ser publicado somente em 2010! Os três volumes restantes da série então foram lançados na qualidade que havia sido paralisado anteriormente, um padrão parecido com o que temos atualmente mas com o chamado “excesso de cola” que fazia o mangá ter barulhinhos ao abrir.

3Eu estava entre aqueles que colecionavam este mangá, e temi por seu cancelamento, mesmo faltando 3 edições para o final. Talvez devido a isso hoje haja certa dificuldade de se encontrar esse título, por isso recomendo que todos aqueles que se interessaram por ele, corram atrás logo! E vale ressaltar uma coisa: apenas no último volume, a Conrad utilizou um papel muito bom, o mesmo utilizado na edição de Nausicaa, o que deixou o volume impecável! O que não se pode dizer dos outros números, em que foi utilizado o habitual pisa-brite (folha de jornal para os íntimos).

Como ponto interessante da edição nacional, a Conrad não deixou de colocar as conversas citadas acima sobre os autores, o que facilita na leitura e, querendo ou não, é uma boa para quem gosta de “curiosidades” acerca dos títulos que coleciona.

2Comentários Finais

Muitos vão dizer que essa ideia não é pioneira, que existem outros livros, mangás, filmes entre outros, que também abordam temas parecidos. E isso é bem verdade e não duvido que sejam muito bons também. Mas Battle Royale tem maestria na ideia apresentada e no seu desenvolvimento, e por isso merece atenção. Recentemente surgiu ao grande público o sucesso de Jogos Vorazes com uma temática muito parecida com a de Battle Royale. Devo dizer que apenas a premissa do “jogo de sobrevivência” é a mesma. (Existem alguns outros pontos em comum entre ambas as histórias, mas não vem ao caso, pois não consigo analisar Jogos Vorazes sem suas sequências, e não é minha ideia não é dar spoiler para ninguém :P).  Como apreciador das duas obras, posso dizer que a concepção (a autora de Jogos Vorazes diz ter tido a ideia de seu livro ao ver na tv um programa sobre guerras e um reality show na tv ao mesmo tempo, e pensou em juntar ambos. Não achei nada que falasse o que originou a ideia de Takami para Battle Royale, então pode-se dizer que é original) e desenvolvimento é muito diferente, com um pano de fundo e, principalmente, vivência e experiência de cada personagem absolutamente diferente entre os dois mundos. Nos dois é possível ver o comportamento humano, e até onde podemos chegar, mas isso não é nada que difira de The Walking Dead, por exemplo, onde o psicológico é testado até mais extremamente, embora a história não seja nada igual.

8Se você quer um mangá com uma temática adulta, que te faça refletir sobre a vida, e do que você é capaz, Battle Royale é perfeito! Se você simplesmente quer uma boa história para se entreter, Battle ainda é uma boa pedida. Resumidamente, se você gosta de uma boa história e não tem problemas em ver cenas fortes de mutilação e sangue, Battle Royale com certeza vai te agradar.

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Asevedo

Formado em design editorial e assistente editorial da Panini Mangás. Leio mangás e história em quadrinhos de diversos países. Assisto animes de forma esporádica. Sempre estou no Twitter.

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