Review – Fate/zero: A união de Gen Urobuchi, ufotable e Type-Moon

A Guerra pelo Santo Graal. Sangrenta. Trágica. Emocionante.

O mundo criado pela empresa de Visual Novels Type-Moon é surpreendente. O universo fictício criado para ambientar os jogos interliga várias realidades e histórias que caracterizam os jogos de sucesso da empresa. Esse universo imaginário é chamado de Nasuverso; levando o nome do principal escritor da equipe, Kinoko Nasu. Nesse mundo misterioso e complexo, ocorrem os fatos narrados em Kara no Kyoukai, Tsukihime, Fate/Stay Night e o anime que é alvo dessa resenha: Fate/zero.

Fate/zero é uma light novel de quatro volumes escrita por Gen Urobuchi (roteirista de Mahou Shoujo Madoka Magica, Phantom: The Requiem for the Phantom) e ilustrada por Takeuchi Takashi (membro da Type-Moon). Fate/zero foi adaptado para anime pelo estúdio ufotable em duas temporadas: a primeira em outubro de 2011 com 13 episódios e a segunda em abril de 2012 com 12 episódios. A obra consiste de um prequel da famosa visual novel Fate/stay night da Type-moon, adaptada para anime pelo Estúdio DEEN em 2006. Então, os fatos narrados em Fate/zero ocorrem anos antes de Fate/stay night.

Essa pequena introdução que eu adicionei à review é para alertar àqueles que não assistiram FSN que podem levar alguns spoilers furiosos ao assistir Fate/zero. Isso porque em Fate/zero são explicados alguns detalhes que no anime de FSN não são abordados de forma tão explorativa, algumas tramas de Fate/zero vão além do que foi apresentado no anime de 2006 pelo Estúdio DEEN. Então apesar de ser um prequel, eu ainda acredito que assistir na ordem cronológica do Nasuverse não seja o ideal. Bem, nem sempre tudo no Nasuverse é apresentado da forma considerada mais sensata pela maioria, vide Kara no Kyoukai que foram filmes apresentados fora da ordem cronológica. Mas esses são assuntos de outras resenhas, bora começar essa.

Eu penso no Gen Urobuchi como o possuidor de uma mente maléfica. Ele constrói histórias baseadas no lado não tão belo e admirável da sociedade e da natureza humana; e isso é tão característico de Fate/zero que é o mais contrastante em relação a Fate/stay night. Ele altera sutilmente as características do Nasuverse tornando a trama de Fate/zero mais cruel e obscura do que a história dos jogos da Type-Moon, tirando tanto os personagens quanto os fãs de uma zona de conforto onde a honra e a lealdade reinavam entre os protagonistas e personagens-modelo. Toda essa mudança de foco construtivo é feito respeitando o já então montado universo de Fate, explicando e justificando alguns fatos de Fate/stay night através de um bom roteiro.

Sucesso entre o fandom e entre o público comum, sucesso de produção e animação, sucesso de vendas e como adaptação. Fate/zero não foi, obviamente, uma produção perfeita. Mas temos uma amostra invejável de tecnologia de animação do estúdio ufotable. Gen Urobuchi acrescentando um tom de thriller psicológico a uma das mais consagradas série de jogos do Japão.  Ei Aoki montando tudo isso desejoso de explorar os personagens até o último resquício de sanidade (e cometendo deslizes de praxe). Vamos começar esse post de verdade, faz tempo que eu não blogo então preparem-se para bastante blábláblá. 😀

A história

Fate/zero narra a quarta Guerra pelo Santo Graal de Fuyuki, que ocorre  dez anos antes dos fatos narrados em Fate/stay night. A Guerra pelo Santo Graal (ou Cálice Sagrado) consiste em uma batalha entre sete Magos, sendo cada um mestre de um Espírito Heroico. Trata-se de um battle royale: o último a sobreviver se torna o vencedor e possuidor do poder do Cálice Sagrado. A sangrenta batalha tem como plano de fundo que explora a magia (com as teorias obre mana, feitiçaria, etc) e personagens históricos mistificados e desmitificados. Os mestres são poderosos magos escolhidos pelo Cálice como dignos de batalhar pelo mesmo e os Servos são heróis lendários que trazem consigo poderosos Fantasmas Heroicos e razões tanto profundas quanto fúteis para se envolverem nesta guerra.

