Retrospectiva 2011 – Editora JBC marcada por aniversário e decepções

Evangelion com bordas, Sakura que nunca saiu, easter eggs e a #VergonhaJBC em 2011.

Pra falar a verdade, iria fazer um post gigante apontando a retrospectiva de todas editoras nacionais. Mas acho que o post iria ficar gigante demais e cansativo, por isso optei em dividi-lo por editoras, facilitando a vida de quem quer saber ou recordar um pouco do mercado editorial brasileiro. Pra começar, nossa querida amiga JBC, aquela que eu sempre falo mal na opinião da maioria. Mas tudo bem, digamos que 2011 não foi lá um ano muito bom pra lembrar positivamente de uma das primeiras editoras nacionais de mangás.

2011 – 10 anos de editora JBC no Brasil

Nesse ano o principal foco da JBC foi comemorar os 10 anos de suas publicações no Brasil. Bons lançamentos, novos rumos, tudo parecia favorável para a editora. Mas no final não foi  bem assim. A JBC não é mais aquela editora que soube cativar os leitores com títulos como Samurai X, Sakura Card Captor, Yu Yu Hakusho e outros. Ela estacionou no tempo e viu sua principal concorrente tomar-lhe a frente na preferência da maior parte dos leitores.

A editora investiu pesado nos lançamentos, enchendo as bancas de títulos como nunca o fez antes, provavelmente. Mas isso não impediu as falhas que todos estamos acostumados, e muito menos resolveu a falta de comunicação da editora com o leitor (que até tentou ser resolvida, mas não deu em nada). Além disso, não podemos deixar de falar daquele que gera todas as discussões e nos fornece sempre matérias legais e bastante comentadas devido suas atitudes egocentristas: Marcelo Del Greco.

Os lançamentos

No seu ano de aniversário de 10 anos, a JBC resolveu fazer a festa e encher o bolso. Diversos títulos foram lançados no Brasil para comemorar a “festa”. Entre eles, podemos destacar a franquia Code Geass, com todos os mangás disponíveis da saga sendo lançados pela editora: A Rebelião de Lelouch, O Contra Ataque de Suzaku e O Pesadelo de Nunnaly (esse último ainda em públicação). Mangás esses que foram bem recebidos por causa de seu nome, mas não cumpriram o papel de satisfazer os fãs. Muitas reclamações quanto a história e até casos que não conseguiram passar do primeiro mangá da “série”. Traços diferentes e estranhos, história modificada e a ausência da “emoção” que o anime conseguiu transmitir, talvez tenham sido os fatores para o “fracasso” dessa série, que de qualquer maneira deve ter vendido muito bem, obrigado. Como eu disse, o nome pesa.

Claro que não só de decepções viveu a JBC: um dos melhores títulos da editora foi o pouco alardado Summer Wars, mangá baseado no filme indicado ao Oscar de melhor animação. Apesar de ser somente 3 edições, foi um dos títulos mais gostosos do ano no quesito leitura, agradando grande parte das pessoas que o adquiriram. Outro título pouco badalado, mas que também recebeu uma boa recepção foi Ga-Rei, mangá de ação com pitadas sobrenaturais que parece ter conseguido conquistar boa parte dos leitores, mesmo a maioria deles não sabendo que o mangá na verdade trata-se de uma continuação do anime lançado no Japão em 2009.

Também não podemos esquecer aqueles que fugiram da linha “tradicional” da editora, como os “cults” Rei Lear e O Capital, mangás que foram lançados na mais precária qualidade por aqui e talvez explique o baixo retorno quanto a esses títulos (e provavelmente porque a editora não ter comentado mais nada dos outros títulos que envolvem essa coleção de mangás). Além desses dois lançamentos obscuros, a JBC trouxe de volta para o nosso mercado Death Note através das duas novels da série que deveriam ser publicados por aqui, retomando a saga da editora em publicar “produtos relacionados” de seus sucessos, como aconteceu com Samurai X. Apesar da qualidade padrão (e que pode até ser considerada boa) o preço dessa vez foi um empecilho para algumas pessoas.

