Blogagem Coletiva #01 – Kimi Ga Nozomu Eien: O certo ou o errado?

O anime que nada é o que realmente parece ser.

E assim começa o primeiro de muitos (ou não) posts da Blogagem Coletiva (por favor, alguém dê uma sugestão de nome pra isso). Quando nosso amigo Panino – ou Panina, fica a critério – nos jogou a idéia de fazer uma postagem assim fiquei ansioso. Sempre achei legal essa interação entre os blogs parceiros e tal e coisa e coisa e tal. Eis que ele surge com o nome dessa série para discutirmos nessa primeira edição: Kimi Ga Nozomu Eien. Eu particularmente só havia ouvido falar do anime de boca, e esperava algo “Não vou parar de chorar enquanto assistir essa série” ou “Que depressão profunda eu vou entrar depois de ver” e coisas do tipo. Bem, mais uma vez, acho que encontrei mais um caso de série superestimada. Talvez na época que o anime foi feito (2003~2004) ele possa realmente ter sido algo que mexeu com os pensamentos e devaneios do povo. Não sei. Isso não quer dizer que a série seja ruim, ou que seja espetacular (porque tem gente que insiste em dizer que o que é velho é melhor). Diria que foi uma série coerente, correta, sem muitas pontas soltas. Foi gostosa de assistir, resumindo. Mas enfim, antes de comentar em detalhes e começar a soltar os spoilers, vamos conhecer um pouquinho da história e da origem de Rumbling Hearts, ou Kiminozo para os íntimos.

Apresentando a série

Lançado como mais um dos muitos visual novels eróticos do mercado japonês, Kimi Ga Nozomu Eien surgiu no mercado em 2000 para PC e posteriormente ganhando versões para Playstation 2 e Dreamcast (que realmente serviram para alavancar a franquia). A série fez determinado sucesso e acabou despertando o interesse de se ganhar dinheiro com uma animação. Até aí, nada de muito diferente do que vemos nos dias de hoje. O anime acabou ganhando o Studio Fantasia como responsável pela sua produção, e confesso que nos dias de hoje, um estúdio responsável por animar Agent Aika e outras pérolas, não seria algo visto por bons olhos por mim. Mas para minha surpresa não foi assim: através de um competente diretor, conseguiram transformar um jogo péssimo em um anime que até hoje é reconhecido mundo afora. O anime foi licenciado em diversos países e construiu seu nome no meio do fandom. Tarefa cumprida. A série ainda ganhou uma continuação em formato de OVA e um spin-off  também para vídeos.

Quanto à história… Bem, a minha definição para a série de “nada é o que realmente parece ser” começa aqui.

A história

Logo nos primeiros instantes, Kimi Ga parece só mais um anime de romance comum. E realmente é! Um triângulo amoroso como qualquer outro, mas com um toque de tragédia. Ou seja, uma grande novela das 8 da Globo, com direito a sexo, choradeira todo episódio e um galã extremamente sem sal.

Quatro amigos que estão prestes a fazer exames para serem aceitos na universidade, esse é o plot inicial da série. Takayuki Narumi é só mais um jovem que não se importa muito para que faculdade decida ir. Ele e seu amigo Shinji Taira parecem bem despreocupados com essa época. Diferente deles e contrastando, surge a energética amiga membro do time feminino de natação Mitsuki Hayase, uma garota com grande futuro dentro das águas, com performances invejáveis. Um dia, Mitsuki resolve ajudar sua amiga Haruka Suzumiya a se confessar para seu grande amor: Takayuki. Depois de armar um encontro forçado, Haruka acaba se confessando para o garoto que decide aceitar sair com ela.

Tudo muito bem e tudo muito bonito. Era o que parecia, mas não era o que acontecia, de fato. E um fatídico acontecimento viria para comprovar e agitar a vida dos quatro. Um acidente terrível, uma dor e o despertar de uma relação que já era premeditada. E assim começa Kimi Ga Nozomu Eien.

A partir desse parágrafo, o texto contará com spoilers. Siga por sua conta e risco ou pule para a parte de aspectos técnicos.

Um dos muitos comentários que ouvia quando disse que assistir essa série é que eu odiaria uma das personagens, que sentiria raiva, que choraria de nervoso. Pois bem, não aconteceu. Primeiro porque de meu ponto de vista, ninguém realmente foi culpado.