A guerra foi instaurada originalmente pelas famílias Matou (que na época da instauração era parte da família Makiri), Einzbern e Tohsaka como uma forma de decidir quais os magos dignos de possuir o poder do Cálice. Após perder as três primeiras guerras, a família Einzbern investe no mercenário “Assassino de Magos” Kiritsugu Emiya, que ao se casar com Irisviel von Einzbern torna-se o representante da família na quarta guerra. Kiritsugu é um homem melancólico e que leva em suas costas um passado sombrio e amargo,  tendo como desejo um mundo em que os homens não se evolvam em guerras. Para isso, ele utilizará de todos os meios ao seu alcance para ser o vencedor desta guerra, tendo entre eles a honrada Saber como sua Serva.

A história de Fate/zero delineia a trajetória de Kiritsugu  e seus inimigos, cada Servo e Mestre com seus pecados mascarados pelos seus objetivos perante a guerra. As famílias tradicionais Matou e Tohsaka também preparam-se para a guerra utilizando-se de diversos meios, baixos ou não. Enquanto os Matou violam a inocente Sakura Tohsaka, coagindo assim Kariya Matou a participar da guerra; Tokiomi Tohsaka se alia com o misterioso e amargo Kirei Kotomine, que acredita não ter nada a perder e utilizará de todos os meios para permanecer em combate.

Sete servos, sete mestres e demais personagens incisivos, objetivos: Fate/zero possui um elenco de personagens grande, mas significativo em cada trama desenvolvida. A história é movida por eles, por suas motivações, decisões e pela sede de vitória. Para não me alongar em algo que está disponível no blog, leiam o post de Primeira Impressão. Vai rolar comentário e vai rolar spoiler, mas naquela “zona segura” cheia de alertas em neon.

Considerações técnicas

Se você assistir Kara no Kyoukai e depois Fate/zero notará como o segundo parece o resultado de um experimental Kara no Kyoukai. A Type-Moon e a ufotable mostram em Fate/zero uma evolução na animação, em que se destacou um character design mais fluido e natural. É como se as duas produtoras estivessem alcançado a sincronia e o investimento necessário, tendo como resultado um alto padrão de animação que enche os olhos, com cenas de batalhas em um 3DCG impecável, fluidas cenas de ação de excelente coreografia, uma fotografia bem montada, que juntamente com a paleta de cores utilizada montam uma característica de Fate/zero que considero o contrastante principal em relação às histórias até aqui conhecidas do universo de Fate: sombrio.

Não há esperança em um campo de batalha. Não há nada além do desespero. Apenas um crime chamado vitória, pago com a dor dos derrotados.

Sombrio, maduro, cruel. É o dedo de Gen Urobuchi na história. Se Fate/stay night tinha tom de romance almiscarado, Fate/zero apresenta o amargo de uma guerra sangrenta. Explora-se tudo. As preparações para a guerra e as jogadas táticas: a batalha insana por parte dos Mestres e a busca da honra por parte dos Servos. A narrativa é profunda e se afasta de uma dicotomia, logo não temos o bem e o mal, o mocinho e o bandido tão utilizados em enredos de concepção romântica. Em Fate/zero os dois lados estão dentro do homem, duas faces da mesma moeda que caracterizam uma luta interna que influencia nos rumos da guerra.

Sobre a direção do Ei Aoki (Kara no Kyoukai, Ga-Rei: Zero), Fate/zero se desenvolve explorativo, indo além da ação e entrando em um campo psicológico. Aoki estava ciente do objetivo de Urobuchi em explorar um lado de Fate que ainda não foi feito colocando personagens românticos em prova, e não só no campo de batalha. Uma batalha com diálogos afiados, a batalha de ideologias. O roteiro de Fate/zero é muito afiado, muito preciso e só falha na utilização das tomadas, do tempo em tela. Algo não tão notório na primeira temporada, mas que deixou um gosto de “faltou algo” na segunda temporada.

