Dossiê Conrad – O retorno! Ou não?

Aquela que já foi a maior editora de mangás no Brasil anunciou nessa semana seu retorno ao mercado dos mesmos. Qual será o destino da Conrad daqui pra frente?

No começo da década de 2000, os mangás começaram a ganhar seu espaço nas bancas brasileiras. E a grande pioneira de tal fato foi a Conrad, inegavelmente. Embora a JBC também lançasse títulos como Samurai X e Sakura Card Captor, a Conrad foi a quem “deu a cara a tapa” e colocou em nossas bancas Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, seguidos por títulos como Fushigi Yuugi, Evangelion, One Piece, Slam Dunk… Tudo nas mil maravilhas, até que a falência da editora ficou em evidência. Títulos parados, nenhuma novidade, nenhuma informação e apenas boatos. Fato é que a editora perdeu seu lugar, assim como perdeu seu respeito com os fãs de mangás. 

Com a falência em pauta, a Conrad foi vendida para a editora IBEP, responsável por publicações em maioria “voltadas para o governo”, mas que também possui uma das mais modernas gráficas do país. A causa da queda é desconhecida e tudo o que vemos são boatos. Pessoas que conheço ligadas a IBEP disseram que a má administração de bons títulos foi o que causou a destruição da editora. Super tiragens de Cavaleiros e Dragon Ball que ficaram encalhadas devido a falta de planejamento e venda abaixo do esperado. Especulação ou não, fato é que a antiga administração afundou a editora.

A esperança por um momento foi retomada, mas foi tarde demais. A Conrad não retomou com os mangás paralisados e resolveu seguir firme em outro segmento da editora. Publicações de muita qualidade gráfica, técnica e tudo que ela sempre soube fazer com eficiência, como os livros de Neil Gaiman por exemplo. Depois de algum tempo, vieram alguns manhwas (Model, Melodia Infernal, Gui, Banya e o recém finalizado Dangu), mas a confiança dos fãs na editora não acompanharam os lançamentos.

Especulou-se muito sobre os títulos todos cancelados da editora e inclusive o site Anime Pró disse ter entrado em contato com a administração da Conrad e adquirido a informação de alguns títulos que não seriam mais trabalhados pela mesma. Em 2010 então veio aparentemente a tampa do caixão: a JBC publicaria Evangelion de onde a concorrente havia parado. Alí tudo parecia acabado. Mas eis que nessa semana surgiu mais um raio de esperança para os fãs.

Em nota publicada no site CavZodiaco, a editora Conrad anunciou seu retorno ao mercado de mangás com títulos que eram considerados parados ou cancelados, pegando muitos de surpresa. Fez questão de ressaltar a qualidade e a credibilidade da editora, que foi a pioneira nos mangás no Brasil e mais algumas lições de auto-estima. Além da bomba dos títulos retomados, a Conrad surpreendeu e divulgou publicamente sua insatisfação com a editora japonesa Shueisha, apontando de uma vez por todas as relações com a mesma, o que significa o cancelamento de Dragon Ball e One Piece sem maiores rodeios. Aparentemente exigências foram feitas por parte do Nihon, e a Conrad não desejava seguir (apostaria na publicação dos volumes de One Piece em tankobon, mas é só uma teoria).

Fato é que algumas mudanças e dúvidas devem surgir no mercado brasileiro depois desse anúncio. E alguns devem estar perdidos quanto ao que voltou ou não. Segue um guia rapidinho para vocês.

Os títulos retomados confirmados

Segundo o comunicado, ainda no primeiro semestre, a editora retomará uma obra e relançará outra. Como o header da notícia entrega, o mangá que deve voltar as bancas é Cavaleiros do Zodíaco Episódio G que havia parado no volume 10 na época. Segundo o CavZodíaco, os volumes 11, 12 e 13 já estariam prontos, mas entre estar prontos e serem lançados temos pequenas diferenças… A nota da Conrad diz que na época em que era publicado, o mangá era o mais vendido das bancas (o que eu sinceramente não duvido). Naqueles anos, se não me engano o título era lançado alguns meses depois da publicação japonesa, com um acabamento lindo, páginas coloridas e com o valor de R$12.90. Hoje em dia temos Lost Canvas em “Edição de Colecionador” pelos mesmos R$12.90 não é Marcelo? Não foram divulgados preços e nem datas fixas, mas já podemos esperar alguma novidade nos próximos 2 meses.

O outro título anunciado trata-se de Gen – Pés descalços, mangá publicado no Brasil pela editora no final da década de 1990 em sua versão “adaptada” vinda dos Estados Unidos. Agora a editora diz que relançará a obra na integra, ou seja, a versão japonesa do mangá com 10 volumes! Agradável surpresa para esse título maravilhoso. Nesse caso, já foi divulgado que o primeiro volume terá 280 páginas e custará R$24,90.

