Quem tem medo de modinhas?

Quem Tem Medo de ModinhasHoje, no ChuNan Repórter: os mitos, as crenças e todas as adversidades que essas criaturas passam em seu habitat.

“Naruto é um lixo”. “One Piece só vende no Japão”. “Aff, detesto quem só gosta de modinhas”. “Não entende nada, só assiste modinha da TV aberta”. “Não gosto da JBC porque ela só publica modinha”. Quem nunca ouviu essas frases? A verdade é: por que tanta raiva com aquilo que denominam “modinha”?

Vamos parar para refletir e usar como base toda a década de 90. Eu, como bom garoto que fez parte dessa geração apelidada como “Geração Manchete”, comecei a me interessar por animes através daquela que pode ter sido a maior modinha de todos os tempos no Brasil no quesito “Japão”: Cavaleiros do Zodíaco. Era incrível o poder que aquela série tinha com pessoas de todas as idades. Desde crianças de 4 anos até pessoas com 20 (e até mais), meninos e meninas, pais e filhos: todos acompanhavam Cavaleiros. Era o assunto da escola no dia seguinte, mesmo com as incontáveis reprises. Era o primeiro desenho que víamos sangue rolando, pessoas brigando com poderes soltados pelas mãos. Era mágico o poder de persuasão que aquela série tinha.

E não parou por aí: vieram Shurato, Yu Yu Hakusho, Samurai Warriors, Sailor Moon. Foram séries que marcaram, bem ou mal, seu tempo e as pessoas que conviveram assistindo aquilo. Era legal, era “da moda”, todos queriam revistinhas Herói ou chicletes com figurinhas para colar na lancheira da escola.

Depois de alguns anos, acabou-se Cavaleiros e surgiram os guerreiros Z. Ah! Bons tempos! Todos brincando na escola de brigar “voando” e desferindo KameHameHa’s para todos os lados. Produtos relacionados sendo estufados em nossas caras nas bancas de jornal ou nas lojinhas de brinquedos importados. Era a maior modinha e até hoje ainda se trata Dragon Ball como a linha de produtos mais rentáveis destes últimos anos, superando até Cavaleiros (que teve um “boom” momentâneo, mas que não repetiu a febre em suas reprises).

Mas claro que não podemos nos esquecer de uma modinha que pegou fácil (e até hoje também tem uma marca fortíssima no mercado). Pokémon era o nome que estava na boca de todo mundo. Seja das crianças atrás de brinquedos da Elma Chips ou nos cartuchos de Game Boy, ou das mães correndo nos supermercados pedindo tudo que tivesse o tal do “Pikachu” estampado nos produtos. Ainda surgiu o adversário Digimon, que até manteve-se bem, mas que não repetiu o mesmo sucesso comercial de seu irmão da Nintendo.

E eu poderia aqui citar diversos outros estopins que tiveram um sucesso relativo e que influenciaram determinadas gerações, mas vou pular direto para a mais recente febre: Naruto. Esse sofreu e até hoje sofre muito.

Naruto dublado surgiu em uma época em que a internet no Brasil já era de relativo fácil acesso e que uma boa parte de público já conhecia a série. Resultado: “Não vou assistir Naruto dublado, muito ruim”. Até aí, entendível. É extremamente normal você não se acostumar com um produto “alterado” quando você já o conhece de outra forma. Foi passando o tempo e Naruto começou a ganhar fama, produtos, atenção do povo que era “desconhecido” – e foi aí que tudo começou. Surgiram os famosos “haters” de Naruto e o tal caso do “virou modinha, não gosto mais”. E quanto mais gente dizia isso, mais pessoas continuavam a consumir Naruto: com as reprises de episódios no SBT, começaram-se as procuras pelos DVD’s de episódios legendados e o maior número de acessos a sites de downloads procurando a série. Foi uma “revolução”.

