Review – Hirunaka no Ryuusei, de Yamamori Mika

hirunaka no ryuusei headerUm triângulo amoroso que vai te deixar sem saber para que lado torcer.

Sou declaradamente fã de shoujo. Provavelmente isso tudo começou lá atrás com coisas do tipo KareKano ou Card Captor Sakura. Bem, o fato é que começou em algum momento. De lá pra cá, já li incontáveis obras, tanto físicas quanto na nossa locadora virtual chamada internet. Como muitos leitores dessa demografia, acabei me esbarrando entre os títulos de maior sucesso da atualidade. Aoharaido, Sukitte Ii Na Yo e Tonari no Kaibutsu-kun. Até que um dia me aventurei e encontrei uma nova obra, de traço incrivelmente lindo, envolvente e charmoso. Onde todo mundo parece exalar charme nas páginas. Era Hirunaka no Ryuusei, aquele que viria a se tornar um dos títulos que mais amei nesse catálogo de shoujos que guardo na cabeça.

Mas a pior parte de tudo isso seria: como explicar para as pessoas o quanto esse mangá pode te conquistar? Não sei. Tentei através dessa resenha e espero que consiga. Não acho que encher um texto de spoilers e de fúria contra um personagem X vá conseguir isso. Também não acho que uma simples sinopse com argumentos rasos e sem expor lados negativos e positivos, vá influenciar alguém. Isso sem falar que em determinadas obras, isso estraga totalmente a experiência da leitura. Então espero que nessa resenha, feita com muito carinho, consiga transmitir um pouquinho dessa obra extremamente divertida e apaixonante da Yamamori-sensei.10

A HISTÓRIA

Uma garota de 15 anos do interior chamada Suzume Yosano, tem de ir para Tóquio para morar com seu tio devido à transferência de trabalho de seu pai. Ao chegar na cidade, ela esbarra em um homem misterioso que acaba levando-a para a casa de seu tio depois que ela se perde. Acontece que Suzume irá vê-lo com muito mais frequência no momento em que ela começa a escola, porque… ele é seu professor! É no mesmo instante que ela faz a sua primeira amizade em seu novo colégio. Um garoto tímido, que não fala com garotas, mas que aos poucos será conquistado pelo carisma da garota do campo. A vida de Suzume será diretamente influenciada por esses dois, e ela enfrentará uma situação totalmente diferente de tudo que já viveu. Shishio ou Mamura? Qual será o destino do coração de Suzume?

7CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

Triângulos amorosos geralmente são temas muito recorrentes em mangás shoujo. Até brincaria dizendo que ele é o “torneio de batalha” que todo shounen tem em algum momento. Mas então, o que torna Hirunaka no Ryuusei um mangá diferente nesse quesito?

Hirunaka no Ryuusei é um mangá de Yamamori Mika que começou a ser publicado em 2011 na revista shoujo Margaret, da Shueisha, e foi concluído em 2014 – totalizando 12 volumes encadernados. A série já beira os 2 milhões de vendas totais, um número ótimo para um shoujo de uma revista que não é a Betsuma e sem nenhum anime ou dorama. O mangá ainda recebeu crossovers especiais com séries de sucesso como Hibi Chouchou e Heroine Shikkaku.

Como dito na sinopse, a série se divide de uma forma interessante. Um relacionamento de uma garota com um amigo de classe e com um… professor. Aparentemente é um tema que vem se tornando mais “recorrente” em algumas séries no Japão – o relacionamento aluno x professor – e Hirunaka no Ryuusei sabe trabalhar isso muito bem.

8É inevitável a comparação com outras séries shoujo. O próprio Aoharaido chegou a ser envolvido em uma “comparação” pelo seu triângulo amoroso. Mas Hirunaka desde o começo trata o mangá de uma forma diferente, expondo todas as dificuldades do relacionamento de uma aluna com seu professor e ao mesmo tempo a aproximação de um garoto que se apaixona pela sua primeira amiga. É muito comum vermos rivais em “disputas” de shoujo traçarem personalidades opostas, fazendo com que a protagonista se interesse apenas por um deles. Não é o que acontece aqui. É praticamente impossível você não gostar de Shishio ou de Mamura. Inclusive é ainda mais comum você ter um conflito interno se perguntando “com quem ela deveria ficar, afinal?”.

Mamura é um rapaz tímido, que tem dificuldades para se comunicar com garotas, até que ele conhece Suzume e tudo muda; ele mostra sua verdadeira personalidade aos poucos para sua nova amiga. Chega até a ser engraçado como ele tem dificuldades em demonstrar seus sentimentos, mas ao mesmo tempo é gentil, atencioso, se preocupa com ela e sempre a ajuda quando pode. Quase um tsundere. Já Shishio é descontraído, alegre e, assim como Mamura, também está sempre disposto a ajudar Suzume nas situações que pode, mesmo que sua imagem como professor possa ser afetada de certa forma – além de sua amizade com o tio da garota. Mas, assim como Mamura, Shishio também passa por mudanças durante a série. Ele passa a agir de maneira mais séria, mais firme e até mesmo “fria”, mesmo que não intencionalmente. Em certo momento, a personalidade dos dois praticamente se “cruzam” e se equilibram, te formando a tal dúvida e embaralhando a sua cabeça.