A editora também “voltou as origens” e trouxe de volta a sua mania de publicar títulos “que fizeram parte do passado”: Saber Marionette J. Mangá que pouco agradou até mesmo os devotos da antiga Locomotion, principalmente por sua narrativa pouco agradável e seus personagens não-cativantes. Provavelmente o mais esquecível de todos os lançamentos da JBC no quesito título.

Além de Saber J, outro título do gênero “ecchi” foi Rosario + Vampire, a segunda temporada. O mangá que foi lançado por aqui em 2010, ganhou sua continuação por volta de outubro no Fest Comix, com a diferença que dessa vez o título é traduzido do japonês e não do inglês, como aconteceu na primeira fase do mangá. Ponto mais que positivo para a editora, embora o único motivo para isso ter acontecido é o fato da JBC provavelmente passar a publicação americana mais rápido.

Agora vamos para os principais lançamentos da editora em 2011. Isso mesmo, aqueles que todos esperavam muito e… acabaram decepcionando. Mas vamos ser justos e dizer que Bakuman foi provavelmente o melhor lançamento da JBC em 2011 e até quem sabe o melhor juntando todas as editoras. Apesar do tratamento padrão da editora (sem mimos com contra capa colorida e coisas do tipo como acontece com a Panini), tivemos uma boa tradução e adaptação (com algumas pequenas reclamações de “termos” utilizados) e o título foi muito bem recebido pelos brasileiros, principalmente por ser dos mesmos autores de Death Note, mangá que já havia feito relativo sucesso em nosso país.

Porém como nem tudo são flores, tivemos 3 títulos que são considerados de fato a decepção da editora em 2011:

O primeiro foi Kobato, e o famoso caso das páginas transparentes. Devido a um problema com a gráfica o mangá de Kobato foi lançado nas bancas com um grave problema, deixando com que as folhas fossem tão finas que fosse possível enxergar as páginas em seu verso. Na verdade o problema atingiu os mangás de ambas editoras, JBC e Panini, mas foi em Kobato que o “resultado” ficou mais visível, causando a revolta de alguns e até o polêmico #VergonhaJBC no Twitter, aprovado por uns e renegado por outros. No final, Kobato foi o primeiro mangá trimestral da editora e também não contou com as páginas coloridas existentes na versão original do título, o que deixou muitas pessoas irritadas pelo fato de pelo mesmo preço você contar com uma qualidade melhor na editora concorrente. O título teve uma boa tradução e adaptação, portanto amenizaram as criticas com o tempo.

O segundo grande caso foi o re-lançamento de Evangelion, mangá que havia sido publicado pela Conrad em meio tanko e continuado pela própria JBC anteriormente. Todos ficaram muito felizes com o anúncio do relançamento até que… o mangá chegou em mãos. E as críticas negativas vieram junto. As temorosas bordas azuis surgiram sem nenhum motivo aparente, aquele horrível “Edição Especial” (que de Especial não tem nada) e principalmente a péssima qualidade da imagem utilizada principalmente no volume 2. Ou seja: tivemos um mangá com pior qualidade do que na época de meio tanko. A JBC conseguiu, minha gente. Apesar da contratação de Drik Sada para continuar na tradução do título, o mangá também teve suas pérolas de tradução vindos da própria tradutora.

Para fechar com chave de… deixa pra lá. O pior lançamento da JBC sem dúvidas foi o mangá de Saint Seiya – Next Dimension. E nem estou entrando no merecimento da história, afinal é Cavaleiros, o saudosismo sempre fala mais alta. Mas com páginas coloridas impressas em baixa qualidade, textos em japonês sem edição (você parece estar lendo um mangá legendado, reflitam) e um descaso na qualidade do produto, Next Dimension do Brasil teve a pior edição do mangá no mundo na opinião de alguns fóruns estrangeiros. Uma verdadeira lástima. Isso sem contar que nos números seguintes do mangá, a editora aparentemente tentou “mudar” alguns detalhes no mangá, o que deixou uma edição diferente da outra. Em uma você tinha páginas moles, no outro páginas duras e no terceiro as páginas normais. Escolha o seu!

Os atrasos e o desrespeito com o consumidor

Eu sempre critiquei muito a Panini pelos atrasos com seus títulos e consequentemente, elogiava a JBC por sempre ter tudo em dia com seu checklist. Mas esse ano foi lastimável para a editora, que parece ter aprendido com a irmã italiana como atrasar os títulos e relembrando casos como Fruits Basket e Negima a alguns anos.