Alguns vão discordar de mim e dizer que não deixaram de gostar de Naruto porque ele passou a ser modinha. Mas eu sei que a maioria o fez. Hoje a internet parece estar cada vez mais divididas entre os “cults”, os “pseudo-cults”, os “otakus”, os “otakinhos” ou seja lá como sejam chamados, como diz meu amigo Leonardo lá no AniMag. As pessoas simplesmente não podem gostar mais de um anime que se transformou em “modinha” pois essa mesma pessoa é automaticamente transformada em uma pessoa que não gosta de outros tipos de obras.

Eu, por exemplo, sou um grande fã de Naruto, de One Piece, de Bl… tá, esse terceiro deixa pra lá. A questão é que nem por isso deixo de admirar e de assistir outros tipos de obras. O que difere é seu olhar sobre elas. Não é por que Naruto tenha se tornado modinha que ele não tenha uma história boa, cativante e com bons níveis de ação que prendem o telespectador. Algumas pessoas não enxergam elas assim e elas tem todo o direito de o fazer. O problema é quando alguém simplesmente fecha os olhos para algo pelo simples fato de “ser modinha”, com medo de ser “transformado em outro circulo social”.

One Piece também possui uma história curiosa: passa do mainstream para o nicho e vice-versa em uma velocidade assustadora. Se você só gosta de One Piece, você é “fanático”. Se você gosta de One Piece e Naruto, você só gosta de modinhas. Se você gosta de Naruto, mas não gosta de One Piece, significa que você não é “inteligente o suficiente para entender a obra”. Alguns até utilizam o argumento de que One Piece não deu certo na TV brasileira por esse motivo. E não é meu amigo: One Piece não fez sucesso no Brasil porque veio em momento errado, teve a marca trabalhada de maneira errada e o público alvo visado nele foi errado. One Piece não vai deixar de ser um sucesso porque você não assiste, bem como ele não vai se tornar um sucesso se você disser que ele é melhor que Naruto.

Mas os “modinhas” não se restringem hoje somente a TV aberta: na internet existem também os animes taxados assim e que são alvo de “grupos separados”, os famosos lovers & haters. Poderia aqui citar diversas obras, mas vou utilizar um dos últimos sucessos que aconteceram na internet – Ao no Exorcist (que teve uma resenha publicada pelo meu amigo Qwerty no Nahel Argama). A história do exorcista azul rapidamente prendeu o público fã dos famosos “battle shounen” por ter todos os elementos que fazem desse gênero um sucesso, como ação, boas lutas, personagens carismáticos e um visual “atraente”. Com isso, o sucesso da série se espalhou rapidamente na internet e as pessoas começaram a correr atrás de produtos relacionados, indicando mangá para as editoras brasileiras e infestando o tumblr de fanarts e imagens da série.

Resultado: Ao no Exorcist não se salvou das poderosas garras das modinhas. Sua popularidade cresceu tão rápido quanto o nível de pessoas que nem sequer assistiram a animação surgiram para reclamar. E os argumentos são sempre os mesmos: “essas pessoas só querem saber de animes de porrada”, “nossa, esse anime não tem história nenhuma”, “gostam de Ao no Exorcist só porque parece com Naruto”. E assim a vida continuou. É um título forte que logo deve chegar em nosso país e que vai se tornar uma modinha (assim como Fairy Tail tem uma enorme chance se tiver um anime exibido em nosso território).

A questão é: o que define uma modinha? Muitas pessoas gostarem ou um número maior ainda de pessoas odiarem? Medo de ver sua série favorita ser apreciada por pessoas que buscam simplesmente por “lazer” ou apenas um incomodo por você não ser mais a única pessoa que gosta de animes na sua sala de aula?

Eu sinceramente não entendo essa síndrome de “o que é desconhecido é melhor”. Realmente existem diversos tipos de produtos que são melhores e que não são tão conhecidos pelo público “popular”, e animes são um desses “produtos”. Mas vou voltar ao começo da minha postagem para explicar: como eu estaria aqui hoje, escrevendo no Chuva de Nanquim, sendo lido por centenas pessoas, se eu não tivesse sido “pego” pelas modinhas de Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball e outros? Como a internet estaria infestada de fãs e fansubers que legendam os animes que vocês tanto gostam se essas pessoas não tivessem uma convivência com uma modinha em seu passado? E eu sei que você está me lendo agora, também foi pego por uma dessas modinhas (com uma ou outra exceção).

