Review – Coincidências e destinos em Baccano!

Esqueça a linearidade e o bom senso. Deixe-se levar pelo tumultuoso Baccano!

É muito comum que mídias se percam nas tentativas de manter uma boa narrativa dentro das limitações temporais e orçamentárias estabelecidas. O desafio de manter uma história interessante às vezes é grande demais para alguns roteiros, que acabam caindo no esquecimento da maioria, ou devido a personagens fracamente desenvolvidos ou por falhas na forma de contar a história. Baccano! é o tipo de anime que consegue se estruturar em uma narrativa não-convencional e prender o espectador a partir dessa construção.

Digo isso porque, junto com uma narrativa inovadora, vem uma típica estranheza em relação a essa forma de contar a história de maneira confusa e fragmentada que foi adotada no anime, mas que é contornada no decorrer dos episódios até que a estranheza se torna envolvimento. Baccano vem do italiano e significa confusão, tumulto: palavras que resumem bem o feeling do anime desde o seu primeiro episódio.

Sobre um primeiro olhar o maior destaque é essa narrativa não-convencional e excepcional, mas nota-se que o anime não se foca somente nisso, afinal uma proposta parecida (só que bem menos ousada e não tão criativa) já havia sido apresentada em Suzumiya Haruhi no Yuuutsu pela aclamada Kyoto Animation. Baccano! se faz envolvente por um conjunto de fatores que englobam desde uma história que aborda ação, drama e comédia; como uma qualidade técnica de animação e trilha sonora. Tudo isso com gangsters, mafiosos, ladrões hilários, um toque de alquimia e diversos mistérios sendo contados no cenário principal de uma depressiva Nova York da década de 30.

A história

O anime é baseado na série de light novels homônima escrita por Ryohgo Narita e ilustrada por Katsumi Enami, novels que já venderam mais de 500 mil cópias nos seus atuais 17 volumes. A série de anime possui 16 episódios (13 exibidos no Japão em 2007 e mais três especiais disponíveis em DVD) dirigidos por Takahiro Omori (Jigoku Shoujo, Durarara!!, Natsume Yuujinchou, Hatarubi no Mori e) e produzido pelo estúdio Brain’s Base em conjunto com a Aniplex.

Baccano! estrutura seu enredo em várias linhas narrativas que são contadas de uma forma fragmentada e misturada, mas que se mesclam e montam a história. Em 1711, um grupo de alquimistas a bordo do navio Advenna Avis invoca um demônio que lhes dão à dádiva da vida eterna através de um elixir. Em 1930, a jovem Eve Genoard procura por seu irmão Dallas Genoard em uma Nova York caracterizada pela Grande Depressão e pela Lei Seca. Em 1931, a família Gandor luta contra a família Runorata pelo controle de uma mesma área. Neste mesmo ano, o trem transcontinental The Flying Pussyfoot parte para a sua última viagem, que fica marcada por sangue, acontecimentos misteriosos e uma lenda do monstro Rail Tracer.

Esses fatos são os “carros chefes” do anime, mas ele também se apoia bastante nas construções de seus inúmeros personagens para mover a narrativa. Por vários momentos a história se faz confusa, mas com o desenvolvimento dos personagens o anime se faz envolvente até se iniciar a montagem do quebra-cabeça proposto. O anime inicia com uma discussão entre o Vice-presidente do Daily Days, Gustav Saint Germain e sua assistente Carol sobre como abordar relatos que devem ser contados para seus clientes. Os dois personagens investigam os incidentes envolvendo os imortais e escolhem dentre 20 pessoas quem serão os protagonistas do relato e decidem como a história será contada. Como é dito pelo próprio Gustav Saint Germain:

“Carol, você não deve pensar só na cronologia.”

Os dois escolhem os personagens principais e assim, Baccano! trabalha com cerca de 12 protagonistas que se envolvem no decorrer da história devido a alquimia, a máfia ou ao sequestro do trem. Temos uma avalanche de personagens carismáticos lançados para o espectador através de uma narrativa embaralhada. Tem-se do incrivelmente hilário casal de ladrões Isaac Dian e Miria Harvent até o o cruel assassino Ladd Russo e sua amante Lua Klein. Do gangster crianção Jacuzzi Splot até o misterioso condutor Claire Stanfield. São diversos personagens repletos de peculiaridades, cada um possuindo um desenvolvimento pequeno, mas que é eficiente para uma obra que propõe uma narrativa dinâmica.

