Coluna do Adra: ‘Hai to Gensou no Grimgar’ – Quando Palavras Não São Necessárias

As vezes é preciso parar e observar.

Quando vai assistir um anime, normalmente já se espera algo vindo dele e algumas vezes não é correspondido, se decepcionando. Normalmente, quando isto acontece, quem assiste tem duas opções: dropar o anime ou continuar mesmo não gostando para ver se melhora e receber o que esperava. No entanto, existe uma terceira opção que chamo de: “certo, qual é a proposta que esse anime quer me trazer?”.

Um diretor está contando uma história (mesmo que de outra pessoa) na visão dele, esse fator é algo que é necessário se levar em conta, pois ele irá interpretar essa história e recriá-la da maneira que quiser (na maioria das vezes), então, tentar entender isso pode fazer algo que não era do seu agrado se tornar bastante interessante ou até mesmo ajudar a entender melhor a história proposta. Portanto, nesse post decidi falar sobre um anime que é um bom exemplo da terceira opção: Hai to Gensou no Grimgar.

Obs: Este artigo pode conter spoilers sobre a série. Recomendamos que assista a série ou continue por sua conta em risco. 

Grimgar, de maneira bem resumida, se passa em um mundo de fantasia, bem ao estilo dos RPGs, onde jovens são mandados para se tornarem soldados sem saberem como chegaram lá, ou de onde vieram. Por causa dessa sinopse, a maioria espera algo mais ao estilo das outras obras baseadas em MMO como Log Horizon e Overlord, mas Grimgar acaba entregando de uma forma diferente. Bem diferente.

Diferente, como assim? Grimgar é um anime que não tem pressa de contar sua proposta, muitas vezes parando tudo apenas para apreciar o ambiente, dar aquela respirada antes do próximo passo. O motivo disso é que o anime não é sobre personagens em um mundo de fantasia em busca de aventura, portados por incríveis poderes e habilidades, mas sobre jovens sem casa, sem passado, em um mundo hostil onde devem lutar para sobreviver e principalmente viver. Aliás, a dualidade entre viver e sobreviver é a o grande alicerce dos personagens de Grimgar e, é sobre esses personagens que a história se foca.

Os garotos que chegam a esse mundo precisam formar grupos para lutar contra os monstros e ter como sobreviver. Esses grupos costumam ser formados bem ao estilo dos RPGs que conhecemos. A party que acompanhamos no início tinham bastante dificuldade de conseguir enfrentar um inimigo. Consequentemente, começaram a passar fome, pois o drop era o produto para conseguirem dinheiro, além de ficarem sem ter roupas para vestir, a desejar uma simples roupa intima. Suas preocupações se intensificavam ao longo dos dias, ainda mais que as outras partys estavam bem mais fortes.

Diferente dos inimigos encontrados em outras obras, em Grimgar os adversários também lutam pela sobrevivência, como por exemplo, os goblins, primeiros mobs que nossos protagonistas enfrentam. Em uma cena, ainda no primeiro arco, notamos que nenhum dos garotos tinha consciência até ali do que era matar ou morrer, e que a constatação desse fato era o ingrediente que faltava para conseguirem o drop que tanto precisavam. Ranta, o dark knight do grupo, ao ver que sua única chance de sobreviver pretende escapar, corre em desespero atrás do goblin mesmo tendo um ferimento na perna. Ninguém vai atrás da presa além dele. O rapaz mata o goblin em um ato de puro instinto e ao constatar que havia ceifado uma vida começa a chorar. É uma cena chocante, aquela cutucada em quem assiste informando que o espectador não iria presenciar uma aventura pela frente. Naquele momento, Ranta demonstra algo que se perpetua até o final do anime: ele sempre vai agir quando precisar, porque os seus companheiros precisam dele, mesmo que tenha que sujar suas mãos de sangue. A cada golpe dele o rosto de outro protagonista é mostrado; a cada golpe, eles entendem que a lei da sobrevivência é crua e cruel.

