Review – Beelzebub, de Ryuhei Tamura: Volume 1 (Editora Panini)

DA DA DA! DA DA DA!

Mangás envolvendo “bad boys bonzinhos” não são novidades no Japão. Da mesma forma que o sucesso de tais personagens também não é nenhum tipo de surpresa. Exemplos? Yusuke Urameshi, um dos personagens mais queridos pelos brasileiros, é um exemplo “clássico” de mocinho bad guy. E claro que tal fórmula é utilizada até hoje, mas sendo adaptada de formas diferentes. É uma fórmula clichê do shounen, mas que sempre consegue atrair a atenção dos leitores. Lembra-se de Bakuman quando dizem que alguns mangás apresentam algumas “fórmulas” que não devem ser alteradas? Pois bem, é mais ou menos por aí.

Podemos dizer que Beelzebub segue a mesma regra. A série, que chegou a ser taxada por muitos como uma das grandes apostas da Jump para o futuro, não engrenou como era previsto, mas com certeza cativou diversos leitores pelo seu protagonista. Ou melhor, seus protagonistas. O que aconteceria se um bebê, filho do capeta master, encontrasse em um valentão briguento de colégio a imagem de seu “pai adotivo”? Bem, com base nessa ideia maluca que vemos a história de Beelzebub se desenvolver. Ou não. Tampem os ouvidos, porque a choradeira é grande, mas as risadas são maiores ainda.

A História

Oga Tatsumi é o típico valentão que todo mundo tem medo (exceto seu amigo Furuichi). E não é pra menos, afinal ele é frequentador de uma escola de delinquentes, a Ishiyama. Até aí tudo bem. Ou é o que parece. Um dia enquanto Oga está se livrando de alguns delinquentes que estavam lhe perturbando, ele encontra boiando no rio um homem gigante que repentinamente abre ao meio (literalmente) e “ejeta” uma criança de seu interior. Não, você não entendeu errado. Oga resgata a criança que inexplicavelmente se apega ao garoto, que não tem alternativa senão leva-lo para sua casa. Mas tudo bem, já que tudo começa a se explicar quando Hilda, a “babá” do garoto, aparece e revela a verdadeira identidade de ambos.

O bebê é nada mais e nada menos que o filho do Grande Rei Demônio, o diabo, o capiroto, o cara dos garfinhos. Beel é enviado por seu pai à Terra para destruir o mundo dos humanos, já que ele pessoalmente está muito ocupado para cuidar da tarefa. Porém para conseguir realizar a operação Beel precisa de uma espécie de tutor, que seja um cara mal o suficiente para que a criança se apegue e consiga desenvolver seus poderes da melhor forma possível. E assim começa a vida de Oga ao lado de Beel, que ao mesmo tempo que se preocupa com sua integridade física (já que Beel não pode se afastar muito dele ou uma descarga elétrica acaba com a vida do garoto), também se preocupa em uma forma de proteger a Terra e também se defender dos delinquentes da escola Ishiyama, que nunca mais será o mesmo lugar… Afinal, qual é o grande poder de Oga e por que ele foi o escolhido?

Considerações Técnicas – O mangá

Criado por Ryuuhei Tamura (ex-assistente de Toshiaki Iwashiro, autor de Psyren), Beelzebub foi o ganhador da Golden Future Cup de 2008 (a mesma competição que Nurarihyon no Mago ganhou um ano antes, e que é responsável pelo surgimento das séries de maior sucesso da Shounen Jump). Após o sucesso da one shot vencedora, Tamura ganhou uma série na revista semanal da Shounen Jump, fazendo com que Beelzebub estreasse em fevereiro de 2009 e sendo publicado até os dias de hoje, com 18 volumes e em andamento. A série ainda ganhou um anime de 60 episódios pelo estúdio Pierrot em 2011, e apesar de não se tornar “um dos futuros pilares” da Jump, acabou se mantendo em uma posição confortável até os dias de hoje.

Beelzebub é clichê. Clichê ao extremo. Sua história não desenvolve e durante mais de 100 capítulos não sabemos o que afinal vai acontecer com o bebê Beel na história toda. Mas tudo bem, já que o grande ponto positivo de Beelzebub é totalmente concentrado no carisma que os personagens esbanjam, principalmente nosso pequeno protagonista de cabelo verde. O que deveria ser “irritante” acabou se tornando um alívio cômico para o título, o que acabou o caracterizando. Mesmo com batalhas tecnicamente rápidas em relação a outras obras, o mangá consegue te divertir como poucos. Claro, em alguns momentos as piadinhas de “choque” acabam se tornando cansativas, mas é inevitável deixar de abrir um sorriso com cada atrapalhada de Oga e sua criança.