Se a primeira temporada foi a preparação do terreno, a segunda foi a materialização da guerra. Mas, não somente. Segundo o produtor da série Atsuhiro Iwakami a série foi dividida em temporadas para manter a qualidade na animação. Além disso, a ideia de separar a série em duas temporadas foi uma boa jogada para deixar o gosto de quero mais no espectador e delineia a parte da séria voltada mais ao embate de palavras (destaque grande para aquele episódio 11 da primeira temporada em que temos um dos diálogos mais intensos desse ano entre Saber e Rider) e a parte mais sanguinária, explorando tanto a guerra como o passado de Kiritsugu. E o que elas tem em comum é que, apesar de a história mudar de foco, a intenção continua presente. As traições, os sacrifícios em vão, a cruel realidade da guerra.

Um conjunto de fatores fazem Fate/zero ser mais do que eficiente, entre eles tem o time de dublagem. Os Vocal Actors cumpriram com excelência a tarefa de passar aos personagens a melancolia, a dor, a confusão mental em que estão submetidos. Nesse caso vê-se atuações brilhantes de Rikiya Koyama e Jouji Nakata como Kiritsugu e Kirei, respectivamente. Os dois personagens são ora semelhantes ora contrastantes e esses dois momentos são passados ligeiramente pelo tom de voz empregado pelos dubladores. Interpretando as heroinas, temos a Sayaka Oohara dando sua doce voz para a mais doce Irisviel e a Ayako Kawasumi interpretando de forma elegante a honrada Saber. A Sayaka emociona. Ela atua imprimindo uma grande ternura à voz de Iris nos momentos cruciais da história, a ternura de uma mãe que luta por um destino limpo de sangue para a filha Illya. A Ayako atua combinando elegância ao desespero: os dois extremos em que a personagem se encontra dentro desta trama complexa. É uma atuação diferente para àqueles já conhecedores da série e do Rei dos Cavaleiros. O que não muda é o desempenho de Tomozaku Seki como o arrogante e lindo Gil Gilgamesh.

Trama complexa movida pelas composições de Yuki Kajiura. A Kajiura mantém seu estilo “Kajiuran” com a mistura de ópera clássica com batidas pop, empregando piano, violinos e canto coral. O tom trágico só embeleza mais a cenas, dão maior movimentação e emoção; enfim, só tem a enriquecer no desenvolvimento da história. O estilo da Kajiura combina perfeitamente com as obras da Type-moon e a intenção de perpassar uma ambientação trágica e decisiva. Aberturas e encerramentos são ímpares. Na primeira temporada temos  o rock super Kajiuran (ópera, canto coral, acordes de guitarra elétrica, mistura de clássico e pop/rock com tom dramático) Oath Sign por LiSA (AMO) e encerrando com Memoria por Aoi Eir. A abertura é dinâmica e movida por cenas de batalha, enquanto o encerramento é constituído por réplicas animadas de esculturas, pinturas ou momentos históricos dos Espíritos Heroicos. Na segunda temporada abandona-se o tom sublime e temos uma abertura mais melancólica e melodramática em que o grupo Kalafina (mais Kajiuran impossível) canta to the beginning e encerrada pela voz de Luna Haruna cantando Sora wa Takaku Kaze wa Utau (que os fãs podem tem um ataque de crazy-shipping-so-cry com as cenas do casal principal Kiritsugu e Iris).

Comentários Gerais

[A PARTIR DAQUI TEM SPOILERS, CUIDADO GALERINHA QUE NÃO ASSISTIU]

É lindo ver o sofrimento de personagens românticos naquele ambiente hostil pincelado pelo Urobuchi, principalmente a Saber. Ela está perdida e desamparada em um mar da crueldade humana em que sua única defesa é empunhar a espada e lutar. O Ei Aoki construiu isso tão bem que foi lindo de ver, foi insano e empolgante até a último golpe da Excalibur. E que golpes! Que a animação é de alto padrão todos acreditamos e confirma-se a cada cena. Vemos a cena de batalha da Saber com um lovecraftiano Chtulhu construído com um refinado 3DGC, até o momento em que ela invoca seu Fantasma Sagrado. Épico, muito épico! (eu arrepio ao lembrar, oh god)

Outro ponto maravilhoso foi o envolvimento dos personagens. A dupla Rider (Alexandre, o Grande/Iskandar) e Wave que quebram o paradigma do personagem monte-de-músculos e o fracote/covarde através de uma relação de altos e baixos, envolvendo confiança e companheirismo até o final da batalha. Sim, eles são uns fofos. E formando uma dicotomia temos o envolvimento entre os insanos Ryuunosuke e seu Servo Caster (Guilles de Rais). Uma relação envolvendo sangue, gore, psicopatia e uma admiração mútua entre os personagens até no momento da morte de ambos.

