Review – Monster, de Naoki Urasawa: Volume 1 (Editora Panini)

Qual a decisão correta, Doktor Tenma?

Naoki Urasawa. Sempre que falamos nesse nome temos a certeza de que algo de qualidade extrema acompanha qualquer obra possível do autor. Em 2006, tivemos o prazer de conferir uma das suas mais renomadas séries, a que é considerada por muitos como sua principal obra. A editora Conrad, que reinava em publicações de excelente nível (mas que não teve tanta sorte com as mesmas) trouxe para o mercado o mangá Monster, diferenciando-se de muitos dos mangás que tínhamos por aqui naquela época, visando um público mais maduro e de certa forma “refinado”. O título logo se destacou, e apesar da desistência da maior parte da linha de mangás da editora, um grande carinho e fãs se formaram pelo Brasil, todos órfãos e ansiosos para ler toda a história do Doutor Tenma e do jovem Johan.

Em 2011, a editora Panini – líder do mercado nacional de mangás atualmente – resolveu investir pesado nos lançamentos para 2012, e ao lado de One Piece, Dragon Ball e Kuroshitsuji, decidiu reatar o amor dos brasileiros com Naoki Urasawa, trazendo mais uma vez Monster e “de brinde” outra obra do autor, 20th Century Boys. Chega agora a sua chance de conhecer essa fantástica obra do mestre e desfrutar de um mangá que vai mexer com sua cabeça. Com vocês: Monster. Uma volta com estilo.

A história

Uma sociedade em que a fama e o poder fala mais alto. Assim começa nossa história, na Alemanha Ocidental. Em um dos hospitais mais renomados do país, surge o jovem Kenzo Tenma, um japonês que se mudou em busca do sucesso em sua carreira extremamente promissora de neurocirurgião. Namorado da filha do diretor geral, respeitado e cheio de regalias, Tenma vê seu mundo girar de ponta cabeça a partir de um acontecimento: ele foi o escolhido para salvar um importante paciente, mas em troca teve de abandonar um caso de um paciente turco que acabou por falecer. Isso o deixa muito abalado e cheio de dúvidas em mente… afinal, para quê ele havia estudado para se tornar um médico? Salvar pessoas ou apenas por luxuria de outros?

É aí que um caso de uma criança a beira da morte e que Tenma escolhe salvá-la ao invés de obedecer as ordens de cuidar de um importante político que acaba por falecer. Essa decisão mudará sua vida radicalmente, fazendo-o passar do céu ao inferno e vice-versa diversas vezes. Será que essa foi a melhor opção para sua carreira? Será que essa foi a melhor opção para sua vida? Atentados, intrigas e investigações. Quem será Johan, o garoto que ele salvou naquela noite? Prepare-se para acontecimentos perturbadores em um mangá que com certeza entrará na lista dos melhores que você já leu na sua vida.

Considerações Técnicas – O mangá

Publicado na revista Big Comic O entre os anos de 1994 e 2001, o seinen Monster rendeu 18 volumes encadernados e se transformou um excelente anime de 74 episódios produzido pelo estúdio MadHouse.

O mangá ganhou diversos prêmios e reconhecimentos da mídia japonesa, recebendo em 1997 o prêmio do Japan Media Arts Festival (ao lado de Blade of the Immortal, outro título lançado no Brasil pela Conrad e cancelado), em 1999 o prêmio Osamu Tezuka (um dos mais importantes do Japão) e em 2001 o prêmio de mangás da Shogakukan (que ele já havia ganhado antes com Yawara! e posteriormente com 20th Century Boys). Um sucesso absoluto que é justificado nas páginas da obra.

Em Monster percebemos em apenas um volume o porquê de Naoki Urasawa ser considerado um gênio ao qual poucos mangakás da atualidade se comparam. Para começar, toda a ambientação da obra na Alemanha em uma época que atravessaria a unificação entre as partes Ocidental e Oriental, ajuda ainda mais a manter todo o clima de tensão e instabilidade emocional que a história tenta transmitir. Todos os atentados e diferenciação entre as classes sociais relatadas naquela época são parte do plano de fundo de Urasawa para o desenvolver da personalidade de seus personagens, de suas ações e de seus comportamentos. Inclusive, o primeiro grande ponto de instabilidade do mangá – a decisão de Tenma – envolve uma grande influência política e social dentro do contexto.

