Review – O apocalipse vampiro em ‘Seraph of the End’

De olho na história e no trabalho editorial da Panini.

Faz muito tempo que um clichê se criou na mídia shounen japonesa: o de protagonistas que precisam superar seus medos para seguir adiante em busca de um determinado objetivo. E apesar de ser algo mais batido do que leite de vitamina, é uma fórmula que se repete e que continua sendo sinônimo de acerto com o público em geral. Mirai NikkiDeadman WonderlandTokyo Ghoul… Eu poderia listar diversos mangás que se utilizam disso. E talvez mais um com o desta resenha. Talvez.

Seraph of the End é mais um título que se apoia em um público jovem em busca de “porradinhas” e “poderes” na dose battle shounen. Incluindo vampiros, demônios, um exército e armas extremamente poderosas, tem tudo que o público em busca de novas “modinhas” quer. O título acabou ganhando ainda mais destaque em 2015 com seu anime, e, pensando nisso, a Panini decidiu mais uma vez apostar em um título da Shueisha para aumentar o seu poder de fogo da demografia. Mas será que ele consegue deixar de lado o rótulo de “só mais um”?

A HISTÓRIA

Um dia, um vírus misterioso apareceu na Terra e matou todos os seres humanos infectados com idade superior a 13 anos. Ao mesmo tempo, vampiros surgiram das trevas do mundo, escravizaram a humanidade e os trataram como gado. A justificativa é simples: apesar de serem tratados como fonte de alimento, ao menos eles poderiam viver sem morrer nas mãos do terrível mundo que se formou com o vírus não identificado.

Hyakuya Yuichirou, um jovem garoto que sobreviveu junto com outros órfãos, sonha grande, sonha em matar vampiros, sonha em matar todos eles. Ao lado de seu amado amigo Mika, os dois consegue colocar um plano em prática: fugir das mãos dos vampiros que os escravizam. Porém algo dá errado, todos são descobertos, e Yuu descobre da pior maneira como é estar impotente diante de mortes inevitáveis. Graças a Mika, ele ainda consegue fugir. Após escapar do cativeiro Yuuichirou se tornou membro do Exército Imperial Demoníaco Japonês, uma unidade do exército japonês dedicada a caçar os vampiros, Yuuichirou dedica sua vida para destruir vampiros e buscar vingança contra eles por terem assassinado a sua “família“.

COMENTÁRIOS GERAIS

Owari no Seraph é um mangá de ação e fantasia escrito por Kagami Takaya, com traços de Yamamoto Yamato e storyboards por Furuya Daisuke; foi lançado em 2012 pela revista Jump Square e possui 14 volumes em andamento. A série ganhou uma adaptação pelo WIT Studio, mesmo estúdio de Shingeki no Kyojin. A obra ganhou duas temporadas de 12 episódios cada, ambas lançadas em 2015. Em 2016, um OVA acompanhou a edição limitada do volume 11. Toda a obra se deu origem através de uma novel publicada pela Kodansha (pois é) focando nos acontecimentos do passado dos personagens.

Nesta resenha, falaremos apenas do mangá, e é justamente através do primeiro volume que percebemos como ele é bem corrido no quesito história. Recheado de informações, porém sem uma verdadeira preocupação em tentar explicar tudo o que acontece naquele universo. Os capítulos são acelerados e as situações ocorridas são prol do protagonista, a fim de realçar o quão incrível o mesmo é – sendo, até certo ponto, um incômodo. Mas devo dizer também que é compreensível o autor optar por esse caminho; ele precisa mostrar para o leitor que a trama é emocionante e que pode fisgar a atenção de quem lê, mas isso sem se apegar aos mínimos detalhes inicialmente.

O volume introdutório tem o suficiente para animar o leitor a seguir com a história. Ele não é exato na hora de explicar o que está acontecendo, mas as cenas de luta compensam esse vazio; me arrisco a dizer que a ação é a melhor característica que Seraph of the End tem a oferecer. O traço é fluído, é empolgante e ainda tem o que muita gente procura em título shounen: porrada. Isso sem ter que esperar um “motivo” acontecer, a todo momento os personagens estão batalhando com algum monstro ou vampiro. Tédio aqui não há.