O grande ponto positivo de Kimi Ga é a proximidade da série com a realidade. Ver alguém fazer a escolha errada no amor, ou em qualquer momento da vida não é novidade para ninguém. E você não pode voltar atrás na maioria das vezes. Esse anime mostra isso. Fica CLARO desde o primeiro momento que Takayuki não gostava de Haruka desde o início, que ele se sentia muito mais atraído pela briguenta Mitsuki. Mas ele opta por dar uma chance para a garota da voz irritante (me desculpe Minami Kuribayashi, mesmo eu já tendo te visto ao vivo cantando pessoalmente). E ele aprende a se relacionar com ela, e realmente aprende a nutrir um sentimento pela garota, aprende a amá-la. E é exatamente assim na vida real!

Fica claro também que Mitsuki desde o começo nutria os mesmo sentimentos pelo rapaz, mas era durona demais para admitir principalmente depois de ver sua melhor amiga feliz. Ela se preocupava com Haruka e realmente dava valor a essa amizade.

Quanto a Haruka? Bem, não tem muito o que falar sobre ela. Para falar a verdade, Haruka é coadjuvante na série e serve apenas como clímax da mesma. Seu fatídico acidente foi o marco para os verdadeiros acontecimentos da história. Até ali, nada demais acontecia: os dois eram um casal comum, que se divertia de maneira comum e a história era só mais um romance comum. Mas ao ser atingida em cheio por um carro enquanto esperava o namorado e ficar sem acordar por 3 anos, ganhamos o nosso plot twist.

Três anos! O que você faria durante 3 anos ao ver que a pessoa por quem você é apaixonado está em uma cama de hospital sem poder se mexer? Você ficaria do lado dessa pessoa o máximo de tempo possível? Sim, talvez. Mas com certeza você se culparia a todo instante, se tornaria alguém amargurado, sem querer contato com o mundo, esqueceria de viver. É assim que Takayuki fica até receber a ordem (extremamente entendível) dos pais de Haruka para que não visitasse mais a garota no hospital. Era o fim do mundo para ele e nada mais parecia se importar.

É aí que surge Mitsuki, a vilã, a bruxa, a malvada perversa que tenta se aproveitar da situação para ficar com ele, certo? Errado. É aí que surge uma garota apaixonada, que abandona seu sonho de ser uma nadadora profissional e que estava cansada de ver seu amado sofrer e deixar de viver. O que? Vão crucificá-la por isso? Você também não ficaria com o peito apertado ao saber que a pessoa que você tanto gostaria de proteger está ali sofrendo e você sem poder fazer nada? Por favor, sem falso moralismo. Não estou entrando nos méritos em sua atitude ter sido certa ou errada. Talvez se nenhum acidente tivesse acontecido, Mitsuki teria dado em cima de Takayuki da mesma forma. Não saberemos.

É graças a Mitsuki que Takayuki dá a volta por cima, que ergue a cabeça, que começa a trabalhar e a sorrir como um jovem normal. O problema é: e se ele não percebesse todo o sacrifício da garota em tentar fazê-lo feliz? E ele não percebe! Meu Deus, essa série parece recheada de tapados e lerdos que não percebem que estão se enganando o tempo inteiro! Meu Deus, essa série parece a vida real! E agora?

Claro que Mitsuki o tempo todo deveria conviver com a realidade que tomou o namorado de sua melhor amiga. Mas o que ela poderia fazer? Simplesmente deixá-lo de lado e morrer às mínguas?

Enfim, outro plot twist surge e Haruka acorda. E continua com a voz irritante. (Será que queriam fazer dela uma personagem moe?) São 3 anos! E para continuar com o roteiro de novela da Globo, ela simplesmente não sabe todo o tempo que passou e pensa que ainda está no mesmo ano em que sofreu o acidente. Obviamente que ela pede para ver seu namorado, e sua irmã Akane trata logo de sair atrás do rapaz. E obviamente os pais da garota não se importam com isso se tudo fosse para a recuperação de sua filha. Takayuki vai atrás dela e: PONTO DE DESEQUILÍBRIO! Ele simplesmente esquece de seus 3 anos a frente e começa a viver dentro do universo de Haruka, onde ele ainda é o namorado dela e onde tudo não passou de um grande pesadelo. Pena? Ou ele ainda amava ela?

Mas vamos acelerar um pouco a partir daqui.