Para o segundo semestre, a Conrad também já tem seus planos, e neles está incluído o mangá de Battle Royale, que não foi concluído por aqui por questão de 3 volumes (13 ao 15). A editora já se pronunciou que o mangá será retomado daonde parou, por isso não esperem uma reimpressão tão cedo. Se é que sai. Ainda dá tempo de correr nos sebos e tentar encontrar o título.

Os cancelados

Segundo a nota já citada antes do site Anime Pró e a nota recém lançada, a Conrad não possui mais os direitos das seguintes obras que ainda não haviam sido finalizadas: Delivery Service of Corpse, Megaman, Monster, Neon Genesis Evangelion, Sanctuary, One Piece e Dragon Ball.

Tirando Evangelion, que já foi retomado pela JBC a partir do volume 21, e Megaman que havia sido cancelado no número 5 antes mesmo de todos os problemas da editora, o restante acaba sendo uma grande perda para o mercado. Também podemos supor a conclusão que se a Conrad teve dificuldades em voltar com One Piece em meio tanko, se alguma outra editora retomar o título ele deve vir no formato tankobon. O problema é se viria desde o número 1 ou a partir do volume 36 (respectivo ao volume 71 da Conrad e o que deveria ter saído).

Delivery Service of Corpse é uma perda dramática. O mangá que já tinha vida útil “contada” desde o seu lançamento, já que a Conrad considerava ele um mangá “sem conexão de volumes”, acabou sendo cancelado no volume 3, antes dos 5 volumes previstos pela editora. E o mais triste foi ela ter chegado a liberar a capa do volume 4. Uma pena e um aperto pro colecionador.

Monster, obra do grande mestre Naoki Urasawa, foi lançado apenas até o seu 10º volume, faltando 8 para sua conclusão. Sanctuary, outro ótimo mangá da editora que envolvia conspirações, política e tudo mais que um bom seinen merece, acabou sendo cancelado no volume 6, faltando mais 6 volumes para o fechamento.

Lembrando que mesmo entre os títulos já lançados completos, alguns deles a Conrad não possui mais os direitos de publicação como dito no ano passado. É o caso de Evangelion Iron Maiden, Fushigi Yuugi, Preto e Branco, Ring, Uzumaki e Zettai Kareshi, além de Cavaleiros do Zodíaco, Slam Dunk,  e outros da Shueisha. Como havia dito no post de checklist da JBC, não duvidaria do fanatismo do senhor Marcelo Del Greco em Cavaleiros do Zodíaco para republicar o mangá por aqui em tanko ou em Edição Definitiva pelo selo Graphic Novel. Assim como aconteceu com Evangelion, a possibilidade de outra editora pegar a obra é real, e todos esperamos por isso.

Os títulos que podem voltar

Antes de começar a escrever esse parágrafo, quero lembrar a vocês que as informações contidas a partir daqui são baseadas em especulações ou “exclusão”. Não existe nota oficial da editora com excessão de um deles: Nausicaa! A Conrad vem postando em seu twitter desde o ano passado que o retorno do mangá era certo, e que ainda em 2011 os volumes 6 e 7 seriam lançados. O ano não acabou, mas as esperanças de alguns parecem estar. Justamente pelo fato do mangá não ter sido citado na nota as dúvidas sobre o título são ainda maiores. Lembrando que Nausicaa é o material mais bem feito que temos no Brasil em relação a mangás, considerado a versão mais bela do título mundo afora. Cruzemos os dedos e torçamos.

Outros títulos que poderiam ser retomados pela editora são:

– Vagabond: A edição definitiva brasileira é a única do mundo inteiro e elogiada em todos os lugares. Isso mesmo, só o Brasil lançou uma edição definitiva desse mangá, e de acordo com a editora na época, a publicação havia sido uma decisão em um acordo com o autor. Essa parou na edição 14. A versão meio-tanko havia sido cancelada na edição 44 (que seria equivalente a 22 edições definitivas).

– Blade of the Immortal: Cancelado na edição 38 brasileira (19 original). A Conrad seguia Blade “fielmente” com os japoneses mas não efetuou o lançamento dos volumes 39 e 40 na época. O mangá está no volume 25 no Japão, o que daria a nossa edição 50.

– Bambi: Um dos mangás mais undergrounds da editora. A Conrad lançou 4 volumes dos 6 existentes da série da garota de cabelo rosa com sua pistola cor-de-rosa. Eu particularmente acho a arte desse mangá sensacional.

– Ooru: Se Bambi é underground, encare Ooru como algo acima do underground. Seinen admirado por poucos, adorado pelos que compravam e “maltratado” pelo seu apelo visual por aqueles que não simpatizavam com o título. A Conrad lançou 3 dos 5 volumes do mangá, e assim como Delivery Service of Corpse, chegou a ter a capa de seu volume 4 divulgada. Mas não passou disso.