O engraçado é que mesmo com um nome “pesado” para os fanáticos religiosos, o mangá não encontrou opressões por causa do filho do rei demônio (exceto na época do terremoto japonês, quando o anime foi adiado devido às explosões).  E nem deveria. Beelzebub pode ser taxado muito mais como um mangá de comédia do que de ação propriamente dito. Como disse antes, o grande atrativo são as cenas em que Oga tem que se virar para não fazer Beel chorar ou tentando arranjar uma forma de trazer seu amigo Furuichi para a encrenca. Mesmo Hilda, personagem que teoricamente serviria para “equilibrar” as coisas, não deixa o humor de lado e consegue um destaque com seu humor negro e a forma como trata os objetos e “coisas” vindas do mundo dos mortos como normais, como se esquecesse de que está no mundo dos humanos. Isso sem falar na relação que Beel vai adquirindo com Oga, algo que beira o “pai e filho” e que dá vontade de soltar um “que fofo” a cada passagem dos dois juntos e cada bronca do “papai” no bebê.

De qualquer modo, Beel é rápido em suas passagens. As lutas não demoram, duram poucos capítulos e algumas vezes isso pode até ser encarado como um ponto negativo para a história. Mesmo sua comédia não sendo no mesmo nível dos capítulos “normal days” de Katekyou Hitman Reborn, é importante dizer que o enredo não evolui (talvez isso se reflita bastante na popularidade do título, que não cresce, mas também não desce). Se busca um título que te conquiste com uma taxa de adrenalina “a la“ Yu Yu Hakusho, não se engane. As semelhanças param nas características dos personagens e só. E claro que isso não é necessariamente algo ruim, apenas que não reflete em um comum agrado.

Considerações Técnicas – A versão Panini

Beelzebub é uma aposta da Panini. Mesmo se tratando de Shounen Jump e tendo uma popularidade razoavelmente boa, é necessário se analisar que um mangá da revista em andamento nunca é um sinal dos melhores, já que o tempo que ela pode demorar é imprevisível. De qualquer modo, é uma opção a mais de shounens para a editora. E que foi tratada de uma forma que me agradou muito, principalmente quando nos referimos a tradução e adaptação. Um show a parte para alguns, um show de horrores para outros.

Por ser um mangá de comédia envolvendo personagens membros de “gangues” e colegiais, a linguagem que a editora escolheu para o título lembra muito a nossa versão nacional de Yu Yu Hakusho – e tenho certeza que muitos que compraram o mangá sem conhecer nada sobre ele, tiveram a mesma impressão. Com gírias usadas em abuso, mas sem deixar de descaracterizar a obra, Beel consegue te arrancar muitas risadas. “Catei um capeta!” é um dos exemplos de expressões para brincar com a situação do filho do demônio. Não existe uma restrição com o assunto, então as piadas envolvendo os capetinhas e etc. são usadas em exaustão e fazem todo o sentido do mundo. Ao ler o mangá você já imagina como seria o anime dublado. Claro que as gírias não são do agrado de todos e com certeza surgirão as reclamações, mas pensando dentro do contexto da história e pontuando que não existem expressões “inventadas”, acredito que a adaptação ficou ótima.

Quanto ao material impresso, nada de novo ou diferente. O mangá apresenta o mesmo formato de outros shounens da editora Panini, como Naruto, One Piece ou Bleach (com capa interna colorida), custando R$10,90 e periodicidade bimestral. A tradução fica por conta de Dyrce Miyamura, a mesma que cuida de Monster ou 20th Century Boys (é engraçado pensar nesse título com uma tradutora de outros dois tão sérios). Tudo dentro dos padrões e um trabalho extremamente aceitável e que vale o investimento dos interessados na edição.

Comentários Gerais

Sou suspeito para falar qualquer coisa que envolva Beelzebub. Ele é o meu “xodó” dentre os títulos atuais da Shounen Jump. Sempre me faz rir, e mesmo admitindo que a história não seja o ponto forte da publicação, não consigo deixar de elogiar o mangá. Mas deixo o aviso: se quer algo que se desenvolve de uma forma mais clara, sem enrolações, recomendo muito mais um título como o próprio Nurarihyon no Mago. Beelzebub está aí para ser um alivio cômico, como disse anteriormente. Digo isso como fã que não pretende enganar ninguém apenas para ganhar alguns compradores. Ele se sai bem no que se compromete: diversão. Isso você encontrará de sobra.

Como mangás de comédia “pura” parecem não ter muito espaço por essas bandas, a solução da Panini em publicar um shounen mais “pop” e com um apelo maior, parece ter sido o caminho encontrado. Espero que o título se saia bem, pois tem potencial e deve agradar muitas pessoas pelo seu excesso de carisma. Ah, e também vale citar que a evolução no traço do autor não é tão aparente no começo, mas com o tempo perceberá que ela existe. A opção é sua. Se buscar algumas risadas, essa pode ser a sua melhor escolha.

por Dih

Dih

Dih

Paulistano, 28 anos, corintiano e fissurado em cultura asiática e pop. Formado em Design Gráfico na FMU. Atualmente é editor na Panini/Planet Mangá e cuida de títulos como One-Punch Man, MOB Psycho e Jojo's Bizarre Adventure.

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