Review – Blood Honey: O primeiro yaoi explícito no Brasil

Depois de Gravitation pela JBC, pedidos de fãs e mais pedidos de fãs, a editora NewPop lança o primeiro yaoi verdadeiro no Brasil…

Sabemos que nosso mercado de mangás ainda é novo se compararmos com irmãos americanos ou europeus. Mas também sabemos que uma variedade de títulos para se conhecer os tipos de público é necessária. Tudo ao seu tempo, claro.

Sabemos também que o fandom de yaoi no mundo inteiro cresce mais a cada segundo e no Brasil não é diferente. O número de fóruns, sites especializados, blogs, temas de conversas de twitter e outros é cada vez maior. Se voltarmos para esse lado, tivemos poucos materiais voltados para os fãs desse público em nosso país, variando apenas de Gravitation e suas respectivas novels, por JBC e NewPop em ordem. Mas não era isso que eles queriam… eles queriam mais… (Até porque Gravitation é ruim que dói, me desculpem os fãs)

Pensando nisso, a NewPop editora entre o final de março e começo de abril nos trouxe às lojas e algumas bancas do Brasil o primeiro título yaoi “explícito” para o público. Trata-se de Bloody Honey, um mangá de volume único e que chegou para submeter ou não, um novo rumo desse mercado por aqui. Falaremos mais disso à frente.

Bloody Honey foi publicado como uma one-shot em 2008, na revista Comic Magazine LYNX pela autora Sakyou Yozakura. Devido a boa aceitação do público, alguns capítulos “soltos” foram publicados (no total são 6 capítulos sendo os últimos bem curtinhos) na mesma revista e acabaram sendo o resultado para fechar o volume que a NewPop traz hoje para o Brasil. Nos Estados Unidos, o mangá foi publicado pelo selo Blu da Tokyo Pop.

Antes de tudo, é necessário ter conhecimento sobre quem escreve essa postagem. Não tenho absolutamente nada contra o yaoi ou contra o homossexualismo. Sou a favor da teoria de que um quadrinho não vai tirar minha masculinidade. Isso não quer dizer que yaoi seja meu gênero favorito, longe disso. Por esse motivo, analiso-o como qualquer outro gênero, imparcialmente falando.

Se você tiver preconceitos quanto ao tema e não tiver a mente aberta para ler um título assim de forma matura, passe longe. Ele não é feito pra você e provavelmente você vai voltar aqui nos comentários para me xingar falando que eu indiquei material inadequado. Eu recuso e ainda vou te dizer que te avisei.

A história

Bloody Honey é dividido em histórias aleatórias, mas que acabam se conectando em um mesmo ponto: os protagonistas. Yuki Akabane e Osamu Mayuzumi como personagens primários e os secundários Kiri Kurosu e Tarou Yamada.

A história tenta pegar o gancho em uma família que possui uma linhagem vampiresca, e que um dos descendentes da família, o “vampiro” Yuki, se alimenta do sangue retirado em seringas de seus pacientes no hospital em que ele trabalha como enfermeiro, uma vez que ele não possui o mesmo instinto assassino de seus antepassados. Um dia, Yuki acaba provando o sangue de um de seus pacientes mais assíduos, o professor de cursinho Mayuzumi, e automaticamente se “encanta” pelo sangue do rapaz. Então, Yuki começa a planejar uma forma de ter sempre tal do professor por perto para poder se alimentar. De resto é de praxe: muito fanservice pra galera que curte.

No desenvolver dos outros capítulos, surgem outros personagens que acabam se tornando importantes para a história, como o sobrinho pegador de Yuki, Kiri, e o melhor amigo dos tempos de infância de Mayuzumi, o monge Yamada. E claro, mais fanservice, pra variar.

No geral, uma história fraca, fato. Não estou dizendo que é ruim, só estou dizendo que é fraca. O termo “vampiros” foi inserido ali simplesmente pra atrair fãs vindos de outras vertentes, e não precisa ser muito inteligente pra sacar isso (não, não quero atrair briga com fãs de Crepúsculo, por favor).

Os personagens não chegam a ser cativantes, nenhum deles chega a fazer você acompanhar o título por sua causa. No máximo o casal protagonista Yuki e Osamu tendo uma cena engraçadinha hora aqui e ali. E nem adianta falar que é porque é um volume único e coisas do gênero. Uma história boa pode ter um capítulo só que já satisfaz as necessidades do leitor. O fanservice também existe, mas não é algo em “excesso” como outros títulos, talvez sendo bom para quem quer conhecer o gênero sem se “impressionar” muito (isso não quer dizer que não exista cenas explicitas, não mudem minhas palavras).

