Review – Uma crítica social japonesa na ficção científica de ‘Inuyashiki’

Será que Hiroya Oku pode fazer algo superior a Gantz?

Já comentei em posts anteriores, mas volto a repetir: tenho mania de não saber absolutamente nada antes de ler um título. Sinopse? Pra quê? Gosto de analisar uma obra sem influências externas e, bem de vez em quando, me baseio em notas, para ver se o tempo gasto será recompensado ou não.

Com Inuyashiki não foi diferente. Aliás, esse, que faz parte da autoria de Hiroya Oku, autor de Gantz, foi um caso ainda mais extremo: não lembrava que se tratava de um autor de peso, até porque… também não li Gantz. Só entendi do que se tratava porque dentro da série há um personagem que é fã da obra (parte muito legal, inclusive)! E para finalizar, ainda é seinen, demografia da qual não sou assídua. Tinha de tudo para não gostar, não é? Mas acontece que acabou sendo uma leitura surpreendente, com crítica social e que ainda trabalha com estereótipos de uma maneira bem interessante. E, claro, nessa resenha comento sobre tudo!

A HISTÓRIA

Ichiro Inuyashiki tem uma família, uma esposa e dois filhos, nenhum dos quais se preocupam com ele. Quando ele descobre que ele tem apenas três meses de vida, ele percebe que o único que vai sentir falta dele é o seu cão. Pouco depois dessa constatação, ele é morto em uma aterrissagem de alienígenas. Ele é reconstruído por eles como uma máquina com o exterior humano. Como sua vida mudará agora que ele não é humano?

COMENTÁRIOS GERAIS

A obra de Hiroya Oku foi lançada na revista seinen Evening, da editora Kodansha, em janeiro de 2014. A série original ganhou uma adaptação em filme live action que estreará em 2018, assim como uma adaptação em anime pelo estúdio MAPPA que está prevista para outubro deste ano. O mangá será finalizado com 10 volumes.

Estamos acostumados com um tipo de estereótipo para heróis e vilões; temos uma visão de que para ambos há o envolvimento de habilidades especiais e poderes, e de como eles são tão diferente das pessoas comuns. Em Inuyashiki, o autor aborda o tema de uma forma interessante e com um peso de crítica. O capítulo introdutório serve para situar o tipo de mundo em que o protagonista vive, um Japão que está repleto de violência e que não há nem sombra de um possível altruísmo. Os fracos são oprimidos e os fortes dominam. Mas ao contrário do que se poderia presumir, os “vilões” da história são pessoas comuns, adolescentes ou adultos, sem nenhum poder mítico. E o “herói” da trama? Bom, ele não passa de um senhor quase idoso, que não tem ninguém que realmente ligue para ele, que é fraco e está em seus últimos dias de vida.

Ao contrário de One Punch-Man, que tem todo um teor cômico para cima do protagonista careca que derrota todos os seus inimigos com um único soco, nesse título senso de humor é algo raro. O clima do mangá é de tensão e em muitas vezes ele chega a ser incômodo, não pelo meio visual, mas pela forma como aborda a situação. Seu herói e seus vilões inusitados servem para chocar. Não espere uma leitura feliz, em boa parte do primeiro volume estava ou com pena do protagonista ou de outro semelhante a ele.

Recentemente fiz uma espécie de “limpa” nas minhas coleções de mangás, fui decidindo minuciosamente o que continuaria e o que abandonaria. Sinceramente, só havia comprado Inuyashiki para fazer resenha para o site… isso até ler. Não fui totalmente conquistada pelos últimos lançamentos da editora Panini, minhas avaliações finais para as estreias sempre beiravam a algo como “se der, continuo” ou “em um volume não dá para apresentar muita coisa“, porém, dessa vez foi diferente. Talvez por não ler o gênero e a demografia com frequência, porém fui tão cativada pela obra que assim que terminei o volume me segurei para não continuar a leitura do título por outros meios. Isso não aconteceu com Owari no Seraph, por exemplo. Entendo que os assuntos abordados são diferentes, mas aqui o que estou avaliando é o modo como os autores vão desenrolando a trama; essa série é mais concisa, enquanto o outro é bom, mas provavelmente precisaria se apoiar em mais capítulos para conquistar o leitor. Com certeza uma ótima surpresa – e que colecionarei sem dúvida.

O traço de Hiroya Oku é bem realista e detalhado. Para enxergar essas características é necessário, somente, observar o protagonista: o autor tem toda uma preocupação com as rugas de expressão, o desenho de todo o corpo, o cabelo, etc. Além disso, os detalhes do “personagem máquina” são incríveis, com diversos adereços, não dá para colocar defeito.

O encadernado de estreia me comprou logo de cara. A introdução é forte, mas bem passada, o desenvolvimento também não deixa a desejar e aquele finalzinho ainda desperta curiosidade o suficiente para querer uma continuação. Porém, devo ressaltar uma coisa: o tema de Inuyashiki, focando a parte em que envolve alienígenas, é um assunto que se não for trabalhado direito pode acabar sendo decepcionante. Confesso que tenho altas expectativas, mas é um tema que do início ao fim precisa ser pensado, uma explicação ruim para a situação paranormal comprometeria todo o mangá, mesmo que só aparecesse na última página do último capítulo; além disso, o autor ainda precisa lidar com seus dois protagonistas, Ichiro Inuyashiki e Hiro Shishigami – o adolescente que também sofreu o mesmo “acidente” que Ichiro – sabendo dosar a importância de seus papéis para a trama – algo que, sinceramente, acredito ser complicado para uma obra que finalizará com dez volumes.