9Contudo, Suzume é também uma parte importante da série. Talvez a mais importante. Se estamos acostumadas com garotinhas mimadas e indecisas, Suzume é provavelmente uma personagem que foge de tal clichê. Não estou falando que ela não chora, que ela não se magoa e que não se abate em determinados acontecimentos. Mas é muito bom ver uma personagem feminina de pulso forte, que acredita nas decisões tomadas e que segue um rumo que poucos desconfiariam ao chegar no último capítulo do mangá.

Inclusive esse é um ponto que se deve destacar. A autora realmente se desgruda de muitos clichês em sua obra, finalmente na sua segunda metade. E o número de pessoas insatisfeitas com isso foi incrível – apesar de eu discordar totalmente disso! Diferente de certos mangás que deixam um “plot twist” para os últimos capítulos, Hirunaka no Ryuusei teve toda uma construção durante sua segunda “fase”, digamos assim. A autora cria um clima, um ambiente, uma identificação dos personagens com determinadas situações e a partir daí cria um final que surpreende. Não é a que toa a própria autora disse em uma resposta via Twitter que “Não conseguia enxergar o mangá terminando de outra maneira que não fosse aquela”. Achei uma atitude realmente corajosa e que se refletiu em números (o volume final de Hirunaka no Ryuusei teve a maior vendagem de todas as edições do mangá até então).

5De qualquer modo, Yamamori Mika transforma Hirunaka no Ryuusei em uma obra extremamente bem fechada. Não vamos impor rótulos como “a redefinição do mangá shoujo”, mas podemos dizer que ela soube contextualizar Hirunaka no Ryuusei para a atualidade, um problema que encontro em muitas obras da demografia hoje em dia. Talvez seja importante essa “renovação” que autoras como ela, Koda Momoko (Heroine Shikkaku), TAAMO (Taiyou no Ie) e a própria Sakisaka Io (Aoharaido, Strobe Edge) têm feito nesse aspecto. Sinto que talvez os mangás shoujos precisem dessa renovada nos pensamentos. Relacionamentos não são como 20 anos atrás e nem todos conseguem aturar um mangá em que se demoram 20 volumes para se pegar na mão de um personagem (mas ainda te amo, Kimi ni Todoke).

Da forma como falo, até parece que Hirunaka não tem problemas, o que não é verdade. Acredito que um dos grandes problemas da série é a forma como a autora não consegue manter os personagens de segundo plano em foco. Durante a série somos apresentados a outros estudantes, que possuem seu carisma mas que são simplesmente “esquecidos” em diversas partes. Apesar de existirem capítulos extras e algumas cenas boas os envolvendo, falta para a autora uma forma de conseguir trabalhar todos na mesma cena. A Yuyuka, amiga da nossa protagonista, por exemplo, é uma personagem extremamente importante para o amadurecimento da mesma durante a série. Mas em certas passagens ela parece ser completamente deixada de lado e surgir magicamente quando necessária. Outros personagens também acabam sofrendo disso, e talvez seja o único ponto que me incomodou.

3Outra característica que pode ser encarada como negativa é o timing da autora em alguns acontecimentos em meados do mangá; ela acaba passando para o leitor uma certa impressão de “correria” em adiantar a história. Isso pode ser algo dela ou algo relacionado a editora também. Nunca saberemos.

Apesar disso, as partes positivas do mangá se sobressaem e você encara os erros ou deslizes da autora como uma expectativa ao seu próximo trabalho. Além disso, Hirunaka no Ryuusei conta com uma arte linda e adorável (ela se espelha em pessoas reais para o design de seus personagens) e situações em que você realmente pensa “Ok, isso é bem normal na vida colegial.” Ele te envolve na leitura e torna cada passagem mais empolgante do que a outra. A Yamamori-sensei consegue transmitir em todos os capítulos algo que te deixa curioso para o próximo, não houve nenhum em que eu tenha realmente desanimado do mangá. Literalmente fui abocanhado pelo triângulo amoroso da garota do interior, o professor e o garoto tímido da cidade.

4COMENTÁRIOS FINAIS

Hirunaka no Ryuusei provavelmente se tornou um dos meus mangás shoujo favoritos. Não por ser apenas “bonitinho”, mas por realmente me fazer emergir na história e sentir que um shoujo colegial pode sim impressionar e trabalhar clichês ao lado de inovações. Mesmo ao final do mangá, não consigo dizer que odeio algum personagem, ou que alguém tenha me feito sentir “raiva” – sabe a tal “bitch” de todo mangá? Nesse eu simplesmente não a encontrei – encarei todos ali com problemas e situações extremamente racionais e comuns, que a autora soube trabalhar de forma muito competente, dando o melhor final possível para todos. Claro que você pode não gostar pelo seu personagem favorito não ter terminado com a protagonista, mas isso faz parte. Não desmerece em nada a obra.

2Para quem busca um mangá honestamente colegial, contextualizado para uma sociedade atual, sem grandes problemas de “enrolações” e dilemas morais demais, Hirunaka no Ryuusei é uma recomendação certeira. Óbvio que estamos falando de um título focado para o romance de estudantes em um shoujo e o analisando como um tal. Não espere lutas, problemas psicológicos densos e batalhas contra o seu ego cravados nos personagens. Mas espere um título que te promete e te entrega de maneira redondinha uma deliciosa e agradabilíssima história.

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Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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