O yaoi e o eterno caso do preconceito sem fundamento

Um texto atrasado para o Yaoi Day!

Para aqueles que não sabem, hoje, dia 1 de agosto é comemorado o dia do yaoi. Antes de mais nada, vale dizer que esse post não é um texto da Wikipédia, explicando origens do gênero e tudo mais que vocês podem encontrar com facilidade na internet. Aliás, esse post é apenas mais um gancho para falar sobre o público “otaku” em geral. Mesmo assim, para os desavisados vale dizer um pouquinho do que se trata o termo yaoi. Essa é denominação utilizada para a relação homo afetiva envolvendo dois homens (ou mais, vai saber) que surgiu no Japão. O termo Boys Love é uma espécie de sinônimo para o termo que surgiu anos depois, denominando todos os tipos de trabalhos envolvendo o assunto em mangás, animes, doujins (espécies de fanzines, rusticamente falando) e outros materiais. Dentro do yaoi existem diversas “vertentes” que não convém falar nesse post.

O fato é que o yaoi se propagou. Hoje a comunidade de fãs – chamados de fujoshis (garotas) e fudanshis (garotos) – tem se mostrado cada vez maior ao redor do mundo e incentivando milhares (e bota milhares disso) de materiais que circulam em uma espécie de sociedade não-tão-secreta, rodeada de fanarts, doujins, fanfics e diversas outras obras que estimulam ainda mais a fértil imaginação desse fandom. Aliás, (quase) tudo vira alvo para esse público. Desde shounens de sucesso como Naruto, até os mais desconhecidos ou os que já parecem “feitos” para eles (como os shounens da revista GFantasy, como Kuroshitsuji). Inclusive, até grupos como o CLAMP começaram suas carreiras adentrando esse mundo.

Mas como disse antes, nem só de produtos de origem “pessoal” vive esse público. Hoje existem diversos mangás especializados e focados neles, além de animes, especiais para vídeo e até mesmo live actions e doramas prontos para satisfazer os ávidos por eles. O material que era restrito aos orientais e nas buscas de internet, ganhou o mercado internacional, sendo público em diversos países e formando núcleos centrados no assunto – como a “recente” vertente de boys love da editora VIZ nos Estados Unidos. No Brasil, o mercado ainda não parece ter engrenado, com pequenas apostas das editoras como a JBC em Gravitation ou a NewPop com o “desconhecido” Blood Honey.

A grande questão aqui não é “ter espaço” ou não nas bancas nacionais. O fato é que o público existe, e isso é visível em redes sociais, comunidades, fóruns e outros. Por algum motivo que desconhecemos aparentemente esse público não consome os produtos relacionados quando “cedidos”, mas também não dá pra saber se tais produtos são os preteridos por eles. Mas isso também não vem ao caso.

Enquanto não temos um produto “direto” para os fãs do yaoi, outra fatia nacional acaba sendo a explorada pelo público. E é aí que entram mangás como Hetalia, Kuroshitsuji e outros que são “alvos” da imaginação desse criativo grupo (e olha, bota criativo nisso), se tornando a opção interna para aqueles que não podem recorrer às compras internacionais ou que simplesmente querem manter suas coleções. O engraçado é que isso acaba gerando um outro problema, e é nesse quesito que a palavra “preconceito” do título do texto acaba por ser encaixada.

Assim como a homossexualidade é alvo de preconceitos em nossa sociedade (embora muitos tendam a negar tal afirmação), os mangás do gênero boys love também acabam por acarretar tais “problemas”. O yaoi continua sofrendo preconceito em diversos lugares pela internet afora (quiçá na vida real), sendo tratado como algo “nojento”, “sem pudor” ou até mesmo “uma doença”. Devo dizer desde já que não sou leitor assíduo de mangás desse gênero, o que não me impede de já ter conseguido minha experiência nos títulos. Também devo dizer que não sou gay. E não, não estou usando essa afirmação para “reforçar” minha heterossexualidade, e sim para exemplificar que não é nada de outro mundo alguém ler um mangá assim. Antes de tudo, poucas pessoas sabem, mas um mangá yaoi não necessariamente é voltado para o público gay, pelo contrário, provavelmente a maior parcela consumidora é formada por garotas.

Em primeiro lugar, não quero aqui defender aqueles que gostam de tal gênero e que se “dedicam” a ele. Da mesma forma que existe um público aficionado em shounens, em shoujos, em ecchis, por que não um para o yaoi também? O grande caso é que da mesma forma que não tento encontrar uma explicação para os que gostam de qualquer gênero (embora não tirem o mérito da discussão) acredito que também não deva existir o preconceito com os mesmos. Muitos acabam confundindo o fato de “procurar entender o gosto” de alguém, com o velho hábito de criticar, de menosprezar, de rejeitar. Um caso simples é o do próprio mangá Black Butler. Pelo simples fato de ter diversos olhos de fujoshis voltados para o título, algumas pessoas simplesmente menosprezam tal obra, deixando de lado toda e qualquer qualidade que o mesmo possa ter. E aqui vale dizer que sendo yaoi ou não, por que rejeitar?

Um mangá BL não necessariamente quer dizer que seja ruim ou que só tenha a chamada “putaria” explicita. Da mesma forma que nem todo ecchi sente a carência de uma história, o yaoi, o yuri, o hentai ou qualquer outro gênero, também se enquadra em suas exceções. Que fique novamente claro que ninguém está obrigando uma pessoa ler tais mangás. Eu, por exemplo, também tenho meus títulos que não gosto e que ignoro (todos sabem do meu “não amor” com Futari H, por exemplo). Mas da mesma forma, acredito que o respeito deva ser o aspecto principal a ser colocado em cheque nessa discussão. Assim como disse em um post antigo onde destacava o gosto das pessoas por animes infantis, não é um gênero que dirá a personalidade de alguém. Se uma pessoa é “doida” por algum tema, ela não é assim pelo simples fato de ser yaoi. Algo assim pode acontecer com toda e qualquer obra.

A aparência muitas vezes é o critério de julgamento para as pessoas hoje em dia. Tudo que “aparenta ser voltado para as fujoshis” é simplesmente descartado por grande parte do público, como se por ter essas características, tais obras fossem automaticamente ruins. Digo e repito: da mesma forma que existem yaois ruins, existem shounens ruins, shoujos ruins, e até mesmo o seu hentai lolicon ruim. A aparência de um produto não é parâmetro para ser julgado, embora não impeça de ser o seu critério de “escolha” e seleção ao buscar por um título. Não existe nada de errado nisso (eu mesmo o faço para selecionar o que cosumo), contanto que você tenha em mente que o seu gosto pessoal não é sinônimo de qualidade. Como falado, o mérito aqui é o respeito. Há quem goste, há quem consuma.

Assim como existe a discussão de que “o moe está matando a indústria”, fica a dúvida se na verdade não são os próprios consumidores que não estão matando as obras, subjugando-as e ignorando-as. No dia do yaoi, a grande busca e significado para tal data é principalmente uma: o espaço próprio e o reconhecimento. Reconhecimento que esse público cresce mais a cada dia e que não busca atenção, apenas o seu espaço, o seu respeito.

Vale dizer mais uma vez: esse texto não tem o intuito de encontrar soluções ou problemas em aspecto X ou Y. Não gostar é o seu direito. Discriminar não.

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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