Considerações técnicas

Baccano! mantém em seus 16 episódios boas sequencias de animação produzidas pelo estúdio Brain’s Base, um estúdio não tão grande mas que apresenta ótimos animes no seu “currículo” (vale citar Durarara!!, Natsume Yuujinchou, Mawaru Penguindrum). O anime possui ótimas sequências de ação bem coreografadas, ágeis e emocionantes que instigam. Além disso, o estúdio faz um bom uso das cores para intensificar o clima de algumas cenas, como nos momentos de tensão, reviravoltas na história e fomentamento de mistérios.

O character design me agrada até certo ponto, não tem nada daquele redondinho moe, mas que embeleza os protagonistas e enfeia os vilões. Eu sentia que quanto mais desprezível o vilão se tornava mais deformado seu rosto de tornava no decorrer de uma cena. Uma jogada que funciona para aumentar a tensão e causar mais desconforto naquele que assiste, normalmente aliando isso com cenas fortes de violência para finalizar alguns  momentos.

O anime possui uma excelente trilha sonora composta por Makoto Yoshimori, que trabalhou a série com um delicioso jazz, encaixando perfeitamente no contexto de uma América da década de 30. A abertura é composta por uma dinâmica e eficiente apresentação dos inúmeros personagens ao som do instrumental Guns N’Roses por Paradise Lunch. Na ending temos uma balada cantada pela Oda Kaori, composta pela maravilhosa Yuki Kajiura e que foge um pouco do clima proposto pelo anime com sua melodia de tom mais melancólico e menos efusivo. A OST de Baccano! como um todo é bem diversificada, mas em quase todas as composições podemos notar uma influência tanto do jazz como do R&B.

Outro ponto bem trabalhado em Baccano! é a dublagem. Os Vocal Actors (ou seiyuus, dubladores profissionais) passam aos personagens um caráter de individualidade através de timbres de voz, uma nuance diferente ou com trabalho nos sotaques de alguns. Isso coopera em distinguir os inúmeros personagens principais no meio dessa tumultuosa história. Eu até gostaria de citar nomes, mas o elenco se faz completamente talentoso. Claro, que um destaque especial para a Sayaka Aoki e sua animada interpretação da hilariante Miria Harvent.

Pessoal, já estamos em 2012 e acredito que seja fato consumado que a equipe do Brain’s Base sabe fazer bons animes. O estúdio não faz milagres em histórias ruins, mas trabalha aumentando potenciais de boas histórias que os japoneses já gostam. Baccano! é um exemplo disso. O anime foi um dos primeiros destaques de adaptação do estúdio, que em 2007 tinha apenas cinco anos de existência e não tanto respaldo como hoje. Como eu já descrevi, a narrativa é não-convencional, mas a direção do Takahiro não se perde em desenvolver a história, tanto que em poucos episódios o espectador encontra sentido nos fatos conturbados. Isso é umas das razões do anime ter qualidade, uma direção segura do que faz torna o produto final bem mais convincente do que tivéssemos um “caso contrário”.

Comentários finais

Quando comecei a assistir Baccano! eu imaginava que a história iria se perder em seu próprio embaralhar, mas a direção do Takahiro Omori e o roteiro do Takagi Noboru são eficientes e o montar da história é de incrível agrado. Eu fiz essa review sem nenhuma pretensão de contar o desenrolar da história, exatamente para que, caso alguém venha a assistir, esse alguém não perca a oportunidade de montar o quebra-cabeça apresentado e, desta forma, se envolver na história naturalmente. Tudo inicia enevoado, mas os personagens e o dinamismo da narrativa salvam. Com o decorrer dos episódios, as peças unidas começam a fazer sentido e o que era confuso se torna empolgante.

Com os três especiais do DVD, algumas pontas da história que ficam soltas nos treze primeiros episódios são fechadas e o anime se finaliza com uma história relativamente redonda. A história de Ryohgo Narita (também autor de Durarara!, sim as duas séries tem muito em comum) é excelente, mas eu acredito que o fator mais decisivo no sucesso de uma mídia áudio-visual é a forma que a história é contada e Baccano! foi explorado de uma forma interessantíssima pelo Takahiro.

Um anime pra se servir com pipoca, trazendo sequências de ação com toques de violência (dentes e dedos voando na tela!!), dramas individuais não-deprimentes e uma comédia pastelona de personagens hilariantes. Tudo com peso e contra-peso para que o show seja balanceado e agrade um público amplo, tanto que o anime foi bem recebido pelo público norte-americano e britânico em 2010.

Ah, não pode faltar: Baccano! é bacana.

por Laris

Asevedo

Formado em design editorial e assistente editorial da Panini Mangás. Leio mangás e história em quadrinhos de diversos países. Assisto animes de forma esporádica. Sempre estou no Twitter.

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