Review – Quando surge um clássico: Puella Magi Madoka Magica

Quero deixar desde já explicito que podem haver spoilers referentes ao final da série e do decorrer da mesma nessa matéria. Fiquem avisados e leiam por conta e risco.

Sem palavras. Foi essa a sensação que senti ao terminar de ver Madoka, o anime do estúdio SHAFT que surgiu na primeira temporada de 2011 e que devido ao conturbado momento japonês acabou tendo seu final somente no último dia 22 de abril. Desde Bakemonogatari o estúdio é sinônimo de qualidade, mas o resultado esperado foi acima do normal. Com character design a mando de Takahiro Kishida (Durarara!!, Noein) e com a direção do competente Yukihiro Miyamoto (Maria Holic, Arakawa Under the Bridge), Madoka manteve uma animação excelente do início ao fim. Mesmo com um traço diferente, que ao primeiro olhar parece “rascunho”, o anime chama a atenção pela mistura com elementos surreais, cenários que são composições como em um recorte e colagem de imagens de revistas e objetos aleatórios. A trilha sonora é um show a parte, e além dos temas “Connect” de ClariS e “Magia” de Kalafina, vale destacar toda a composição pela ótima, competente e extremamente harmoniosa compositora dos jogos de Xenosaga, Yuki Kajiura, o que é a fatidica representação de qualidade.

A série contou com 12 episódios e foi rodeada de situações complicadas. Primeiro ameaças de cancelamento devido à cenas mais fortes. Depois teve seu final adiado pelo terremoto, como já dito antes. Fato é que ela conquistou admiradores, fãs e “seguidores” em seu período de exibição. Sua venda de DVD’s e Blu Rays liderou a Amazon e a expectativa da mídia foi enorme, chegando até mesmo a ser estampada no jornal de maior importância no Japão. O estardalhaço foi muito, mas foi merecido. Madoka marcou, e será para sempre um anime que ficará guardado na lembrança daqueles que o assistiu.

A história

Madoka é uma garota de 14 anos. Estudante, vive com sua mãe, pai e irmão mais novo. Possui amizades na escola e vive uma vida comum, como qualquer garota da sua idade. Mas um acontecimento muda toda a tragetória da vida da garota. Um dia ela escuta uma voz pedindo por ajuda e decide ir atrás daquele pedido. Ela então encontra uma criatura “fofinha” chamada Kyuubei, que estava sendo perseguido por alguém. Kyuubei conta a Madoka e sua amiga Sayaka que ele é o responsável por “recrutar garotas mágicas” para proteger o mundo da ameaça de bruxas, seres que se aproveitam dos medos das pessoas e os usam para aterrorizar, matar e consumir a alma. Tudo que Madoka e Sayaka tem a fazer é simples: se transformar em Mahou Shoujo em troca de um desejo qualquer a ser realizado. As garotas exitam e começam a pensar em que tipo de desejo fariam, sabendo que aquela decisão seria muito importante para o seu futuro.

Enquanto isso, elas conhecem uma outra garota mágica, Mami, uma estudante mais velha do mesmo colégio que elas e que luta a mais tempo contra as chamadas criaturas. Mami começa a lhes ensinar e mostrar como é a vida de uma garota mágica e sua árdua missão de proteger as pessoas.

Ainda em dúvida, as garotas conhecem também outra mahou shoujo, a misteriosa Akemi Homura, a garota que corria atrás de Kyuubei no começo de tudo. De alguma forma, Homura guarda segredos e vive a todo instante tentando separar o “animal” das garotas, tentando convencê-las de não se tornarem garotas mágicas.

Qual o segredo que corre por trás dos desejos realizados por Kyuubei? Porque Homura não deseja que Madoka entre nesse mundo das mahou shoujo? Conspiração, um enorme clima de tensão e de cenas fortes. É isso que aguarda você em Puella Magi Madoka Magica.

Comentários Gerais

A partir daqui, alguns spoilers serão feitos. A maioria pode influenciar no futuro da história e do seu entendimento, portanto leiam por sua conta e risco.

Madoka se destacou por ser uma descontrução do gênero mahou shoujo. À primeira impressão, parecia ser somente mais um anime de 5 garotinhas tentando salvar o mundo com poderes e cetros mágicos. Engano. Ele foi além. Usou fórmulas de animes já existentes e soltou na cara do telespectador um “E se nem tudo for uma maravilha?”