Esse ano os leitores de Hikaru no Go, MÄR e Ranma foram alguns dos mais prejudicados com a inconstância da editora. Ambos tiveram sua periodicidade extremamente afetadas o que não permitiu aos consumidores do título terem uma leitura correta de seus títulos. A editora que sempre se gaba de não cancelar título (o que continua sendo verdade) mexeu e revirou mais ainda a vida desses mangás e sem dar nenhuma explicação para o público. Simplesmente eles “não constavam” no checklist.

Outro mangá que sofreu foi Hunter x Hunter, que embora já tenha dois volumes lançados no Japão desde meados do ano, não foi publicado ainda pela editora brasileira. Segundo ela, os mangás sofreram alguns atrasos e só devem chegar no começo de 2012. Até aí, entendível.

Mas com certeza o maior descaso se chama Negima. Um mangá em meio tanko vendido ao preço de R$7,90! Isso mesmo amigos, 8 reais por metade de um mangá “inteiro” e ainda por cima com uma extrema falha em um dos volumes, onde um capítulo foi simplesmente “cortado no meio”. Não me venham tentar me dar desculpas pois não sou totalmente contra esse formato e inclusive parei de comprar um dos meus mangás favoritos por conta dele. Até mesmo Fullmetal Alchemist fiz questão de não comprar por conta desse RIDÍCULO formato adotado pela JBC. Mas 8 reais por metade de um mangá é um abuso sem tamanho. Lembrando que ao mesmo tempo tínhamos nas bancas Naruto Pocket, com qualidade extremamente superior por R$8,50. Qual sua explicação para isso JBC? Quanto mais volumes, mais caro fica o mangá?

Marcelo Del Greco e os “easter eggs”

O ano de 2011 também foi marcado pela presença ilustre de Marcelo del Greco tentando inflar seu ego. O editor chefe que brincou de adicionar o pessoal no Facebook e fez divulgação de anúncios por lá deve ter conseguido.

Em primeiro lugar, devo dizer que sou extremamente contra esse tipo de atitude: a JBC possui um site OFICIAL que não é utilizado para divulgar seus próprios lançamentos. Apesar de em meados de 2011 essa atitude ter mudado, com “notas de imprensa” divulgando todos os trabalhos da editora, a verdade é que nada mudou de fato. Marcelo Del Greco pintou e bordou colocando imagens dos materiais “em primeira mão” em seu Facebook, usando seus famosos “easter eggs”. Atitude essa que não é nada profissional, devo lembrar.

Além disso (que não foi feito por ele, aparentemente, mas que merece ser comentado), tivemos o “vazamento” pelo JBox de que a JBC republicará no ano que vem Samurai X e Yu Yu Hakusho. Algo que foi totalmente contrária a ideia de manter uma assessoria de imprensa para divulgar os lançamentos. Devemos lembrar que a JBC contratou nesse ano o dono do podcast Radiofobia, Leo Lopes, para trabalhar nesse setor de relacionamento do público com a editora, mas não parece ter surtido muito efeito. De fato, nada mudou aparentemente. Talvez no ano que vem vejamos uma participação mais efetiva nesse quesito. E é claro que estou sendo otimista demais.

Esperanças, sonhos e futuros

Eu adoro usar o título desse último episódio de Digimon Tamers nas coisas. Mas é isso que representa o fato da JBC estar pegando a mania de anunciar e não cumprir no prazo, dando uma de Panini também. Vale lembrar as novels de Densha Otoko que foi prometido pela editora a alguns anos atrás. Esse ano foi a vez do relançamento de Sakura Card Captor (anunciado AQUI em meados desse ano) e de Cavaleiros do Zodíaco (que estava previsto para outubro, mas só deve sair no ano que vem).

Podemos também colocar na lista os Guide Books de Fullmetal Alchemist, previstos ainda para 2011 mas que ficaram só na promessa. Devem sair no começo de 2012 ao lado de Hero Tales, mangá com o mesmo design da autora Hiromu Arakawa.