Algo a se notar também é o fato do mangá ser o que chamamos de clichê. A começar pela personalidade do protagonista, Yuu, um garoto impulsivo, que busca por vingança contra os vampiros e que declara ser aquele que acabará com todos, mas que ainda assim não é muito inteligente na hora bolar planos para que tal feito aconteça; em contra partida, há seu amigo de infância, Mikaela Hyakuya, um garoto calmo, que agrada a todos e que está a frente do protagonista quando se trata de planejamento. Além do fator “personagens opostos”, ainda há todo um enfoque para o tema vingança, criando em Yuichiro a pressa de ser forte e de mostrar que ele é bom o suficiente para entrar em campo de batalha; nesse sentido, nada inovador.

A arte por Yamato Yamamoto não fica para segundo plano. Como disse anteriormente, as cenas de luta são o verdadeiro destaque da trama mas principalmente por serem bem feitas; cada quadrante mostra movimentos fluídos, sem a necessidade de narrativas, com desenhos limpos e fáceis de entender – o leitor não precisa ficar voltando para conferir “o que aconteceu”, é autoexplicativo. Outro destaque são as capas belíssimas do mangá, com efeitos, cores chamativas e luminosas; o suficiente para chamar a atenção até mesmo de quem só estava de passagem pela banca. Um detalhe notável ainda é o fato dos desenhos de Yamamoto apresentar mais “curvas” e não ser aquele aquele “retão’ de shounen aos moldes Naruto.

Se tivesse algum “erro” para apontar, seria pela semelhança visual entre alguns personagens a ponto de confundir quem lê – a primeira momento, poderia jurar que Yuichirou e Guren Ichinose eram parentes, porque a única coisa que os diferencia é o formato do olho e alguns detalhes do cabelo.

De qualquer forma, tenho expectativas em Seraph of the End sim. Não são altas, porém o suficiente para não desistir de uma coleção. A série foi muito pedida na época em que o anime estava sendo exibido, ganhou popularidade e, graças a conhecidos, soube que do plot começam a surgir algumas coisas… interessantes. A julgar somente pelo primeiro volume diria que foi mediano, mas ao mesmo tempo foi rápido e divertido; encerrei a leitura com um sentimento de “proposta cumprida” pela parte do entretenimento, entretanto, daqui para frente aguardo avanços no desenvolvimento e explicações, essas, aliás, me deixam ansiosa para ver qual rumo os autores tomarão.

EDIÇÃO NACIONAL

Sempre fui muito a favor do papel jornal; é maleável, tem transparência não berrante, o custo é mais barato e ainda me remete a nostalgia do começo das minhas coleções de mangás. Sem dúvida sou uma das últimas pessoas a reclamar do formato. Mas como tudo na vida tem uma primeira vez, devo confessar que não fiquei totalmente satisfeita. Ao contrário do papel de Lovely Complex ou Ore Monogatari!! – leia-se aqui títulos que saem também algum tipo de “papel jornal” e a preço de R$13,90 -, o escolhido para Seraph of the End tem uma coloração um pouco mais escura dos que citei anteriormente. É um motivo bobo e que não influencia a minha decisão de compra, mas que em certos momentos me fazem procurar um pouco mais de luz no ambiente que estou para poder enxergar melhor os detalhes.

