Digimon e o infantil que não é tão infantil assim

E isso não é um review, que fique claro.

O que é um anime infantil? É uma resposta tecnicamente fácil, afinal não é nada de outro mundo dizer que é uma série feita para um público alvo de idade baixa (digamos de que 6~10 anos, podendo chegar na linha dos 10~12 anos). Não é um erro dizer isso, inclusive não só para animes, como para filmes, desenhos animados americanos e diversos outros produtos de “entretenimento”. Porém, existe um grande problema ao falarmos de “produto infantil” e principalmente “anime infantil”.

Muitas pessoas conseguem enxergar em diversas produções a visão de que o “infantil” é feito somente para vender, para entreter os mais jovens e assim fazer com que seus pais corram para as lojas de departamento e shoppings mais próximos para consumir o produto final, sejam eles bonequinhos, peões eletrônicos, bolinhas de gude monstruosas e outros.

O barreira entre o infantil e o adulto

Não vou discordar que diversas séries sejam feitas com esse intuito. Diversos BeyBlades, Bakugan – e até mesmo Pokémon, por que não? –  e outros animes da vida tem o intuito de divulgar seus produtos como seu único propósito real, muitas vezes propensas a um enredo raso de “bem contra o mal” movido por motivações e “armas” que são totalmente fora de contexto. Afinal, quem diabos conseguiria controlar o mundo com um peão que mostra um holograma de Dragão? Mas vale a pena generalizar? Não. E eu poderia dar diversos exemplos aqui para provar o meu ponto, mas  como o título do texto diz, vou usar apenas Digimon nesse caso.

Afinal, para que servem os animes infantis? Primeiro, acredito que algumas pessoas tem uma visão muito distorcida do que é o Japão. De tanto ouvir termos como “moe”, “lolis” e coisas do gênero, muitos acreditam que tudo ali se resume nisso, o que não é bem assim. As produções “alternativas” ainda existem, e as infantis não são deixadas de lado em momento nenhum. Assim como as manhãs brasileiras são regadas com Bom Dia & Cia e outros, o Japão também possui a sua “carga horária” destinada para esse público.

Prova disso são os tais “Super Hero Time” com Riders e Sentais dominando as manhãs, seguidos de One Piece e Toriko feitos de forma suavizada pela Toei para um público mais jovem. Além disso, são franquias como Preccure sobrevivendo ano após anos como uma das mais fortes do gênero – e ela poderia muito bem ser usada aqui para exemplificar como um roteiro infantil pode ser forte e bem elaborado.

Animes infantis ainda são usados com uma intenção: ensinar as crianças sobre valores e deveres de uma sociedade totalmente diferente da nossa brasileira, onde “o corre-corre da cidade grande” ainda é o maior problema da relação de pais e filhos. Logo, esses animes tem a missão de mostrar através de cada quadro, de cada fala – de forma suavizada e muitas vezes figurativa, claro – tudo que aquela criança poderá passar em um futuro ou até mesmo no seu estado atual. O problema, é que muitas vezes as pessoas não conseguem enxergar algo, que, provavelmente fica muito mais claro aos olhos de uma criança.

Por esse motivo, Digimon é um expoente nesse quesito. Levando em consideração que não tive a oportunidade de conferir Digimon Xros Wars e sua continuação, podemos pegar nessa franquia um dos maiores exemplos de “preconceito” contra obras infantis. Vale lembrar que a série chegou ao Brasil como uma das principais atrações da Rede Globo e, prontamente chamado de “cópia” de Pokémon, que estourava em audiência naquele momento e, mesmo assim, conseguiu atrair uma legião de fãs que se espalha até os dias de hoje. Porém o tempo foi passando, a programação infantil do canal foi mudando radicalmente e a atenção com esse público desapareceu da mesma forma, fazendo com que a série perdesse seu espaço naturalmente.

