Mulher sabe fazer shounen! – Parte 1

E quem falar o contrário não sabe de nada!

E começa aqui a primeira parte de um novo esquema de postagens do Chuva de Nanquim. Não, não. Não é uma coluna nova. É apenas uma “matéria”. Sempre tentaremos postar algo assim por aqui, durando alguns “capítulos” e apresentando alguma coisa diferente para o leitor. E hoje um tema um bem diferente: mulheres.

Em uma das minhas fuçadas por fóruns e redes sociais, reparei que algumas pessoas tem uma certa “dúvida” quando nos referimos a mangakas mulheres. Elas, que não são a maioria da Shounen Jump ou Magazine, muitas vezes acabam passando “despercebidas” por muitos leitores. E o mais engraçado: Muitas vezes temos mangás realmente famosos que poucos param para lembrar que é feito por uma mulher! Então resolvi sair a busca e pensei “Que tal mostrar que mulher também sabe fazer shounen dos bons?” e claro que o resultado foi mais do que satisfatório. Não é por ser homem ou mulher que a capacidade de fazer um roteiro seja melhor ou pior.

Apesar de termos alguns nomes de destaque na produção de quadrinhos da Marvel e da DC (como Devin Grayson, que já cuidou de histórias do Batman) é na Ásia que temos um grande número de artistas de destaque. São muitas obras espalhadas pelo Japão, China e Coréia (os 3 países mais fortes nesse tipo de produção). Isso sem falar em quadrinhos alternativos espalhados pelo mundo (como Hollow Fields – mangá australiano feito por Madeleine Rosca) e que não caberia tudo em uma citação só.

É importante ressaltar que, apesar de não parecer, as obras femininas sofrem certa repressão em algumas partes do mundo. Muitas vezes mulheres são “reprimidas” a usarem pseudônimos masculinos como forma de esconder que elas são as autoras ou roteiristas de algum lançamento/publicação. Um fato curioso aconteceu com J.K. Rowling, que segundo algumas informações encontradas pela rede afora, foi obrigada a reduzir suas iniciais para esconder o fato de se tratar de uma mulher escrevendo a série Harry Potter. Um absurdo se pararmos para analisar a sociedade que vivemos hoje, mas a realidade de muitas escritoras.

Provavelmente no Japão também existe um pouco desse preconceito. Basta repararmos que grande maioria das mulheres escreve mangás shoujo (com exceção da G Fantasy, uma revista shounen em que a maior parte das obras são feitas por mulheres) e que as grandes antologias como a Jump, Magazine e a Sunday acabam sofrendo da “falta” desse tipo de material. Claro, isso é uma informação sustentada apenas a partir de “observações”, uma vez que precisaríamos de um trabalho muito mais aprofundado feito no próprio país – mas com certeza existe uma diferença assustadora entre os gêneros (bem como também existem poucos homens que fazem mangás shoujo). Isso tirando o fato da sociedade extremamente conservadora e machista japonesa.

Dividida em um total de 2 postagens, a intenção de “Mulher sabe fazer shounen” é apresentar 5 obras diferentes – de autoras diferentes – que se enquadram no grupo apresentado. É interessante saber a reação de algumas pessoas ao ver alguns nomes na lista, que realmente surpreende. Vamos começar?

Fullmetal Alchemist

de Hiromu Arakawa

As palavras “Fullmetal Alchemist” deveriam entrar nos dicionários como sinônimos de “perfeição”. Um dos mais aclamados mangás shounen dos últimos tempos e que conseguiu se destacar em meio a tantos outros hits da Shounen Jump – mesmo sendo publicado na modesta revista da Square, a Monthly Shounen GanGan. Chamou a atenção pelo mundo todo (popularizado por seu primeiro anime, principalmente) e com um trabalho espetacular de Hiromu Arakawa do começo ao fim da série. Esse era o início da genialidade dessa autora sendo colocada em prática, com um mangá que certamente será lembrado como um clássico. Não satisfeita, hoje Arakawa toma conta do título Gin no Saji, na Shounen Sunday, e continua mostrando que é sensacional, fazendo com que o título já seja um dos mais vendidos da revista e da editora. Acham que ela precisa provar mais alguma coisa para alguém?

Kekkaishi

de Yellow Tanabe

Com o pseudônimo de Yellow Tanabe, a autora de Kekkaishi é mais uma das mulheres bem sucedidas na Shounen Sunday. Kekkaishi foi muito elogiado pela crítica no Japão e é um dos mangás mais queridos da revista nos últimos anos, tendo terminado recentemente (e sendo publicado no Brasil, inclusive). Um fato curioso é que realmente poucos sabiam do fato da autora ser uma mulher até ela começar a lançar os volumes encadernados, quando geralmente “conversa” com o leitor nos freetalks do mesmo. Kekkaishi é uma obra extremamente sentimental e que não deixa os velhos “valores” do shounen de lado. Uma combinação perfeita e uma história de extrema harmonia fornecida pela autora.

Arata Kangatari

de Yuu Watase

Depois do sucesso no ramo dos shoujos com Fushigi Yuugi, Ayashi no Ceres e outros títulos, Yuu Watase resolveu se aventurar nos ramos dos mangás shounen. E adivinhem? É, na Shounen Sunday também. Apesar do mangá não ser um sucesso de vendas no Japão, vendendo somente “razoável”, Arata conseguiu se destacar bem no Ocidente, alcançando um bom número de leitores nos Estados Unidos e também sendo publicado aqui no Brasil sobre o título de “O mito de Arata”. O mais engraçado e que serve como “aperitivo” para Arata é que aqui a autora consegue se utilizar de uma fórmula muito semelhante aos seus shoujos, mas de uma forma muito mais favorável ao público alvo da vez. Temos um mangá com romance, ação e uma história fantasiosa extremamente gostosa de se ler.

Enigma

de Kenji Sakaki

Enigma foi um dos mangás recentes da Shounen Jump que não tiveram a chance de continuar “seguindo em frente”. Mesmo assim, rendeu 8 volumes e muitos admiradores da obra. Apontado por muitos como o “novo Death Note”, Enigma tinha um carisma especial ao seu redor e depositado em seus personagens, que muitas vezes eram o destaque do mangá. Apesar dos altos e baixos da história, no final tivemos uma boa série de suspense para se ler em um fim de semana qualquer. A curiosidade da vez fica por conta da autora Kenji Sakaki que se casou posteriormente com Usuta Kyousuke, autor da série Pyu to Fuku! Jaguar e Sexy Commando Gaiden. Também como curiosidade vale dizer que ela foi assistente de Akira Amano, a criadora de Hitman Reborn. Jump de família.

Katekyou Hitman Reborn!

de Akira Amano

De maneira nenhuma Reborn poderia ficar de fora dessa lista. Apesar das críticas com a série e sua qualidade instável, Reborn consegue se manter até hoje como uma das principais séries da Jump, e uma das mais bem vendidas também. A autora Akira Amano conta com um dos mais belos traços da revista e aproveitou para usar de seu “toque feminino” no mangá, atraindo muito a atenção das garotas para a série. O mangá conseguiu um grande sucesso, rendendo um anime e se popularizando pelo mundo em uma velocidade bem incomum. O fim da série de TV acabou rendendo uma queda no rendimento e nas vendas da série, mas mesmo assim Reborn continua sendo um mangá muito querido e com fandoms definitivamente apaixonados.

E na outra semana temos a segunda parte da postagem. Não percam e não deixem de comentar suas impressões aqui. Conhecem mais séries com mangakas mulheres? É só contar pra gente!

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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