CONCLUSÃO

Engraçado como é mais fácil o público aceitar um personagem com as características de Saitama, mas é difícil visualizar em Ichiro o potencial de um herói. Pode até ser “culpa” das histórias que consumimos – que insistem, em sua maioria, em colocar personagens jovens pois seu público-alvo também é novo, ter uma questão de identificação – mas há a visão de que idosos são aqueles que devem ser protegidos, não aqueles que protegem, ou pior, aqueles que são deixados de lado justamente por causa da idade. Hiroya Oku traz aqui uma forte crítica social, vindo de um país que hoje apresenta uma estrutura etária com maior porcentagem para idosos do que para crianças e pré-adolescentes, o mesmo país que em 2013 teve um ministro que declarou que “idosos deveriam se apressar e morrer“.

No início pode ser mesmo estranho ter um senhor como personagem principal, é inusitado. Mas o autor cria um cenário propício para que ele seja acolhido por quem acompanha; dentre todos os personagens que aparecem, Ichiro aparenta ser o único a se incomodar com a injustiça ao seu redor e o que demonstra ter sentimentos. O personagem pode ser uma máquina, porém é o mais real da trama.


INUYASHIKI

Autora: Hiroya Oku
Editora: Panini Comics
Demografia: Seinen (Evening)
Total de volumes: 10 volumes
Preço: R$13,90

Nota: ★★★★★

Miyuki

Tão normal, nem parece otaku. A louca das webcomics. Segue o mantra de ler e assistir de tudo um pouco (menos o que for terror, por favor). Tem um vício novo a cada mês e surta horrores na conta pessoal no Twitter.

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  • Luk

    Eu gostei do que li, espero que o tiozinho vença o Kurono!

  • Krauser Hellclown

    Acho improvável que supere Gantz, mas deve ser interessante se partiu do mesmo autor. Você disse que não leu ainda Gantz… Está esperando o quê? É um titulo de peso, com um lixo de protagonista no começo mas que vai evoluindo com o passar do tempo até se tornar digamos um “herói”. Só deixa a desejar no arco final, mas é uma obra que eu super recomendo

    • Camilo Lelis Ferreira da Silva

      Eu acho que o vovô Inuyashiki superará Gantz…

  • Raphael D Monteiro

    Eu gosto como esse autor trata as pessoas com mesquinheza, maldade e apatia absurdas ao ponto de não parecerem reais. (serio, se vocês acreditam que as pessoas no japão são assim, vocês deveriam não ter motivos pra gostar do lugar). Guntz é um mangá divertido e nada mais que isso, eu achei que esse titulo poderia ser melhor que guntz por ser da obra de um autor mais experiente, mas no fim é mais do mesmo. Todas as sensações de repudio que senti em guntz e que me divertia justamente por isso não puderam ser reproduzidas nesse mangá pelo simples fato de que eu já me acostumei com elas.Acreditem, sentir alguma coisa, mesmo que seja desconfortável, lendo algum mangá tá ótimo pra mim que geralmente leio essas merdas feijão com arroz que não tem nenhum sentimento, nenhuma substancia, nenhum conteúdo.
    Outra coisa que eu sempre gostei em qualquer estória é a evolução de personagem. Em guntz, temos o cuzão kurono, virar um pseudo herói (de uma pessoa só), Em Inuyashiki temos um homem medroso que vira uma maquina de matar, mas tudo o que faz, faz com medo, o medo nunca sai dos olhos dele assim como a hesitação. Ele mudou fisicamente? sim, Ele faz coisas que antes não fazia? Sim, mas eu não consigo sentir confiança dele, ele parece vazio, não é pela idade, mas ele é muito desinteressante.
    então essa é minha visão desse autor que eu nem tento lembrar o nome e esse é o motivo de de Inuyashiki, pra mim, ser decepcionante .

  • Asuma Yon

    Realmente, não é fácila char obras com destaque assim para idosos. No máximos eles são lendários mestres de luta. Mas, nessa temporada de animes teve um que eu vi por causa do idoso que aparece. O anime é Alice to Zouroku, onde uma garota de poderes mágicos resolve seguir….um velhinho. Só dela não ter escolhido um garoto chato da sua idade ganhou meu gosto. Ele é um velhinho autoritário, corrige a menina, educa, trabalha ainda e cuida sozinho de uma neta. Um senhor que faz mil coisas, não deveria ser descartado.
    Vou dar uma chance a essa obra também. Idosos também podem surpreender mais que um Saitama.

  • Wesley Pires

    Bom, eu sou meio preguiçoso com comentários longos, mas resumindo, mesmo não tendo acompanhado Gantz, a premissa me atraiu, acabei comprando e me apaixonei pelo conjunto da obra. Mais uma que vou aderir.

  • Vinicius Asevedo Vieira

    Ainda preciso ler esse mangá, tá na fila com os quase 100 aqui, mas é interessante e eu não ficaria surpreso se o assunto dos alienígenas não for trabalhado direito, Gantz tem vários problemas, se ele fechar bem as pontas será notável a evolução dele como autor.
    Ah, e o título do review quando tava nos rascunhos era melhor, XP

  • Estava em dúvida se compraria ou não, mas depois dessa resenha irei à banca hoje mesmo!

  • Rodrigo Umbelino

    Eu li esse volume na época que tava começando a lançar, valeu muito a pena. O jeito que esse autor conta as histórias é muito bom. Até hoje, se tu pegar Gantz pra ler, consegue ler uns 10-15 num dia só facil facil. Vou aproveitar se eu ver na banca.