Review – O mundo do subconsciente de Astral Project

Corpos astrais, conspirações e ideologias um tanto quanto inusitadas.

Astral Project é um mangá seinen, publicado pela revista Comic Beam, que totaliza quatro volumes. O desenho é feito por Syuji Takeya, sendo o próprio Astral sua obra mais conhecida, enquanto o roteiro é assinado por “Marginal”, que é um pseudônimo de Garon Tsuchiya, famoso pelo mangá Oldboy.

Havia lido a sinopse de Astral Project quando a Panini o lançou, mas não havia me interessado muito pela história, embora tenha gostado de sua capa. Então, em certa ocasião minha namorada viu o mangá, também se interessou pela capa, o comprou, e, após lê-lo começou a falar muito bem, até que eu também tive vontade de ler.

Já adianto que a história me agradou muito (mais adiante explicarei os motivos), principalmente devido ao seu teor sobrenatural, gênero sem muitos precedentes antes no Brasil, mas numa situação que poderia se encaixar na realidade, dependendo das experiências e crenças de cada um.

A História

Masahiko vive afastado de sua família devido a problemas de relacionamento com seu pai. Trabalha em Tóquio como motorista para prostitutas de luxo agenciadas pela Yakuza. Sua vida não tem muitas emoções, não acha que seu trabalho seja bom ou ruim, apenas o necessário para sobreviver.

Certo dia recebe o telefonema de uma amiga de sua irmã, dizendo que esta havia falecido. Mesmo que tenha se afastado da família, Masahiko recebe a notícia com choque, e concorda em ir sua cidade natal, Chitose, para o funeral de sua irmã, Asami, pois ainda nutria muito carinho por ela, sendo a pessoa a quem fora mais apegado, pois era a única por quem nutria algum sentimento e que o fizera sorrir. Chegando a casa onde sua irmã morava com seus pais, vai ao quarto dela, e resolve pegar como recordação o último CD que sua irmã ouvira antes de morrer.

Ao voltar para casa, Masahiko ouve o CD, e ao escutá-lo tem sua primeira experiência extra-corpórea – podendo ver seu corpo enquanto sua alma flutua por seu apartamento. Seu primeiro pensamento é de medo, pois não sabia como isso podia acontecer, mas depois disso começa a fazer experiências, indo cada vez mais longe em suas projeções astrais, chegando ao ponto de conseguir ter certeza de que isso era real, embora outras pessoas normais não pudessem vê-lo. Entretanto, após diversas projeções, acaba conhecendo outros que conseguem “ir lá pra cima” assim como ele, e resolve querer descobrir mais sobre o motivo disso acontecer. O primeiro ponto a se averiguar foi o tipo de música. O CD era de jazz, uma composição inédita de Albert Ayler. Após isso, suas principais dúvidas são: por que não são todos que conseguem fazer isso ao ouvir o mesmo CD? Será que havia acontecido o mesmo com sua irmã e esta não havia conseguido retornar ao corpo?

Considerações Técnicas

De certo modo, posso dizer que o desenvolvimento do mangá é lento, porém é de rápida leitura. Digo que é lento pois, principalmente no começo, existem muitas divagações de Masahiko sobre sua irmã e sobre os corpos astrais. Entretanto, a história é do tipo que deixa na expectativa de saber o que vai acontecer a seguir, sendo difícil para eu parar de ler até acabar os quatro volumes.

Outro ponto que tem que ser analisado é sobre o jazz. Se você gosta e conhece esse tipo de música, provavelmente apreciará MUITO a história, pois existem inúmeras referências ao tema, desde o já citado Albert Ayler, chegando em nomes mais recentes do gênero musical. Embora eu não seja apreciador do gênero, não me senti perdido em meio a essa musicalidade, já que o autor não coloca referências sobre o jazz que não sejam explicadas posteriormente e necessárias para a história.

Quanto a arte de Syuji Takeya, tem aquela atmosfera de suspense, características em mangás do gênero, que eu associo à MPD Psycho ou Monster, embora não seja uma história sobre assassinatos como estes. Apreciei o traço dos personagens, assim como o cenário, que ajudam muito na sensação que teria se tivesse uma projeção astral e visse o mundo todo pelo alto. E, principalmente pelo fato de quase toda a história se desenvolver durante a noite, propicia a ideia de que se passa num mundo de sonhos, e que durante esse período do dia tudo é possível.

Comentários Gerais

Achei Astral Project uma série muito empolgante. Como disse no início desse post, a temática sobrenatural sempre me atraiu, e o tema abordado, de projeções astrais, é algo que não está muito presente na grande massa, mas que suscitam tantas dúvidas, se não mais, quantas as quais apresentadas no mangá. O autor abordou um assunto muito complexo e trouxe ao cotidiano, criando conspirações e utilizando elementos fantásticos mais próximos da realidade, de modo que, de acordo com as premissas apresentadas no mangá, qualquer um estaria suscetível à uma experiência dessas.

Astral Project tem muitas referências a otakus, e muitos podem se encontrar em algumas passagens da história. Vale ressaltar ainda que o mangá apresenta uma crítica social feroz ao estilo de vida japonês e ao imperialismo estadunidense, e, por esse mesmo motivo, é algo que não agradará a muitos, pois evidencia a forte opinião dos autores sobre esses e outros temas.

por César

Asevedo

Formado em design editorial e assistente editorial da Panini Mangás. Leio mangás e história em quadrinhos de diversos países. Assisto animes de forma esporádica. Sempre estou no Twitter.

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