Review – ‘Kigurumi Guardians’: entre o clássico e contemporâneo

Chega desse papo de descontruição.

Desde que surgiu Madoka Magica, a maior dúvida que pairou sob todos foi: será possível o mahou shoujo se manter como sempre o conhecemos? Sailor Moon, Preccure, Wedding Peach, Magical Doremi e tantos outros que conhecemos podem continuar sendo um exemplo para o futuro? Ou agora todos devem seguir apenas o que veio adiante?

Kigurumi Guardians mostra que é possível, de uma maneira bem diferente, se manter entre o velho e o novo, e entregar algo que está acima da média. O melhor do clássico e do contemporâneo, em um mangá por uma das artistas com traços mais carismáticos da atualidade. Hoshino Lily tem o prazer de lhes apresentar este conto de fadas moderno.

A HISTÓRIA

A vida de Hakka Sasakura está prestes a virar de cabeça para baixo. Certo dia, ela chega em casa após poder admirar seu amado presidente do corpo estudantil e descobre que uma criatura misteriosa que se assemelhava a um homem em uma fantasia de pinguim – conhecida como Kigurumi – passa a morar em sua casa. O que ela não esperava, que a presença de tal criatura trata-se de algo muito maior: ela foi escolhida para trabalhar com esse ser estranho para combater os invasores de outra dimensão e salvar o mundo, ao lado de outras duas pessoas de seu colégio… Ela só não contava que para despertar o seu “guardião”, ela teria que usar de uma técnica bem mais ousada do que de costuma: ela tem que beijá-lo?!

COMENTÁRIOS GERAIS

Kigurumi Guardians é um shoujo publicado na revista Nakayoshi desde 2013, e que até o fechamento desta matéria conta com 3 volumes, em andamento – a autora passa por uma gravidez e a obra se encontra em hiato temporário. A série fez um grande barulho no Japão por já se tratar de uma desenhista muito querida por lá, Hoshino Lily, a mesma que cuidou do character design de Mawaru Penguindrum. O reconhecimento acabou chegando aos Estados Unidos, e o mangá foi lançado por lá pela própria Kodansha US.

Tirando a arte, e o fato de ter um pinguim gigante na capa do primeiro volume, logo de cara você não vê nada demais que te chame a atenção na série. Eu mesmo fui muito resistente até decidir adquirir a pré-venda das 3 primeiras edições, mesmo sem conhecer muita coisa sobre a obra. A série, que promete beber muito de Sailor Moon, acaba sendo uma surpresa ao terminar de ler seu primeiro capítulo: é extremamente cativante!

Além do traço maravilhoso de Hoshino Lily, que dispensa muitos comentários, a série te faz pensar muito na questão do que é desconstruir ou não um gênero. Sempre dissemos que Madoka Magica foi uma espécie de nova visão para este tipo de obra, mas o que poderíamos dizer que, de fato, é uma desconstrução? Foram tantos outros que tentaram fazer algo semelhante depois, que chega a ser discutível o bem que a obra fez. Mas Kigurumi Guardians tem algo realmente diferente. Ele não deixa de lado a ideia de uma garota que acha garotos bonitos, nem que deixa de ser atrapalhada, meiga e carismática. Pelo contrário. Ele usa tudo isso a seu favor. Toda a temática do coração puro, do desejo de trazer de volta alguém que foi atraído para um lado sombrio, é algo tão presente em mahou shoujo que dificilmente você veria alguém discordando disso ao ler a série. Mas, mesmo assim, o mangá consegue introduzir elementos que nos fazem ter uma certa surpresa: Quem é o bem? Quem é o mal? Por que Hakka é a escolhida? Por que querem tomar seu coração? Todo o clima de desconfiança que cerca o cliffhanger do final do primeiro volume te abre margem para mil questões – e de uma maneira muito leve e agradável.

Além dos elementos ditos acima, Kigurumi Guardians ainda apresenta algo muito legal: um garoto que também faz parte de uma equipe mahou shoujo. E que pra ele é simplesmente mais um dia na sua vida (melhor personagem, diga-se de passagem). A autora coloca tudo de maneira tão natural que é impossível não te arrancar alguns sorrisos enquanto acompanha a leitura. Claro que algumas coisas ainda podem te incomodar, como os três escolhidos estarem no ensino médio, enquanto seus parceiros parecem três papais solteirões, mas até aí… pra quem estava acostumado com uma filha dando em cima do pai em Sailor Moon, isso nem vai ser uma preocupação tão grande assim. Mesmo assim, é sempre bom deixar claro pois já vi que isso é uma problemática que atinge mais pessoas do que estamos acostumados.

Um enquadramento lindo. Uma arte fluída, diferente, original. Digna de uma autora que sabe deixar sua marca muito fácil em tudo que faz. Kigurumi Guardians é um deleite para os olhos. Um mangá que dificilmente você conseguirá criticar, ao menos, a arte da obra. Mesmo dentro do shoujo, é algo que está acima da média de muito o que vemos por aí. As cores usadas nas páginas coloridas, e mesmo as ilustrações de capa, te vendem uma imagem muito “fofinha” da série, que pode te surpreender justamente por isso. A primeira impressão é a que fica, mas, nesse caso, a segunda também é muito positiva e só reforça o bom mangá que temos em mãos.

