Kakegurui #1 – A arte de apostar nunca foi tão diferente

Um mangá tão bom, merece uma adaptação igualmente boa.

Eu particularmente tenho um problema muito grande com adaptações de mangás. Claro que muitas se saem muito bem, mas meu maior medo sempre é não adaptarem uma parte interessante, ou escolherem uma equipe meia boca e um estúdio (cof cof, Pierrot, cof cof) para o trabalho. Mesmo assim, certas obras a gente fica doido pra ver como usarão todas as opções do vídeo para retratarem determinadas passagens do papel. E Kakegurui é uma dessas. Publicado desde 2014 na revista GanGan Joker, o mangá tem roteiros de Homura Kawamoto e arte de Tooru Naomura, e atualmente se encontra em seu sexto volume encadernado. A série já rendeu 3 mangás spinoffs e é uma das mais rentáveis atualmente da editora Square Enix.


IMPRESSÕES DO EPISÓDIO

Conheci o mangá através dos posts de ranking da Oricon que fazia por aqui, e acabei me interessando tanto que fui atrás da leitura e até comprei os materiais importados (que devem ser lançados neste mês nos EUA). O fato é que o mangá é excelente. Sabe dosar entre as cenas de apostas, com os relacionamentos dos personagens e todas as intrigas causadas em um ambiente bem tóxico. Meu maior medo no anime era um só: exagerarem no fanservice.

Jabami é uma personagem extremamente bonita, estilosa e que dá muito pano pra manga pra cosplays e principalmente fanservice. Infelizmente. Os closes que temos no mangá são todos muito bem colocados, não é agressivo e você realmente não se incomoda, por mais que não queira que eles estivessem ali. Mas e no anime?

Pra minha surpresa, conseguiram fazer um bom trabalho. Ainda que alguns closes nas bundas das personagens fossem desnecessários, tudo ficou encaixadinho e não me incomodou ao ponto de não querer ver aquele anime nunca mais na minha vida. Pelo contrário. Tenho muitos elogios a fazer aqui ao estúdio MAPPA, que encontrou um tom excelente para a obra – desde a movimentação até as expressões marcantes e sádicas das personagens. Saori Hayami encarna Jabami com muita personalidade. Em alguns momentos ela está doce, como é costume em grande parte das personagens que dubla, mas quando necessário, ela engrossa a voz e representa tudo aquilo que eu imaginava da diva das apostas enquanto lia o mangá. Sensacional.

Isso sem falar no trabalho dos outros dubladores, com Minami Tanaka finalmente brilhando em algo que não seja Wake Up, Girls! Sua personagem, Saotome, não é fácil de ser interpretada, principalmente para alguém que não tem como costume encarnar esse tipo de “bad girl” como ela. Sua atuação foi muito convincente.

E tudo mais está digno de nota. A trilha sonora em todo o episódio casou com todas as cenas. Abertura e encerramento, “Deal with the devil” de Tia, e “LAYon-theLINE” do D-selections, respectivamente, dão um tom mais “sexy” e provocativo pra obra – o que é perfeito (apesar de não ter gostado muito das cenas de encerramento, mas até aí é a mesma história do fanservice desnecessário).

Kakegurui é um mangá colegial com apostas, o que já não é nem um pouco condizente com a realidade. Intrigas, difamação, jogos de interesses. Tudo está envolvido nessa obra, que com certeza vai parecer apenas uma tentativa de parecer “adulta” pra alguns. Mas justamente por conhecer o mangá e saber o rumo que as coisas tomam, me sinto mais confiante depois de ver este primeiro episódio. Além disso, a equipe trabalhando no anime passa ainda mais credibilidade, com a incrível Yasuko Kobayashi – roteirista de Casshern Sins, aquela obra de arte – tomando conta dos rumos de roteiro por aqui também.

Uma pena que em apenas 12 episódios muita coisa vá ficar de fora. Mas faz parte. Ao menos espero que isso incentive mais pessoas acompanharem o mangá – e quem sabe ele aparecer por aqui um dia. Kakegurui é uma obra bem contemporânea, que atinge um público que é fã de obras com joguinhos mentais e uma boa dose de veneno escorrendo pela boca dos personagens.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não cabe a mim julgar o que cada um acredita ser ofensivo em não em termos de fanservice. Acredito que os limites vão de cada pessoa. Acho que esse pode ser o único ponto que afaste uma parte das pessoas da série – e elas estão em seu direito. Mas se você pretende dar uma segunda chance, saiba que a obra original não se baseia nisso para ser boa. Muito pelo contrário. Acho que Kakegurui consegue tanto alcance justamente por ser muito mais do que rostinhos bonitinhos. Sei que a semelhança com obras como Prison School, por exemplo, são imediatas, mas neste caso tudo fica apenas no visual.

Outro ponto que incomoda, mas isso não é culpa do anime em si, é que Kakegurui é uma série com exibição exclusiva da Netflix no mundo todo. Isso deve dificultar bastante quem quer acompanhar o anime – até porque por meios legais isso só deve ser possível mais próximo do final do ano. Uma pena. Nessa briga de streaming a Netflix é quem sai atrás sempre, sem dúvida alguma.

No geral, foi uma estreia muito boa. Uma direção de arte interessante – com uma paleta de cores muito próximas da obra original – e um trabalho de produção incrível. Claro que temos alguns pequenos problemas de animação, mas isso é algo que já estamos acostumados nessa indústria e reclamar chega até a ser chato. O que importa é que Kakegurui cumpre minhas expectativas e segue forte para a briga como um dos melhores de Julho. Concordam comigo?

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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