Opinião geral

Vamos por partes. Primeiro falar um pouquinho do trabalho da NewPop. Eu particularmente nunca tinha comprado nenhum material deles, só lido de terceiros. Comprei Blood Honey e acabei me “decepcionando” um pouquinho com a qualidade física do mangá, me lembrando um pouco aqueles volumes de mangás antigos do Brasil, onde você abria a capa um pouco demais e tinha sensação de que as páginas iriam descolar. Quanto aos erros de português, sinceramente não vi nenhum (não que eu tenha procurado), diferente de outros títulos anteriores da editora, com exceção de uma fala de um personagem homem que diz “Obrigada” (vai haver piadinhas aqui, mas tudo bem). A questão é que não quero entrar muito em detalhes dos aspectos técnicos do mangá, não é minha área e nem quero parecer ranzinza demais. No geral, foi um bom trabalho da editora.

Quanto a obra em si: como eu disse mais acima, o título é fraco, mas não é ruim. O traço não é nada de outro mundo, mas também não chega a ser feio. Só meio inconstante. Para mim, Blood Honey foi um ponto positivo para a NewPop. Para lançar algo “diferente” em nosso país, como é o caso do material yaoi, é necessário um cuidado especial com o título, e eles realmente parece que tiveram esse cuidado. Escolheram um título curto, que provavelmente lhes foi de um custo baixo e que serve para testar o mercado.

Se virão mais mangás do gênero agora? Se Blood Honey foi o último? Bem, essa é melhor deixar para o Júnior resolver quando ele ver os dados das vendas do título. De qualquer maneira, é muito mais fácil você ver os riscos e as chances de dar certo através de um objeto pequeno de pesquisa do que colocar um título longo, sem a menor idéia de que venderia ou não, encalhar e depois cancelar. E mesmo eles tendo lançado antes as novels de Gravitation que são voltadas para o mesmo público, o conceito é diferente. Não adianta colocar as carroças na frente dos bois. O estudo de mercado é necessário em qualquer tipo de mercado, seja de quadrinhos ou de produtos alimentícios. Blood Honey foi um teste que espero que dê certo. Quanto mais gêneros tivermos por aqui, melhor.

Claro que, não adianta fãs pedirem, implorarem, mandar mensagem no twitter ou e-mail para a editora e no final não colaborar não é? É necessário investir. Faça valer a pena a chance de ver um futuro Junjou Romantica no Brasil pela NewPop ou por qualquer outra editora que ela conseguir influenciar com esse lançamento, seja a Panini ou a JBC ou qualquer nova que aparecer. A NewPop foi ousada, mas com cautela. Diria que a partir desse lançamento pode ser considerada uma referência já que a partir dela poderemos ver os resultados de lançamentos assim por essas redondezas. Mais yaoi? Só o tempo dirá.

Considerações finais

Vale a pena comprar Blood Honey? Depende. Comprei e não estou arrependido. Ele pode dividir opiniões quanto a qualidade, principalmente entre os já “formados” do fandom, que buscavam algo maior, mais empolgante. Mas ele é uma boa porta de entrada para o gênero, principalmente para os novos leitores. Em um tempo que superar preconceitos é algo interessante, acima de qualquer valor ou julgamento pessoal, ter um título diferente nas bancas e que parece não causar tanta estranheza assim nas pessoas. Curiosos, pessoas que querem apoiar a vinda de outros mangás para cá… Tudo é bem vindo. Nesse sentido, Blood Honey cumpre seu papel de forma eficiente.

Não estou dizendo que uma pessoa é obrigada a ler um mangá homossexual ou algo assim. Mas também não é correto pensar “é mangá gay, não quero isso aqui”, afinal existe muito mais do que “gostos” envolvidos nisso. Quem sabe isso também não seja a abertura para mangás yuri no Brasil? Talvez, quem sabe. Eu torço muito pra vir nem que seja Venus Versus Virus. (E me desculpem também os fãs de Utena, mas o mangá é fraquíssimo, totalmente diferente do belo anime. Nem o considero.)

Se tiver a oportunidade, confira. A NewPop não conta com uma distribuição muito acertada no país, mas aparentemente o título está fácil de ser achado nas bancas do Brasil. Ainda existe a possibilidade de se comprar nas lojas da Comix, Anime Pró e tantas outras espalhadas por internet afora, além dos eventos que a Comix está sempre presente.

Agora um comentário pessoal pra encerrar: sabe que é difícil escrever sobre um tema assim? É complicado tentar ser imparcial e não passar uma imagem errada para os leitores. Importante é que yaoi não é um bixo de sete cabeças, e os fãs devem ser respeitados como qualquer outro, certo?

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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