Se você nunca leu nada do gênero, esta é uma grande indicação. Entender um pouco dos clássicos, transitar entre as obras mais contemporâneas, e entregar um mangá que te permite gostar um pouco mais de cada um desses dois tipos. Provavelmente você vai terminar de ler Kigurumi querendo mais mangás do gênero, ou, ao menos, doidinho para conhecer o segundo volume e o desenrolar desta fantasia.

EDIÇÃO AMERICANA

É de conhecimento de todos que a quantidade de material shoujo no Brasil é risória. Por isso, acabamos recorrendo para mangás lançados em nossos vizinhos americanos. A Kodansha US, a Viz (com o selo Shojo Beat) e a Yen Press, capricham cada vez mais em seus catálogos. Com um acabamento básico, mas ainda superior aos convencionais do Brasil, o investimento vale se você sabe se controlar quanto aos seus gastos. Pré-vendas na Amazon, balanço de quanto você tem disponível… São alguns dos cuidados que você precisa ter se quer começar a colecionar um quadrinho de fora. Com Kigurumi Guardians a coisa não é muito diferente. A série foi lançada no mês de agosto nos Estados Unidos, pela própria Kodansha, e terá lançamentos entre bi e trimestrais. Apesar de só termos 3 volumes no momento, isso não é um problema para os gringos, que não deixam de consumir os materiais mesmo com pausas dos autores em seu país de origem.

Para começar, a edição gringa é um pouco maior do que as que estamos acostumados no Brasil – 14,5 x 20,5. Tirando isso, o material do papel interno também é muito mais próximo do original japonês, e até melhor. É um papel jornal de uma gramatura excelente, que não te deixa com os dedos sujos de tinta, te dá uma ótima definição na impressão e ainda deixa o volume bem mais “grossinho” do que o que estamos acostumados no Brasil. Graficamente nada assombroso, já que se trata de uma edição regular. Mas ainda assim conta com uma página colorida bem bonitinha na abertura.

A Kodansha US é provavelmente uma das editoras mais fáceis de se adaptar para quem está acostumado a ler mangás nacionais. Como poderão ver nas fotos depois, a série apresenta glossário no final do volume, legendas de onomatopeias bem mais discretas e um letreiramento bem bonitinho – a Vertical, por exemplo, vai te fazer estranhar muito o que você vê como mangás aqui no Brasil. Ao lado da Yen Press, são duas editoras que trabalham bem próximo do processo que já estamos acostumados.

Por ser uma edição internacional, é difícil julgar uma tradução. Mas algo me dá muito gosto nas versões americanas dos mangás: praticamente não se usam mais honoríficos. Nada de kun, san, chan ou coisas do tipo. Mas também não há uma tentativa forçada de simular como já tivemos aqui no Brasil em alguns casos. Temos pronomes de tratamento como qualquer lugar do mundo, sendo necessários ou não, como “sir”, “lady”, “master” e assim por diante. No geral, não há o que se reclamar. É um valor gasto que não vai te decepcionar no produto que lhe entrega.

IMAGENS DA EDIÇÃO

Clique nas imagens para conferir alguns detalhes da edição brasileira do mangá. O volume foi adquirido por mim, sem nenhum fim lucrativo com empresa ou editora.

CONCLUINDO

Eu acho o gênero mahou shoujo algo interessante. Diferente. Cresci acompanhando Sailor Moon, Sakura, e lendo informações de muitos clássicos. Amei Madoka e aprendi a descobrir muito deste tipo de material depois da série. Kigurumi Guardians foi uma redescoberta, de certa forma. Confortante ver um mangá tão simples, tão bem executado, e que consegue te prender sem precisar de plots mirabolantes. Apenas com um roteiro fechadinho, atual, com personagens carismáticos. Claro que estamos falando apenas de um primeiro volume empolgante, e extremamente fofo, mas é inevitável deixar de fazer predições para a continuação da série.

É difícil recomendar mahou shoujo hoje. Madoka, apesar de incrível, ainda ganha muitos olhares tortos pelo seu visual. Sailor Moon não é tudo isso no mangá (desculpa, gente) e no Brasil todo tipo de material deste tipo é praticamente escasso. Kigurumi Guardians é uma boa alternativa para quem quer conhecer algo diferente do que temos aqui, com romance, aventura, comédia e um traço maravilhoso, que provavelmente te fará comprar os próximos volumes no impulso.

Tá afim de gastar um pouquinho e investir na sua prateleira? Esse aqui com certeza não vai te decepcionar.


KIGURUMI GUARDIANS

Autora: Hoshino Lily
Editora: Kodansha US; Preço: R$50,00
Total de volumes: 3 volumes (em andamento)
Lançamento Internacional

Dih

Dih

Paulistano, 27 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Hoje é editor assistente da Panini Mangás e colecionador compulsivo de quadrinhos em geral.

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