Mesmo assim, Digimon é claramente taxado como um anime infantil de forma pejorativa, muitas vezes ofensiva em relação aos fãs, algo do tipo “Gosta de Digimon? Que crianção.” e outras coisas totalmente sem sentido ao serem faladas. Me pergunto se essas pessoas realmente já pararam para perceber o quanto essa saga consegue ser influente na cabeça dos mais jovens e como ela possui uma qualidade técnica menosprezada pelo baixo orçamento (principalmente em Digimon Frontier) mas mesmo assim consegue se manter estável durante toda a produção em quesitos como direção e roteiro.

Sobre Digimon

Como disse, não tenho a intenção de fazer review das séries, mas vamos à alguns fatos. Vamos falar primeiro de Digimon Adventures e 02 – que embora tenha sido uma continuação falha em diversos pontos consegue ainda resgatar pequenos aspectos da primeira fase. Digimon Adventure tem o maior nível de carisma de todas as séries da franquia, e isso é inegável. Isso porque o anime permite uma aproximação muito grande do telespectador com os diversos tipos de personagens que conseguimos encontrar ali. Seja na liderança de Tai, na frieza de Matt, na inocência de T.K. ou nos medos de Joe, é muito fácil se identificar com os elementos que a série nos propõe.

E vale ressaltar a direção de Hiroyuki Kakudou, que havia cuidado de uma outra produção “infantil” (a série Yu-Gi-Oh de 1998, aquela que nunca veio ao ar no Brasil) e que fugiu dos padrões infantis e até por esse motivo levou-a ao cancelamento. Além de pitacos no roteiro de Satoru Nichisono, que simplesmente esteve na produção de MazinKaizer, obra de Go Nagai, além de séries “críticas” como Welcome to NHK – que é extremamente melhor desenvolvida do que o mangá.

Se nas duas séries da saga “Adventure” temos as crianças lutando contra inimigos extremamente aterrorizantes (Devimon e Miyotismon dão um banho em diversos vilões de séries atuais) e tendo que superar todos os problemas sozinhas (vale dizer que a ajuda de “adultos” nessa série é praticamente nula), em Digimon Tamers, a terceira animação, temos um conflito psicológico extremamente bem desenvolvido para uma série infantil – sendo por sinal a minha temporada favorita.

Tudo em Digimon Tamers é desenvolvido de maneira mais fria e sombria do que nas temporadas anteriores. E não é difícil perceber isso em toda a produção, desde a escolha da direção de Yukio Kaizawa (de Jigoku Sensei Nube, obra sobrenatural que saiu das páginas da Shounen Jump) até o roteiro do experiente Chiaki Konaka, que tem em seu currículo séries como Tehxnolyze e Serial Experiments Lain. Não dá pra duvidar de uma produção assim.

Toda a ambientação, os pensamentos e problemas enfrentados pelos 3 personagens protagonistas e principalmente a relação de Ruki e Renamon, tornam Digimon Tamers uma série extremamente pesada, e que provavelmente eu nem mesmo chegaria a classificar como “infantil” – existem mensagens ali que realmente querem ser passadas para as crianças de uma forma agressiva e direta. A morte de Leomon em um dos episódios é um exemplo nítido de que “elas devem aceitar as coisas do jeito que elas são”. Disparada é a melhor e mais impressionante produção de Digimon já feita.

E no mesmo embalo tivemos Digimon Frontier, que como disse antes foi a de menor orçamento envolvido. Porém essa é a série mais menosprezada e a que merecia a maior atenção. Além de manter o diretor da animação anterior, um experiente roteirista foi o responsável por um dos maiores “reboots” que foram “deixados ao relento” pelo público. Sukehiro Tomita cuidou de nomes fortes como Kimagura Orange Road, Macross 7, V Gundam e a tão aclamada série Yu Yu Hakusho.