Vamos recordar também do acordo da JBC com o Crunchyroll para o streaming de animes no Brasil de maneira legal, anunciado durante o Fest Comix em outubro (e que você pode ver como foi tudo AQUI). O serviço foi anunciado agora mas só deve chegar no Brasil em 2012. Vamos esperar para ver qual será o tratamento dos animes aqui e torcer para que essa tentativa da JBC em trazer animes para cá possa ser bem recebida pelo público. A editora esse ano foi responsável pela adaptação de alguns animes como Fullmetal Alchemist Brotherhood e Dragon Ball Kai, então esperasse um bom trabalho em relação a isso.

O que esperar da JBC para 2012?

Como já dito, 2012 deve ser o ano em que a JBC se aproveitará dos relançamentos de séries como Samurai X e Yu Yu Hakusho, além do já pronto Saint Seiya. Esses são os trunfos da editora contra a Panini e seu esquadrão formado por One Piece, Dragon Ball e outros títulos anunciados a alguns dias atrás. Não considero a entrada do Crunchyroll nesse pacote, mas é um serviço do qual eu espero bastante por um retorno positivo. Temos também a investida da editora em trazer shows para o Brasil, como aconteceu com a transmissão de Hatsune Miku e L’arc~en~Ciel.

Porém não é muito animador ver a situação da editora depois desse ano em que ela comemorou 10 anos de idade. A JBC não evoluiu. Simples assim. Estacionou no tempo com a qualidade de seus títulos e viu a Panini tomar a frente com um apelo maior ao público (não que isso signifique que a Panini seja excepcional). As declarações de Marcelo Del Greco durante o ano também foram temerosas: não parece ter a vontade de crescer. Tudo parece estagnado e bom para a editora, por isso estão na sua zona de conforto.

Não estou aqui para reclamar das bordas coloridas presentes em Evangelion e Cavaleiros do Zodíaco. Estou aqui para reclamar a falta de atenção dessa editora com o consumidor. É um nicho que reclama? Talvez. Ou simplesmente as pessoas estejam acomodadas em pagar R$10,90 em seus títulos e acharem que tem que aceitar tudo como está. NÃO TEM. Consumidor é consumidor seja lá em qual mercado for: livros, quadrinhos, comidas, roupas. Há a obrigação desse consumidor de fazer o papel de consumidor. Enquanto isso não acontecer, a JBC não vai mudar e continuaremos fadados a ver bons títulos receberem o tratamento que recebem por aqui, como foi o caso de Kobato ou Evangelion.

Está na hora da JBC parar de “easter eggs” e entender que ali existe uma empresa que deve passar uma imagem de seriedade, não de passividade. É isso que eu vejo: uma editora passiva, que finge que se importa com o consumidor, mas que na verdade não faz nada para melhorar.

A JBC é uma boa editora: possui bons títulos, foi uma das pioneiras no Brasil com esse tipo de publicação e trabalha com pessoas que gostam do assunto. Mas seu passado não pode ser pra sempre um escudo para ela. O mercado anda e o consumidor muda. Os jovens que compram hoje seus mangás, são aqueles que daqui 5 anos estarão trabalhando e tendo que usar de suas próprias economias para continuarem a comprar. E é partir daí que o público fica seletivo e as consequências começam a apertar.

Que venham dias melhores e que a JBC consiga superar em 2012 os defeitos analisados nesse ano. Caso contrário, eu desisto. Como já desisti de Negima. Como já desisti de Kobato. Como muitos outros leitores já desistiram. E rezemos por esses re-lançamentos de mangás: que assim como Evangelion, Sakura e os outros não venham com uma qualidade pior do que a de 10 anos atrás.

Artigos recomendados no ano sobre a JBC:

– Mais de Oito Mil – O papel das editoras de mangá no Brasil
– Gyabbo – Análise do discurso de Marcelo Del Greco
– Elfen Lied Brasil – Páginas transparentes: A vergonha exposta da Panini e JBC
– Nahel Argama – #VergonhaJBC e a pergunta que não é feita
 

Reviews de mangás publicados na JBC em 2011:

Um choque cultural chamado Bakuman
Um mundo de fofuras e de desejos em Kobato.
Confronto de passado e presente em Saint Seiya Next Dimension
O mangá de Summer Wars vale a pena?
 

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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