Mais uma vez em uma obra de Urasawa, o grande destaque de Monster é a personalidade marcante de todos os que aparecem na história. Seja na interação com o ambiente ou através dos traços fortes, Monster realça muito bem qualquer traço de emoção, nervosismo, desespero, desdém, vergonha, decepção, ódio, amor ou zelo que alguma pessoa tente transparecer. Logo no primeiro capítulo isso fica muito claro na cena em que a esposa do turco aparece desesperada e em prantos para protestar sobre a morte de seu marido. O mangá tem uma enorme capacidade de emocionar sem parecer forçado e de conseguir ser direto na mensagem passada pelo autor.

Em um volume já percebemos um jogo de interesses e de reviravoltas na vida do protagonista que não nos permite fazer predileções sobre o rumo que a história tomará. O que a salvação de um paciente pode ter causado na vida do Doutor? Quais as consequências que ele arcará? Tudo é muito franco e cheio de possibilidades, mas nada é por acaso. Cada ponta da história é muito bem conectada e permite ao leitor não se sentir perdido na história – mesmo os detalhes postados em cada quadro não conseguem passar despercebidos. É um show visual, de narrativa e de roteiro, que permitem ao leitor remeter sensações de um verdadeiro thriller policial repleto de ação, suspense e uma “direção” impecável.

Considerações Técnicas – A versão Panini

Monster era um dos casos que por mais que pensássemos não encontraríamos uma razão a qual a Panini pudesse “errar”. A única dúvida que alguns tiveram é que a Panini poderia ter cogitado a publicação da edição definitiva da obra – o que particularmente acredito que não fosse uma boa saída. Na verdade a opção foi em manter o mesmo formato que foi utilizado pela Conrad com a diferença que dessa vez o título possui as capas originais da obra, de cor branca, diferente da versão anterior que era composta de uma bela capa preta. Ambas são muito bonitas, vale dizer. De resto elas seguem absolutamente o mesmo padrão, com uma ou outra diferença com relação a escolha de tipografia.

Também podemos ressaltar que a escolha pela periodicidade bimestral foi acertada em minha opinião. Mesmo com um número razoável de volumes (18) o mercado nacional favorece muito esse espaço de lançamentos devido ao número de títulos que andam surgindo nas bancas. A lógica é: quanto mais títulos bimestrais, maior a possibilidade de colecionar obras diferentes. “Ah, mas é só escolher o que quer comprar”, dirão alguns. Mas hoje o mercado nacional está “cheio” e de certa forma “inflado”. As editoras já fazem concorrências internas entre seus próprios títulos e acredito que a ideia da Panini não seja que Monster entre em conflito com 20th Century Boys, por exemplo. A periodicidade mensal hoje é necessária somente em casos extremos (como One Piece ou Fairy Tail, por exemplo, que possuem muitos volumes de diferença para o original).

A edição gráfica segue os últimos modelos da Panini com Dragon Ball. Um material de capa e papel interno padrão (nada transparente, mas também não é “branquinho”) e o preço de R$10,90 continua sendo o padrão da editora no título. A tradução ficou a cargo de Dirce Miyamura (que já traduzia o mangá na época da Conrad, além de ter sido responsável pela tradução de Evangelion Iron Maiden e Zettai Kareshi na época) e não há o que reclamar. O glossário no final desse título especificamente é muito interessante, tendo em vista que possui muitas curiosidades históricas pela ambientação já comentada da série. Enfim, um bom e coerente trabalho da Panini.

Comentários Gerais

Acho interessante o lançamento de Monster em um mercado que atualmente vem sendo cada vez mais dominado pelos shounens, vindos de ambas as editoras. É uma escolha para um público diferente, além de ter o poder de apresentar um material mais adulto e sério para os consumidores padrão do mercado nacional. Não deixa de ser uma aposta, tendo em vista que o mangá já teve uma passagem e um cancelamento no país, mas a vinda de 20th Century Boys ao lado do título demonstra que a Panini está disposta a arriscar nessa fatia de compradores. Ponto positivo por ser uma daquelas obras que você deve ler e indicar para qualquer apreciador de uma boa história, seja ela e mangás, comics americanos, fumetti ou qualquer outro tipo de história em quadrinho.

Apenas espero que a Panini saiba como trabalhar com a divulgação e o marketing dessa obra. Dificilmente ela terá o mesmo investimento de mídia que Dragon Ball e One Piece tiveram, e isso me assusta um pouco. Independente do título publicado, isso deveria ser o mínimo a ser pensado pela editora. Investimento para obter resultados é o básico de qualquer tipo de mercado, e com mangás não é diferente. Nos resta torcer para que Monster se destaque e consiga colher bons resultados nas bancas do Brasil. Urasawa merece. O público merece. E a minha vontade de ter Pluto publicado aqui um dia, também merece.

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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