Depois desse passo importante, finalmente eles começam a matar seus oponentes e, eventualmente, a conseguir a renda que tanto precisavam. Você acaba ficando feliz junto com os personagens ao conseguirem ter mais comida na mesa, a poderem comprar equipamentos novos, e até mesmo aquela peça intima. Esses pequenos momentos de felicidade compartilhada, esses detalhes simples, mas eficazes, estão em praticamente todos os episódios. O espectador começa a pensar que agora as coisas dariam certo, mas a felicidade é momentânea e novamente os personagens se vêem em um momento de extrema dificuldade. O mundo de Grimgar não perdoa os fracos. Ele sempre vai lembrá-los de que se vacilarem, podem perder a vida, e nossos protagonistas aprenderam da pior forma.

Infelizmente, para ilustrar alguns dos elementos usados pelo diretor, terei que dar um baita spoiler, então leiam por sua conta e risco.

Manato, líder do grupo, acaba morrendo em uma emboscada de goblins. Observem a imagem abaixo. Na primeira cena, que Manato não havia sido atacado, perceba que ainda estava ensolarado. Na segunda imagem, um tempo depois do ataque, o sol está se pondo e, na última imagem, já depois de ter sido cremado, a noite já havia praticamente chegado. Além desse tipo de técnica que lhe dá uma impressão de que o tempo está passando naquele mundo, também pode ser interpretado de outra forma. O dia está claro quando Manato ainda está bem, começa a escurecer quando ele está prestes a morrer e, já está a noite quando partiu e deixou seus amigos para trás. O uso de cores para simbolizar o que devemos sentir em determinadas cenas é uma ferramenta usada em várias mídias e nas animações elas se tornaram extremamente importantes. Até mesmo para a construção da personalidade de um personagem ou de uma obra no geral, a escolha de cores pode ser fundamental.

Vamos a mais um exemplo nessa mesma cena acima: percebam que Haruhiro ao estender seu braço para deixar as cinzas de seu amigo serem jogadas ao vento, lhes direciona para a parte mais escura da cena, enquanto o personagem está em uma parte mais clara. Esse jogo de cores pode significar que as cinzas estão sendo jogadas em direção a dura realidade da morte, enquanto seus amigos ainda estão vivos na luz. Também pode significar que Manato deixou o próprio Haruhiro como o feixe de esperança para fazer seus amigos seguirem em frente, já que em seu leito de morte o escolheu para ser o líder. Temos aqui três significados diferentes para uma mesma cena.

Agora, um exemplo simples de como somar vários elementos pode expandir ainda mais a linguagem usada para contar uma história em animes: Na terceira cena da imagem acima começa a tocar uma música desde o momento que se inicia a sequência do funeral de Manato. Leiam a tradução da letra e notem como naquele momento em especifico ela se encaixa perfeitamente com a situação.

Falhando em alcançar você, meus sentimentos ficam para trás…

Haruhiro admirava muito Manato, principalmente por ele ser um líder que sempre estava cuidando de todos. Ele constantemente se questionava se poderia ser alguém como o healer e, ao ver que perdeu seu amigo e teve que tomar seu lugar, sente que não poderá alcançá-lo. Haruhiro passa o resto do anime tentando se auto descobrir e saber como ser um bom líder, igual Manato era. É a partir dessa morte que os personagens de Grimgar expandem suas características básicas.

Após os acontecimentos narrados acima, os jovens novamente se vêem em dificuldades, tanto psicológicas, quanto pela complicação de ter um a menos nas batalhas (alguém essencial, já que ele era o healer). Haruhiro então, por meio de terceiros conhece Merry e ela acaba entrando temporariamente para a party. A questão é que ela não se dava muito bem com os outros grupos no qual participava e constantemente acabava saindo. O fator inicial fica claro, ela é extremamente fria e pouco se importava com os outros ao redor no campo de batalha. Era uma healer que, aparentemente, não se preocupava em dar o devido suporte. Imagine alguém que não tem interesse em interagir com outros e ainda deve trabalhar em equipe com eles para poderem chegar a um objetivo em comum? Obviamente que logo teriam complicações. Ninguém conseguia se comunicar com ela e sempre que tentavam eram logo cortados por uma resposta fria. O modo como a interação entre a Merry e o resto da parte estreita é algo bem gradual e devagar, onde até mesmo momentos que à primeira vista parecem simples, podem significar algo mais. A healer com o tempo percebe que Haruhiro é uma pessoa que se preocupa com seus parceiros e ele também nota que ela esconde algo por trás do seu jeito frio. Essa comunicação praticamente não verbal entre eles se dá de várias maneiras durante o anime, quase todas sutis. Essa é uma dessas cenas:

Notem como os personagens estão posicionados no frame. Merry está acima deles, dando uma sensação de distância comparado ao grupo. Haruhiro a convida para beber com a party, ela recusa. Até mesmo a posição de cada personagem expressa que eles desejam a companhia dela. Merry então se despede, algo que ela nunca havia feito antes e era difícil de acreditar que poderia fazer tendo em vista o modo como se portava. Esse simples gesto já demonstra que ela aos poucos estava se aproximando.

Haruhiro percebe que em um grupo, você precisa conhecer a outra pessoa – e eles não sabiam nada sobre a Merry. Algumas descobertas sobre o passado da healer fazem nosso líder entender com mais facilidade a razão dela se portar tão friamente com seus companheiros. Depois de uma série de acontecimentos, acabamos presenciando essa cena:

A party consegue se vingar dos goblins que mataram Manato e se aproximar um pouco mais de Merry. Eles se reúnem no túmulo de seu antigo líder e cada um vai deixando o local por vez. Notem no primeiro frame a posição de cada personagem. Haruhiro está na frente por ser o líder e por ter sido a pessoa mais próxima de Manato. O personagem mais próximo do thief é a Shihoru, wizard do grupo e a garota que gostava do antigo líder. Os outros três membros estão alinhados em igualdade, mostrando o mesmo respeito. Lá atrás está a Merry, pois obviamente ela não tem lembranças com o garoto e se afasta como forma de respeito aos demais – ora, ela quem está o substituindo. Sim, até mesmo as posições em que personagens se enquadram podem significar uma mensagem.

Ainda nessa sequência de cenas, temos o começo de uma queda de neve que vai se intensificando ao longo desse desfecho. É nesse momento que temos a transição de uma temporada para a outra, uma mudança. Sim, essa mudança também é refletida nos personagens. A perda de Manato mudou a vida deles completamente e a vingança foi esse ciclo se fechando. A busca da vingança foi apenas o motor que impulsionou os personagens a mudar, junto com a vinda de Merry definitivamente para o grupo. É, então, uma belíssima sequência que mistura tanto o verdadeiro adeus, aquele em que você finalmente respira profundamente e percebe que a perda não vai fazer sua vida parar, quanto a vinda de mudanças, de novos ares. É triste, porém, esperançoso.

Eu ainda poderia comentar sobre o cuidado que o autor teve para montar a sociedade dos dois inimigos apresentados no anime, com suas respectivas classes sociais e costumes, ou em como os backgrounds são lindos, uma escolha acertada para uma história que prioriza a calmaria entre os momentos de desespero. Ainda, o tema central do plot, viver e sobreviver, tem momentos extremamente marcantes mesmo que seja apenas dois personagens olhando uma paisagem cheia de neve ao fundo.

Entretanto, prefiro deixar você, que talvez tenha tido interesse em assistir por causa desse post, procure por si só esses elementos, pois é um dos principais charmes desse anime.

Grimgar é humilde e deixa a critério do espectador buscar em um olhar, em um gesto, um suspiro, algo a mais.

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  • Stain, o Assassino de Heróis

    Da série “Animes Bons que o povo não entendeu e achou chato”.
    Parabéns ao Adramalesh pelo post, e fica claro que quem aí fica com esse mimimi de “Ain, o anime não tem lutas/tem poucas lutas, por isso é ruim”, saiba que te acho um idiota.
    Ao no Exorcist 2 e Re:Creators também são dois que sofreram por causa disso.
    Quero ver como vai ser com Shingeki no Kyojin 3, se seguir fielmente o mangá, não terá tantas lutas nem cenas fodas. Quero ver vocês que acham tão foda só por ter ação se vão achar. Será a temporada que definitivamente saberemos quem é fã de verdade dessa porra.