Confesso que assim que vi o título na banca fiquei um tanto quanto surpresa. Não sou uma pessoa que cobra por formatos diferentões e luxuosos, se o mangá estiver vindo por uma editora que faça o trabalho e faça bem feito, para mim já é o suficiente. Entretanto, no primeiro momento fiquei chocada ao ver que a obra estava saindo com o formato mais “básico” que a empresa tem a oferecer, mesmo sendo famoso e muito pedido pelos leitores daqui. Foi aí que pude perceber o quão mal acostumada fiquei com a enxurrada de offsets, mangás com orelhas, acabamentos melhores e preços mais elevados que nos últimos tempos todas, ou quase todas, as editoras estão empurrando para o consumidor a ponto de mostrar como a edição está caprichada e por esse motivo o leitor deveria ter em sua coleção. Por esse lado é um alívio um formato desses, é barato e ainda “evita” eventuais frustrações com hiatos entre outras situações que histórias em andamento tem o risco de passar. Seraph of the End é longo e tem muito chão pelo caminho, isso por si só já influencia na escolha do formato e em seu tipo de publicação; sem reclamações nesse tópico.

Pra finalizar, sou uma pessoa chata quando se trata de adaptações. Não gosto de textos com uso exagerado de gírias, me irrito com descaracterização de personagens e sempre entro em modo “competição” para ver se encontro algum errinho ortográfico – afinal de contas, estou pagando pelo que consumo. Gosto bastante do trabalho da editora Panini, até porque vejo que eles tem cuidado com o material, tentam publicar de maneira diferenciada e por nesses últimos tempos estarem diversificando a escolha dos títulos – pelo amor de Deus, eles que cuidam dos meus shoujos chatos -, porém, algo que sempre fico de olho é com relação a “moldagem” que fazem em suas obras. Em resenhas anteriores citei sobre a mudança de linguagem em Slam Dunk de um encadernado para outro e até mesmo uma certa descaracterização por parte do personagem Suwa, em Ore Monogatari!!. Tais eventos me fizeram ficar mais atenta para essa questão, mas devo confessar que nesse aspecto não há nada que me irrite em Seraph of the End; sem excessos de gírias, falas “limpas” e até onde sei, sem descaracterização de ninguém. Ponto para a editora.

CONCLUINDO

Clichê. Já dissemos aqui no Chuva de Nanquim algumas vezes, mas acho que vale ressaltar: ser clichê não é um problema. Nunca será. O problema é como usar tais clichês. Fórmulas são repetidas para novos públicos aprenderem a aderir, a gostar, a se descobrirem como consumidores. E é exatamente isso que percebemos em Seraph of the End. O mangá entra no comum, não apresenta uma grande novidade, lembra (e muito) seu “amigo de revista” Blue Exorcist. Mas isso não incomoda mesmo assim. Seraph é redondinho, bonito, empolgante e segue a fórmula tradicional da jornada do herói moderno dos mangás shounen.

Talvez você que leia muitos materiais diferentes não goste. Ache que é algo que já viu em muitos lugares. Mas se você é alguém que busca algo novo, sem grandes pretensões e honesto, Seraph of the End pode ser a escolha certa para você. Em um formato bom, acessível e que não nos deixa lá com muitas pulgas atrás da orelha por causa do preço, o mangá tem de tudo para cair nas graças de um público emergente de mangás no Brasil. Uma pena que hoje animes estejam tão difíceis de aparecerem por aqui – tenho certeza que este em especial poderia se tornar muito querido pela molecada atual.

Longe de ser super original. Longe de ser péssimo. Seraph of the End é mais uma opção nas bancas.


SERAPH OF THE END

Autores:  Takaya Kagami & Yamato Yamamoto
Editora: Panini Comics; Preço: R$13,90
Periodicidade: Bimestral
Total de volumes: 14 edições (em andamento)
Lançamento

Miyuki

Tão normal, nem parece otaku. A louca das webcomics. Segue o mantra de ler e assistir de tudo um pouco (menos o que for terror, por favor). Tem um vício novo a cada mês e surta horrores na conta pessoal no Twitter.

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  • Gostaria de, primeiramente, elogiar a autora do texto: escreve muito bem! Deu até felicidade ler tudo, de tão bem escrito, construído e esclarecedor. Muito obrigado pela leitura!