Tudo é posto em prova: o surgimento da expressão “grandes poderes exigem grandes responsabilidades”, a constante escolha do ser humano em suas decisões, a “troca equivalente” onde tudo tem um preço. O conceito de bem e mal. Em alguns momentos pensamos “realmente existem vilões e heróis nessa série?”

Kyuubei não foi vilão. Madoka não foi uma heroína. Kyuubei pôs a prova o que todos sabemos, que decisões erradas podem ter consequências. Nenhum desejo é feito sem esforço, sem sacríficios. Da mesma forma que Madoka não quis em nenhum momento passar a mensagem de que ela salvaria a todos. Ela foi uma garota comum, com medos, crises, que sofria por perder as amigas mas que ao mesmo tempo se sentia impotente. Mesmo sua escolha final de se “sacrificar” e ser esquecida por todos em troca do equilibrio e do fim das garotas transformadas em bruxas não a leva a querer ser uma heroína. Sua idéia é uma só: Fazer com que a esperança jamais fosse esquecida.

Além disso, Madoka foge do tradicional. É um anime violento, com mortes e cenas impactantes. A cena em que Mami perde a cabeça no episódio 3 na luta contra uma bruxa é aterrorizadora, mas serve para ponto de choque da animação. A partir dalí vemos o real significado da série, que mesmo boa, ainda não havia ficado claro. Não seria algo comum, isso já ficava claro. O desespero entre as personagens começava a tomar forma, as brigas entre elas também. Dúvidas, problemas pessoais e tudo que uma garota de 14 anos está acostumada a passar se misturavam com a dúvida de ter um desejo ou não realizado. A escolha de assumir novas responsabilidades começava a tomar uma dimensão assustadora.

Um dos grandes atrativos da série é que em nenhum momento do anime a história se perdeu. Ela foi totalmente bem amarrada do início ao fim e isso é inegável. Para aqueles que acompanharam o anime fielmente durante todas as semanas, a sensação de coerência foi ainda maior. Alguns detalhes curiosos que sentimos nesse instante, por exemplo, foi algo observado pelo Luk: A cada episódio que se decorre até a noite de Walpurgis a sensação de escuridão e da falta de luz no anime é cada vez mais notável. No último episódio não temos nenhum ponto de “luz natural”. Outra coisa interessante: também no último episódio a mãe de Madoka diz que sua filha tem mudado muito, que não desabafa mais em nenhum momento com ela e que se tornou mais fechada. E isso realmente acontece! Percebemos a constante evolução da personagem e vivemos juntos a ansiedade de quando ela iria aceitar a proposta de Kyuubei de se transformar em uma Mahou Shoujo.

Personagens esses que são essenciais para o sucesso do anime. Não poderíamos ficar sem citar o próprio Kyuubei. Toda a trama acabou sendo desenvolvida justamente pela sua presenção, não como vilão, mas sim como o anti-herói. Em nenhum momento ele se importou com o bem estar das garotas. Também em nenhum momento ele se importou com a destruição da terra. A escolha era sempre das garotas, cabia a elas decidir o futuro. Tudo que ele queria é que seus objetivos fossem alcançados, e de certa forma foram. À todo momento temos a disputa e a contraposição entre ele Homura, uma verdadeira oposição de pensamentos e ideais.

Homura é outra que merece principal atenção. Embora o anime tenha levado o nome de Kaname Madoka, e de sua escolha ter sido a grande conclusão para a história, é em torno da Homura que tudo acontece. Ela é a verdadeira protagonista. À todo momento ela é a personagem principal, todo o climax acontece por causa das viagens interdimensionais dela, da vontade de salvar sua melhor amiga da morte, do sentimento puro de amor entre as duas personagens. O episódio 10 foi essencial para mostrar isso, já que é nele que a história realmente mostra como se desenvolveu até chegar ao primeiro episódio da série. Desde o começo os desejos de Homura de cumprir sua promessa e seu poder de viajar no tempo foi o grande determinante para toda a conclusão do anime. Sua “casa” também era uma demonstração da diferença dessa personagem para o resto da série. Era deslocado, diferente, possui uma vida própria e brincava com a idéia das viagens entre as dimensões.