    • Thiago Gonçalves

      isso mesmo, um excelente anime, sem a mesmice de sempre, algo mais profundo, também concordo com você.

    • Pedro Oliveira

      Concordo com vc que nem de longe um anime precisa ter lutas para ser bom.
      Mas, quanto a Re:Creators, não é isso que faz o anime se tornar medíocre (no sentido correto da palavra, algo que não é nada demais), talvez as pessoas de quem vc ouviu essa reclamação estavam reclamando da coisa errada.
      Re:Creators tem uma barriga enorme na metade, ficando extremamente chato, quase droppei o msm pela prolixidade dos personagens, sério, tem falas que demoram minutos que poderiam ser resumidas em 20s. Explicações longas demais para coisas simples (a maioria desses problemas ocorre nos episódios da criação do plano final). Ele se estende demais por um tempo que não era necessário, o anime podia ter uns 5 episódios a menos e ele seria bem melhor.

      P.s.: Gastaram tanto tempo no meio da bagaça que no fim esqueceram a Megane no “nosso mundo”(a guria lá com o poder de tornar mentira verdade (acho que era esse o poder dela)).

      • Stain, o Assassino de Heróis

        Verdade, concordo, o defeito pra mim mesmo foi que tem muita coisa ali de explicação e cenas que dava pra resumir ou cortar. E quanto a Megane, como a última aparição dela a mostrava num aeroporto, chuto eu que ela tenha fugido pra curtir a vida em algum lugar, o que é estranho, afinal, pra onde ela fugiu que o Exército Japonês não poderia alcançar?

    • PescadorParrudo

      Re:Creators foi ao contrário, pelo menos ao meu ver. Uma série bem ruim que ganhou elogios completamente indevidos.
      O problema de Re:Creator passa longe da falta de lutas, o problema dele é estrutural.

      • Stain, o Assassino de Heróis

        A estrutura dele não é perfeita, PORÉM tem muita coisa dele que é boa e que pelo menos me compensou os defeitos. Não é como Charlotte, cujos defeitos eram tão GRANDES que não adiantou ter uma qualidade ali ou aqui, por isso Charlotte é MUITO RUIM. Não recomendo que vejam.

  • Diego Ferreira

    Uma sugestão, no final dos posts, seria legal colocar uma ficha técnica do anime, inclusive, colocando aonde assistir. Sei que nos reviews das temporadas vocês colocam, mas sempre temos que ficar procurando e procurando. Preguiça? Pode até ser, mas facilitaria a vida dos novos usuários que ainda não conhecem o blog.

    Em tempo, excelente post!

  • PescadorParrudo

    O anime é bem slow-paced, principalmente por conta dos momentos contemplativos – e como a arte é meio “aquarelada” e bem interessante até que cai bem.
    O ponto é, o anime leva nada a lugar nenhum. O espectador cai no inicio de uma jornada, não há explicação de nada e não se tem uma conclusão do que está acontecendo. Quando o anime começa a propor algo que pareça atrativo(aka mostra o lado dos goblins nas batalhas) já está quase no fim.

    A impressão que me deu é que o autor só queria entrar no barco das séries que parecem MMO…
    Ou o anime foi planejado pra ter mais do que 1temporada, pq na boa, por mais que eu tenha gostado do estilo da arte do anime, simplesmente não aconteceu nada – pareceu simplesmente uma introdução, e uma muito longa por sinal.

    • FruitPunchSamuraiG

      Sim, foi algo do tipo “vender mangá”. Gostei da obra, muito bela e até me animava mas há realmente esse fato de ter caído numa obra sem objetivo, por mais clichê que fosse, se as personagens procurassem de volta as memórias ou quisessem voltar para casa, a obra poderia ganhar um objetivo e um desenvolvimento bem elaborado de como seria alcançado o simples objetivo teria tornado a obra menos perdida