Hoje em dia, até mesmo ler mangás publicados no Brasil ou assistir animes na TV é considerado “modinha”. Até que ponto chegamos? Chegamos a um estado em que só aqueles que são puros de coração e recebem um digivice digital podem gostar de um anime ou mangá? Se uma pessoa não souber quem é Char Aznable eu devo simplesmente dizer que ela “só gosta de modinhas”?

Se esse for o mundo em que vivo, devo dizer que a situação está ficando preocupante, uma vez que as pessoas não conseguem mais raciocinar com cuidado. Uma série popular no Brasil ou em qualquer parte do mundo só pode significar uma coisa: produtos relacionados. Como você acham que hoje temos mangás com os mais variados títulos no Brasil? Tudo só começou porque Conrad investiu em Dragon Ball, Cavaleiros e JBC em Sakura e Samurai X – mangás conhecidos e que possibilitaram as portas abertas para diversos outros títulos. Como podem querer aquilo que é considerado “cult” se não deixam as portas serem abertas por produtos que possuem força comercial e apelo para atingir o público?

Animes funcionam como música: se um artista não tem sua música conhecida em outros países, não existe motivo para alguém se interessar em levá-lo para fazer show fora de “casa”. Da mesma forma que animes comerciais como Bey Blade, Bakugan ou mesmo os próprios Digimon e Pokémon sempre foram necessários para o sucesso de séries no Brasil. O Brasil passou 2011 sem nenhuma série japonesa de destaque na televisão, sem produtos relacionados nas lojas, sem “novos fãs” para os animes. Porque sim: existem muitas pessoas que assistiram Medabots na TV Globo e hoje viraram fãs de animes de mechas, ou até mesmo aqueles que viram Power Rangers e hoje não perdem os tokusatsus originais do Japão.

Vejam bem, em nenhum momento estou dizendo que vocês são obrigados a gostar de uma série assim, ou de consumi-la. O que quero dizer é que existe um público para isso. Existem aqueles que simplesmente assistiram Tenchi Muyo na BAND e deixaram pra lá. Como existem aqueles que assistiram e hoje procuram séries de romance ou de comédias com ecchi até hoje na internet. Existem aqueles que só acompanharam Naruto, ou aqueles que foram além e se interessaram por séries como Fullmetal Alchemist ou outros shounens de ação. Ou existem aqueles que envelheceram, que buscam um tema mais consistente e que prende com maior impacto como um Monster ou outros animes “adultos’.

Haters de franquias de sucesso sempre existirão e não será esse post que os atrapalharão. Madoka, por exemplo, deveria ser considerado o melhor anime do ano com maior número de haters de pessoas que não assistiram. Realmente, repetiu os passos de Evangelion, que passou de um anime restrito a pessoas que possuíam Locomotion, à uma pseudo modinha na internet. Pessoas que tem como único prazer não gostar daquilo que é de apelo público ou que ameacem seu status de “otaku-mor”. Pessoas que não possuem vida social e que tem medo que os animes possam fazer parte da vida daqueles que a possuem. Como já disse antes, a intenção desse texto não é criticar aqueles que não gostam de Naruto e afins. É entender e perguntar:  tem medo do que? Pra mim, quanto mais séries de sucesso apareçam, melhor. Maior a chance de algo que eu gosto aparecer por aqui.

Não é um público novo que surgiu, é um público que sempre existiu. Os famosos “casuais” estarão aí para se dividirem na nova geração de “otakus” ou só aqueles que tiveram um anime marcando sua infância. E mais uma vez, esses otakus se dividirão entre haters & lovers. E assim o ciclo continua. Será que daqui 10 ou 20 anos, alguém lerá esse texto e ainda se identificará com ele?

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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