Frontier foi extremamente alvo de piadas e preconceitos pelas pessoas que já se diziam “crescidas” na época de sua exibição, mas foi uma das que apresentam o melhor roteiro já visto dentro do universo Digimon. Apesar dos pequenos furos e passagens corridas pela produção, Frontier apresenta o mundo e a história de Adventure de uma forma totalmente diferente, novamente entrando a fundo nos dramas dos personagens principais e principalmente com a luta de ter que viver com o “monstro” dentro deles. Ao contrário do que dizem, a transformação das crianças em Digimons não é um sinal de “Power Rangers”, e sim uma linguagem muito mais desenvolvida do que qualquer sistema de Digievolução visto antes.

Pra fechar tivemos Digimon Savers, esse sim o mais fraco da franquia, mas que retomou aquilo que muitos sentiram falta desde Adventure: o tal do carisma dos personagens. Masaru é o protagonista mais simpático de todos e muito mais “explosivo” do que qualquer Tai ou o sem graça Davis. Ele luta e tem suas motivações simplesmente porque é “o seu jeito”. A grande diferença é que isso pode ser considerado um ponto fraco na mesma linha de que pode ser um positivo – mesmo com a presença do roteirista Ryota Yamaguchi, responsável por outro bom anime infantil, Medabots. O desenvolvimento de Savers é corrido, deixa muitas pontas soltas e tudo não flui como nas séries anteriores. Justificou a falta de sucesso da série e até a “dúvida” se teríamos ou não uma nova temporada, que surgiu anos depois com Xros Wars.

O medo dos rótulos

Não estou aqui dizendo que Digimon é a melhor série do mundo e que todos vocês obrigatoriamente devem assistir por isso. Longe disso. Digimon apresenta seus furos no roteiro, animação fraca em alguns momentos e falhas como 99,9% dos animes que existem. O que quero dizer é: vale a pena julgar uma série infantil pelo seu simples rótulo? Digimon prova que não. Assim como Preccure, Medabots e One Piece, por que não? Acho uma falta de conhecimento e de noção incrível as pessoas que insistem em não admitir que One Piece, Toriko ou qualquer outra série não sejam infantis. É o medo do “rótulo”? Realmente é tão pejorativo gostar de um anime que foi feito para um público alvo diferente daquele ao qual você pertence? Por que um Bokura no War Game (segunda parte do filme lançado no Brasil como Digimon The Movie) é tão desvalorizado enquanto um Summer Wars chega a ser indicado ao Oscar, com basicamente a mesma fórmula e o mesmo diretor?

E isso é o que alimenta cada vez mais o preconceito. Rótulos e novamente rótulos. Os mesmos rótulos que trazem o ódio aos tais “otakus”, ou aos “shoujos ser de menininha” ou até mesmo “shounen são só porrada” e “seinen é a melhor coisa que existe”. Pois digo que Digimon Tamers consegue ser melhor que muitos seinens, assim como Adventure é um shounen ótimo para apresentar o público mais jovem ao gênero.

Deixemos o preconceito e os comodismos de aceitar todas as críticas vindas de “terceiros” e vamos aprender a admirar uma obra com nossos próprios olhos. Seja Digimon ou qualquer outro anime desse gênero, devemos parar com essa mania de incluir tudo em um grupo e fechá-lo com medo de ser “discriminado” por uma sociedade que tem costumes diferentes. Você que assiste anime, já é taxado naturalmente por isso. Você JÁ é um nicho. Não será um anime infantil que formará a opinião de outras pessoas em relação à você. Tenho certeza que temos muitos “Digimon” perdidos por aí – como um tal de Gundam Age que 5 pessoas acompanham porque as outras o acharam infantilizado – e que muita série tem uma atenção que na verdade não deveria receber.

É o reflexo da sociedade em relação às produções japonesas: se tem sangue, é bom e é adulto. Se é infantil e transmite valores e ensinamentos através de “bichinhos”, é ruim e é infantil. O Ghibli que o diga.

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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