Sua amizade com Madoka é emocionante, de cortar o coração ao meio na cena em que elas se despedem em um último abraço. Incrível ver que um anime consegue passar tão bem um sentimento dessa forma. É o amor na mais simples e pura forma.

Falando em potencial de personagens, poderiamos gastar um post inteiro aqui falando de como Madoka explora todo o lado emocional do telespectador. A amizade imposta entre Madoka e Sayaka é a prova de que verdadeiras amigas (os) realmente ficam juntos até nas situações mais dificeis. Madoka tentou a todo instante evitar o pior para sua amiga, esteve ao seu lado, errou em diversos momentos (trace um paralelo com o episódio em que ela joga a alma da garota de uma ponte) mas acima de tudo sempre lhe trazia a calma e a segurança de que tudo estava melhor quando estava ao seu lado, seja em um dos abraços ou na realização de ver seu amado tocando violino pela última vez.

E Sayaka também teve mais uma importante amizade no decorrer do anime: Kyoko. Quer mais exemplo de amizade do que morrer junto da pessoa que você realmente ama e que tentou a todo custo livrá-la do erro? Kyoko esteve desde o começo “lutando” com Sayaka e tentando impor a vontade de tirar a garota de uma luta sem fim. O preço foi caro, e ambas acabaram pagando com a vida em uma das cenas mais emocionantes da série.

Um anime que consegue tão bem representar uma idéia para seu público sempre busca inspiração em um ambiente comum de todos. E muitas das coisas que foram postas no anime são referências à vida real, em especial à religião católica. A noite de Walpurgis representada no anime como o “caos final” é na verdade também uma festa européia acusada pela Igreja por fazer um culto ao diabo. Para maiores detalhes, visitem esse blog que conta mais do assunto.

Além de toda influência e de beber de fontes como as da citada acima, o final de Madoka coincidiu com mais um fato: dia 22 de Abril, a sexta feira da paixão. Mesmo que nem todos que leiam o blog sejam católicos, a maioria deve saber do que se trata. Na história, Jesus morreu nessa data para pagar pelos nossos pecados. Te lembra algo? Madoka decide trocar sua vida para salvar a todos, não? Será que esse fato foi intencional? Ninguém oficialmente se pronunciou quanto a isso, mas vale lembrar que essa é uma data mundial, e como as referências de religião são presentes no anime, eu não duvidaria.

Não acho que Madoka tenha “superado” Evangelion. Talvez nem tenha chegado perto disso, tendo em vista que Evangelion influenciou toda uma geração de animes e fãs no mundo, fato que jamais se repetiu nos últimos anos. Mas fato é que Madoka entrou para o mesmo hall de EVA, Yamato, Gundam e outros. Se sobressaiu, foi único, foi coerente, re-criou um gênero que até então era taxado de “infantil” e se consolidou como o melhor anime dessa década que acabou de começar. Se tornou um clássico por si só.

Resta saber como serão os próximos meses e anos de Madoka. Qual o nível de influência que ele gerará nas próximas animações? Haverão muitas “Madokas” e “Kyuubeis” por aí? Qual o impacto que ele causará para a população japonesa e mundial? Ele será tratado como referência? É cedo para fazer muitas afirmações, até mesmo precipitado. Prefiro manter a cautela e esperar o tempo dizer.

Isso em nenhum momento, no entanto, tira o prestigio, a beleza, o encanto, o sentimentalismo, e a sensação de “dever cumprido” que o anime me passou. Mexeu comigo, mexeu com todos. Nem o mais coração de pedra pode dizer que não deixou uma lágrima escapar ou a emoção vir a tona nos episódios finais dessa série. Ela foi especial, tão especial que dizer tudo que eu senti é praticamente impossível nesse texto. E olha que com certeza muita coisa ficou faltando aqui. 

Um dos melhores animes que já vi na minha vida e que ficará pra sempre guardado na memória. Obrigado SHAFT, por me proporcionar uma experiência tão incrível e grandiosa quanto essa. Missão cumprida.

por Dih

PS: Outras opiniões de Madoka nos blogs parceiros! Confira no Gyabbo!, no Elfen Lied Brasil e no Mundo Mazaki!

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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