Mitsuki é simplesmente deixada para trás. Boa ou não, ela cuido dele durante os 3 anos que se passaram e ele simplesmente a esquece e a trata como mais uma qualquer. Chega ao ponto de terminar a relação para voltar a sua vida com Haruka. Até ela recobrar a consciência. E é nesse ponto que a garota se mostra determinante pois ela tem a sabedoria que em 3 anos a vida havia mudado. Ela poderia ter dormido ali por 5 ou 10 anos. As coisas mudariam e ela percebe isso. Mesmo depois de saber que Mitsuki havia “roubado” seu namorado (e até ter partido pra porrada por causa disso), Haruka tem muito mais amadurecimento do que qualquer um dos personagens para perceber que a vida anda e que nem tudo era um conto de fadas! E olhe a tal da vida real aqui mais uma vez…

A grande verdade é que desde o início Takayuki sempre havia nutrido sentimentos por Mitsuki, mesmo que não admitisse. A grande verdade é que ela amava o garoto sem-sal e acabou cometendo diversos erros com isso, incluindo dormir com o melhor amigo dele. Também é uma grande verdade que Haruka era uma garota que só queria ser feliz e consequentemente era inocente demais. Mas essa inocência se mostrou necessária no momento certo da série. Ela foi um dos grandes contrastes em demonstrar a diferença da infância e da vida adulta dos personagens. Era notável a personalidade dela se contrastando com a dificuldade dos outros personagens em viver em um mundo conturbado, corrido e  principalmente cheio de dúvidas. O que era o certo? O que era o errado? Alguém consegue definir isso sem pender para um dos dois lados da moeda?

A série dá um soco na cara do expectador e diz “Acorde!”. Sua vida é feita de escolhas! Hoje você pode fazer o certo e amanhã pode fazer o errado aos olhos dos outros, mas o que importa é que essas escolhas são suas e a vida que prossegue também é a sua! Mas para mostrar tudo isso, a série tem dois personagens chaves: Akane e Shinji.

Akane é a irmã de Haruka e aquela que acompanha toda  a situação desde o início por fora. Sem saber que os pais haviam proibido Takayuki de visitar a garota no hospital, obviamente a primeira reação dela é de revolta. Ainda mais ao saber que ele a traía com a melhor amiga da hospitalizada! Mas Akane se mostra uma personagem necessária. Ela é aquela pessoa que se enche de uma situação, que fala tudo na cara e que não leva desaforo pra casa. É ela a responsável em acordar todos os personagens no momento que ela revela para irmã que 3 anos haviam se passado. Nesse momento não foi só Haruka que despertou. Takayuki acordou também e percebeu que não adiantava mais viver em um mundo de mentiras e que ele teria que dar o rosto a bater e contar a verdade para Haruka. Assim como Mitsuki também teve uma reação imediata que foi a de sentir medo em perder seu amado que era cada vez mais distante.

Já Shinji… Bem, Shinji foi essencial.  Tudo bem que ele serviu de objeto para Mitsuki. Tudo bem que ele foi esquecido por mais da metade da série. Tudo bem que ele era o pegador de uma garota random que ninguém conhecia. Tudo bem. Mas ele foi o único que a todo instante se preocupou com todos os seus amigos. Mesmo que ele tenha nutrido sentimentos por Mitsuki também e que tenha guardado isso com ele, porque necessariamente isso seria um erro? Shinji foi muito corajoso ao enfrentar seu amigo e dizer na cara dele que havia dormido com sua namorada, mas foi muito mais corajoso em perceber que ela nunca havia deixado de amar o protagonista. E a surra no Takayuki? Isso eu aplaudi de pé. Ele precisava perceber que não poderia viver em um mundo de mentiras para sempre e que ele precisava fazer escolhas.

“Mas então você está dizendo que o Takayuki era inocente? Que Mitsuki não era culpada de tomar o namorado da amiga? E que Haruka deveria ter ficado sozinha mesmo? ” Não! Estou dizendo que um dos grandes pontos positivos da série é permitir uma interpretação diferente para cada pessoa que a assiste. Sabem porque muitos acharam a série depressiva? Não foi pelo fato de Haruka estar na cama de um hospital, e sim pelo fato de se identificarem com a situação, de inconscientemente querer estar “do lado” da personagem menos favorecida. E isso também não é um erro! É algo natural do ser humano. Também é compreensível o ódio de muitos com a Mitsuki: quem gostaria de ter o namorado “roubado” por sua melhor amiga? E esse é o grande charme de Kimi Ga Nozomu Eien. Da mesma forma que as pessoas se identificam com uma novela, elas se identificaram com a série porque ela mostra a vida como ela é: Não é tudo fácil, não é tudo mastigado e nem sempre acertamos. Vivemos a base de erros e pré-julgamentos. Nem sempre somos o lado bom da moeda aos olhos dos outros. Nem tudo é o que parece ser.