Não falo só de envolvimentos “saudáveis”, a rivalidade é cruel e intensa. Os envolvimentos Kiritsugu-Kirei-Tokiomi são de tirar o fôlego, em que entre os dois últimos o lado mais romântico e impensado da Type-Moon se destaca e temos um fim trágico do líder dos Tohsaka nas mãos de Kirei. Cenas como essa que me deixam embasbacada com as histórias da Type-Moon e que se tornam mais poderosas em Fate/zero. Você odeia o personagem, mas não por completo. É uma questão de yin yang. O interior humano é capaz de crueldades e capaz de confiar a ponto de levar uma punhalada nas costas, encerrando sua vida confiando o futuro de sua filha na mão de quem o traiu (ou uma questão de burrice, depende do seu estado de humor). É cruel, mas faz parte da natureza humana tanto confiar quanto trair.

Traições envolvendo batalhas e envolvendo amor. O cruel destino (ou seria maldição) do herói Lancer (Diarmuid Ua Duibhne) em ver sua honra manchada quando a tragédia de sua vida se repete e a noiva de seu Mestre se apaixona perdidamente por ele. Temos esse amor que provoca uma traição, mas temos o amor que provoca o sacrifício. Nós vemos a dor da batalha nos olhos de vários personagens, mas nenhuma delas é mais intensa que em Kariya e Irisviel. Eles são os sacrifícios da batalha e se sacrificam pela esperança de um futuro melhor para as crianças que amam. Aí que Fate/zero se mostra mais cruel. Ao ver Kariya e Iris sucumbirem de forma tão penosa, o espectador sabe que todo o sofrimento foi em vão. Ao assistir as alucinações de Iris, sofrendo de forma amarga como homúnculo de um Santo Graal corrompido, veio imediatamente em minha mente as cenas em que sua filha Illya morre de forma cruel na quinta guerra na rota Unlimited Blade Works. E para quem conhece a rota Heaven’s Feel, sabe que Sakura nunca usufruiu da vida que Kariya desejava para ela.

Mesmo com personagens incríveis e um desenvolvimento de plot e personagens bem balanceado, Fate/zero não é um show impecável. Deixou a desejar em um ponto primordial: a batalha da vida de Arthuria com Sir Lancelot. Aquela era a batalha da vida de Saber, transmitida em tempo tão curto que sua dor não é absorvida e convincente, não da forma intensa em que o restante da série foi. Enquanto um episódio inteiro é “gasto” com  uma carismática Rin Tohsaka salvando crianças das brutalidades de Ryuunosuke, algo que destoou do tom da série e parece completamente deslocado em relação ao todo. Um erro de timing que deve ser compensado em uma versão do diretor estendida nos BDs. Acontece, mas manchou um roteiro que estava muito bom.

[FIM DOS SPOILERS, VEM GENTE]

Fate/zero não é um show perfeito, mas  possui vários pontos inteligentes e tem o mérito de alcançar os objetivos atribuídos a uma superprodução. A série Fate já chama a atenção do espectador comum pelas influências históricas, pelo forte fator sobrenatural e pela proposta de ação que capta o público. Fate/zero vai além e entra num âmbito psicológico, é mais inteligente e articulado que a produção do DEEN. Menos sutil, mais sombrio, menos romântico, mais cruel e maduro.

Com certeza o sucesso desse anime acendeu nos fãs uma esperança para a saga Fate, que possui várias possibilidades de animação (rota Heaven’s Feel, Fate/Hollow Ataraxia, Fate/Aprocrypha, entre outros), além do desejo de remakes do próprio Fate/stay night ou da rota Unlimited Blade Works. Estamos esperando.

Por Laris.

Asevedo

Formado em design editorial e assistente editorial da Panini Mangás. Leio mangás e história em quadrinhos de diversos países. Assisto animes de forma esporádica. Sempre estou no Twitter.

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