    Agora, sobre o título: é realmente um mangá que não me gera interesse nenhum. Seja pela história, pelas capas ou pela arte, no geral, parece ser apenas um mangá comum e que não vale o investimento – e posso estar totalmente enganado, mas continuo pensando assim. Ser aclamado também não me diz muita coisa, pois Pandora Hearts era tão pedido há alguns anos e, quando comecei a colecionar, não consegui passar do terceiro volume, de tão chato e desinteressante que se mostrou.

    Concordo totalmente com o ponto sobre a publicação em formato padrão, por ser um título comum; mas a Panini me decepcionou muito publicando Hikari no Machi, one-shot de Inio Asano, no mesmo formato básico, mesmo já tendo publicado HAL e The Wedding Eve, ambos one-shots, em formato ~de luxo~. Esperava um trabalho melhor por ser um autor tão aclamado, mas não houve problemas nesse formato, só a decepção por não terem um cuidado especial com a obra.

    Enfim, mais uma vez: obrigado pelo texto!

  • Vicente Lucas Filho

    Espero que num prazo de dois anos, chegue pela Panini Sousei no Onmyouji, que é o irmão mais novo dos dois.

  • Stain, o Assassino de Heróis

    Só acompanhei pelo anime, a primeira temporada achei meio chata por ser muito clichê, mas a segunda já gosto mais porque já aparece aquela questão que entre os humanos existem filhos da p*%# e que até mesmo entre os vampiros existe sacanagem uns com os outros.
    E eu realmente acho que o maior problema do anime que afetou a obra é que, sie lá, na época me pareceu que a Shueisha queria vender Owari como um novo Shingeki no Kyojin (até contrataram o MESMO estúdio).
    Aliás, esse é o grande X da questão: Humanidade quase extinta, protagonista revoltado e cabeça-dura com sede de vingança e jura matar todos os indivíduos de uma espécie X até não sobrar mais nenhum, a espécie X que se alimenta dos humanos, protagonista com um grande segredo entorno… P&*$#, desculpa ae, mas existem semelhanças com Shingeki no Kyojin (falam que parece com Ao, não, não acho), só que ambos eu considero bom, só que eu vi gente fazendo briga entre fandons, acho que um dos grandes obstáculos da obra no país é além do preconceito citado no texto é o fato dele carregar a taxa de “plágio de Shingeki” que as pessoas gostam tanto de rotular.

  • Stain, o Assassino de Heróis

    Uma coisa legal pra comentar: Na primeira temporada, segundo uma teoria de fãs da obra que analisaram o anime, a abertura do anime é uma música cuja a letra seria uma mensagem do Yuuichirou para o Mikaela. O encerramento seria uma resposta de Mika à Yuu. Não vi a tradução das letras, mas falaram que prestando bem atenção nelas, você nota referências escondidas aos dois personagens. Alguém confere isso?

  • Marcos Correia

    Eu tinha o péssimo hábito de começar comprando uma série e só ler mais tarde, depois de vários volumes lançados. Daí, mesmo me decepcionando, acaba comprando só porque já tinha começado a coleção.
    Mas este eu li logo depois de comprar, e assim dropei sem maiores dores na consciência.
    Não vai fazer falta, não.

    • Tenho essa mesma mania. Atualmente, faço isso com One-Punch Man, Slam Dunk, BLAME! e Kekkai Sensen. Com este último, tenho um relacionamento curioso: li os primeiros três capítulos do primeiro volume e adorei, mas não consigo ler mais que isso!

  • Rychard Mariano

    A edição nacional me deu uma broxada, folhas escuras e bem mole no miolo sendo até meio arriscado abri – lo com muita força para nas destacar as folhas. Porém é uma obra que eu fazia questão de comprar quando saísse aqui no Brasil. Sua review foi ótima e é exatamente o que eu penso sobre o mangá em si, é clichê porém diverte bastante e instiga o leitor. Como já estou em dia com os scans devo dizer que tudo fica muito bom após a batalha de Nagoya.