Aspectos Técnicos

Assistir essa série foi uma experiência sofrível. Realmente quase entrei em depressão. Mas não foi pela história e sim pela qualidade extremamente fraca do anime. Personagens tortos a todo instante, repetição de backgrounds contínuos, e cenas com passagens extremamente mal executadas. Isso porque assisti a versão em DVD, que provavelmente de diferença da versão de TV devem ser apenas os peitos a mostra (sinto que com esse comentário muitas pessoas vão assistir a série).

A trilha sonora ainda se salva. Mesmo com os fundos a la novela mexicana, a música de abertura e encerramento condizem muito bem com a realidade da série e são muito boas. Por sinal é engraçado como o tema inicial tem uma letra extremamente mais “leve” e termina com um encerramento “amargurado”. Proposital. (Espero)

No mais, vale ressaltar a falta de açúcar dos personagens. Takayuki é um dos piores protagonistas que já vi nos últimos tempos e se isso fosse elenco de novela teria sido substituído. Mitsuki é uma boa personagem e tem seus sentimentos explorados a todo instante, mesmo a dubladora não parecendo muito “conectada” com ela. Já Haruka… bem, já falei aqui que aquela dublagem irritante me deixou muito nervoso. Shinji quase não aparece e Akane não compromete. Podemos ainda pegar os personagens “auxiliares” como as atendentes do restaurante de Takayuki – que são o alívio cômico na série – e a patroa de Mitsuki, que serve como conselheira (aquela conselheira que também tem muitos problemas, exatamente como na vida real).

Como já disse antes, talvez ver uma série de 2003 nos dias de hoje faça muita diferença. Mas sinceramente, já vi coisas anteriores muito melhor animadas. Tá certo que o estúdio Fantasia não é lá sinônimo de qualidade…

Considerações Finais

Vale a pena assistir Kimi Ga Nozomu Eien? Sim, vale. É uma boa série, com poucos furos no roteiro, que prende a atenção e que não cansa. Eu particularmente consegui “matá-la” em 2 dias porque sou preguiçoso. Qualquer um consegue ver todos os 14 episódios em um só dia. É uma série que vai divergir opiniões e acho interessante que façam como nós: assistam com outros amigos e discutam ao final da série suas idéias. É possível assim entender um pouco mais do que eu quis dizer sobre diferentes definições de certo e errado aos olhos de quem vê. Aliás, uma pequena curiosidade: quem assistiu ao filme ou leu o livro “O morro dos ventos uivantes” vai conseguir perceber algumas semelhanças com os protagonistas. Poucas, mas existem sim.

Repito também: não achei algo tão dramático como diziam por aí. E olha que eu sou uma verdadeira manteiga derretida assistindo animes, quem me conhece sabe. Talvez eu tenha gastado todas as minhas lágrimas com Ano Hana. No mais,  quem já assistiu deixe sua opinião sobre o que achou. Quem não, ainda é possível achar a série na internet sem muitas dificuldades.

E cuidado mais uma vez para não cair na tal imagem do que parece ser e não é. A vida é cheia de pegadinhas. Kimi Ga Nozomu Eien também…

por Dih

Os outros textos e opiniões estão disponíveis nos seguintes blogs:

– Subete Animes: Não concordo, nem discordo. Muito pelo contrário!
– Elfen Lied Brasil: Uma paixão doentia
– NETOIN! : Especial: falando sobre “Kimi ga Nozomu Eien” em uma escala maior…
– Otakismo: Um chamado à realidade
– Visual Novel Brasil: Kimi Ga Nozomu Eien – postagem coletiva –
– MBB Anime Kenkyuukai: Especial Kimi Ga Nozomu Eien – Lá naquela colina…
– Moon Stitch: Kimi Ga Nozomu Eien – Um anime de pessoas fracas
– Gyabbo!: Kimi Ga Nozomu Eien – Blogagem coletiva
– Philosophy Otaku: Blogagem coletiva – Kimi Ga Nozomu Eien
– Yasumi no Cast: A eternidade que você desejou, em Kimi Ga Nozomu Eien
– Mais de Oito Mil: Blogagem Coletiva – Kimi Ga Nozomu Eien
– NACJA Blog: Postagem da semana junto da Blogagem Coletiva
– Video Quest  : EM BREVE

E outros que serão adicionados no decorrer do dia.

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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