– Strain: do mesmo autor de Hokuto no Ken. O título nem chegou a ser anunciado oficialmente pela editora, embora já soubessem dos direitos da Conrad sobre o mangá. Possui cinco volumes mas ninguém sabe se ainda consta em poder da editora.

Chances? Bem, acredito que desses, o que mais condiz com a “realidade” da Conrad atualmente seja Bambi ou talvez Vagabond pelos formatos “livraria” em que são publicados. Strain também seria uma boa alternativa por se tratar de apenas 5 volumes fechados. Ooru por faltarem só 2 volumes, quem sabe. Mas Blade… como grande fã da série tenho minhas dúvidas e receios. Não acho que a Conrad investiria novamente em uma série mensal com essa quantidade de volumes atrasados com o risco de um cancelamento definitivo. Ainda mais se tratando de um mangá ainda em andamento no Japão. Uma pena, já que Blade foi umdos melhores títulos já publicados pela editora. Espero que alguém possa dar continuidade no título em último caso.

O que esperar da Conrad daqui pra frente?

Aqui entramos numa questão delicada, mas é preciso se focar em algumas questões: Qual seu nível de confiança na Conrad? Quantos títulos paralisados da mesma você possui? Você conhece a linha alternativa de quadrinhos da editora?

Pois bem, fato é que confiança a Conrad não possui mais. Diversos títulos parados, cancelamentos, falta de transparência da editora com os mangás. Todos esses fatores contribuem para o chamado “pé atrás” dos clientes.  A Conrad não faz por merecer que invistamos em seus novos lançamentos, embora a estratégia de retomar aquilo que já se tem parado é interessantíssima, uma vez que isso garante ao menos o público que ainda possui sua coleção guardada. Tirando que a qualidade dos mangás “caprichados” da editora nunca fizeram feio, e embora alguns não gostassem do papel ofício nas páginas dos mangás meio-tanko e de algumas escorregadas na adaptação de One Piece, tenho certeza que a maioria sente falta do acabamento do próprio CDZ G e das páginas coloridas em Evangelion, por exemplo.

Claro que também podemos analisar o conjunto Conrad e ter uma perspectiva melhor. Não há o que reclamar de material lançado, desde Mr. Punch até álbuns de Calvin até os recém lançados Deuses Americanos e Bórgia volume 4. A editora em si não faz feio, lança títulos importantes para o mercado editorial brasileiro. Não podemos confundir o “selo” mangás com todo o trabalho dela.

Dificilmente, ou praticamente impossível ela tomar o lugar da Panini, por exemplo. Ou mesmo tomar o lugar da JBC. A Conrad vem para ser mais uma. Vem não, volta. E eu particularmente fico feliz com isso. É bom ver que o mercado brasileiro ainda tem chances de respirar em outras direções, trazendo novidades, fidelizando leitores ou consolidando e agradando os do passado. É bom que a Conrad volte com Cavaleiros G, assim como é ótimo ver a NewPop trazendo Gate 7 em simultâneo com o Japão.

Em suma, não podemos dizer o que será da editora com a publicação dos mangás de hoje em diante. Não acredito que as coisas se estabilizem por lá de uma hora para outra, mas também não acredito que a mesma faria um anúncio assim sem no mínimo ter tomado um cuidado para se seguir sem cometer os mesmos erros do passado. A administração da Conrad mudou, utilizou muito tempo para se reestruturar (as dívidas da editora não eram poucas) e vai tentando se posicionar novamente no mercado. Não é a primeira editora do mundo a sofrer algo assim, e muito menos a primeira a ter títulos transferidos para outras. No próprio Brasil já tivemos diversas reviravoltas de quadrinhos que se vão e se vão novamente para outras editoras durante esses tantos anos de mercado. A americana VIZ, por exemplo, relançará a série Tenjho Tenge, anteriormente publicada pela falecida DMX com cortes. A mesma VIZ cancelou Gintama e muito provavelmente Reborn, o queridinho pedido pelo pessoal daqui. NÃO É NADA DE OUTRO MUNDO!

Ficar bravo com a editora, revoltado por ter seu título cancelado e achar ela a pior do mundo são atitudes normais e válidas, afinal, você é consumidor e está se sentindo lesado por isso. Só não ache que isso é exclusividade nossa, que ninguém mais passa por isso! Estamos aprendendo a lidar com essas reviravoltas mercadológicas somente agora, somos um bebê até mesmo perto de nossos hermanos argentinos. É preciso encarar que o mundo vive de cancelamentos, de escolhas e principalmente de dinheiro. Se ele não entra, não há editora que aguente. Não há título que se auto-sustente por meia dúzia de fãs que compram.

E assim, seguimos nossa expectativa pelos próximos meses. Vamos com calma nas expectativas, mas vamos confiantes. Que tudo dê certo e que antes da Conrad pensar em novos títulos, possa se estabilizar com os que já tem, provando que pode recuperar a confiança de seus clientes. Ou jogar tudo por água abaixo e essa postagem ser a minha cova…

by Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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